Governo quer reforçar controle do renascimento de Angola

Tom Burgis

O partido governante em Angola deixou pouco ao acaso em sua tentativa de garantir uma maioria parlamentar nas eleições que se realizam nesta sexta-feira e de manter o controle de uma economia rica em petróleo e diamantes. Na última vez em que os angolanos votaram, em 1992, o resultado apertado reacendeu a guerra civil. A votação de agora poderá ter repercussões muito além das fronteiras nacionais.

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Vista da região central de Luanda, capital da Angola, mostra guindastes nas construções

Caso se mantenha o clima majoritariamente pacífico da campanha, analistas acreditam que poderá ajudar a cimentar a posição de Angola como peso-pesado regional, com uma economia que dobrou de tamanho a cada três anos desde o final de 27 anos de guerra civil, em 2002, atraindo crescente interesse de investidores estrangeiros.

1975 - Depois da independência de Portugal, rivalidades da guerra fria exacerbam a guerra civil, jogando o MPLA apoiado pelos soviéticos contra os rebeldes da Unita patrocinados pelos EUA e a África do Sul do apartheid.

1992 - Uma tentativa de trégua fracassa quando a Unita acusa o governo de tentar fraudar as primeiras eleições do país.

2002 - Jonas Savimbi, fundador da Unita, é morto por tropas do governo, acelerando um acordo de paz.

2005 - O governo do MPLA aceita um acordo de bilhões de dólares com a China, trocando petróleo por infra-estrutura.

2006 - Angola entra para a Opep, o cartel do petróleo, estabelecendo a posição de grande produtor.

2008 - Convocadas eleições parlamentares.
O CAMINHO DA RECUPERAÇÃO
As eleições também ajudaram a reenfocar a atenção nas extremas desigualdades de distribuição de renda em um país que rivaliza com a Nigéria como maior produto de petróleo da África e uma das economias de crescimento mais rápido no mundo.

Grande parte da riqueza criada com o boom se acumulou em uma pequena rede de políticos bem relacionados e empresários, dando à elite governante em torno do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) enormes poderes de clientelismo, segundo o ativista dos direitos civis Rafael Marques.

O MPLA está confiante que manterá a maioria de dois terços necessária para ter rédeas livres para reformar a Constituição. A oposição está dividida e mal financiada, enquanto seu principal componente, a Unita, lutou para fazer a transição de movimento de guerrilha para partido político desde que o assassinato de seu líder, Jonas Savimbi, em 2002, o que causou uma interrupção da guerra civil.

No entanto, depois das fraudes e da violência nas recentes eleições na Nigéria, Quênia e Zimbábue, Luisa Morgantini, chefe da missão de observadores da União Européia, disse que as muito esperadas eleições angolanas poderão ajudar a reanimar a confiança no processo eleitoral na região, apesar da dominação do MPLA na mídia estatal e de incidentes de intimidação.

Desta vez, diz um homem que vende cebolas junto à estrada, o que muitos angolanos comuns desejam é a garantia de uma paz continuada e a promessa de que os gastos na reconstrução de estradas, escolas e hospitais começarão a melhorar os padrões de vida, entre os mais baixos do mundo.

Segundo estimativas, US$ 250 milhões em rendas do petróleo correm para os cofres do Estado todos os dias. Mas até agora a maioria dos angolanos viu pouco disso. José Eduardo dos Santos, buscando o selo de legitimidade democrática depois de três décadas na presidência, disse na quarta-feira a centenas de milhares de seguidores na capital, Luanda, que seu governo se prepara para disseminar mais a riqueza, criando uma "nova classe de empresários".

Santos, que parece certo em prolongar seu governo nas eleições presidenciais do próximo ano, usou o boom de recursos de Angola para remover todas as alavancas de pressão internacional, saldando a dívida externa e assinando um enorme acordo com Pequim para prospectar petróleo em troca de empréstimos e infra-estrutura.

Com a produção de cru acelerando para 2 milhões de barris/dia, diplomatas ocidentais admitem que precisam ser simpáticos com a ex-colônia portuguesa.

O MPLA prometeu construir um milhão de casas e criar um milhão de empregos antes das próximas eleições, daqui a quatro anos, e está cortejando investidores agrícolas internacionais para ajudar a diversificar a economia.

Por enquanto essas promessas, combinadas com antigas lealdades do tempo da guerra, parecem suficientes para garantir um novo mandato eleitoral. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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