Subestimada, a candidata republicana a vice-presidente continua desafiando expectativas

Kevin Allison e Edward Luce

Por uma vez o cômico "Daily Show" talvez não tenha sido sobre dinheiro. Fora do recinto da convenção republicana esta semana ele exibia um outdoor que dizia: "Bem-vindos, oligarcas brancos e ricos". Lá dentro, delegados ricos ou nem tanto prestavam igualmente obediência a sua mais nova e menos esperada estrela - uma mulher de 44 anos, mãe de cinco filhos, que caça alce e cujo marido pratica corrida de snowmobile nos fins de semana.

Pouco mais de uma semana atrás, virtualmente ninguém fora do Alasca tinha ouvido falar em Sarah Palin. Hoje os fiéis do Partido Republicano olham para a governadora de primeiro mandato do Alasca como sua arma mais eficaz no que promete ser uma espécie de guerra cultural contra Barack Obama, o candidato presidencial democrata. Nas palavras do senador John McCain, que enganou seus adversários, a mídia e talvez a si próprio ao escolher Palin de surpresa para sua candidata a vice, "ela trabalhou com as mãos e sabe o que é se preocupar com os pagamentos da hipoteca".

Alguns, apontando sua falta de experiência, acharam que McCain fez uma péssima escolha. Outros, observando que isso havia calado toda a conversa prejudicial sobre as oito casas de McCain, viram a coisa de outro modo. "Sarah Palin é um sopro de ar fresco", disse o ex-candidato e ator de televisão Fred Thompson aos delegados. "Os críticos de Washington estão frenéticos por causa da escolha de uma mulher que governou, e não apenas conversou nos programas de entrevistas de domingo ou chegou ao circuito de coquetéis de Washington."

Para Palin parecia a situação mais natural do mundo. "É incrível", ela disse para McCain quando os dois se encontraram no palco com suas grandes famílias (12 filhos ao todo) para o estouro de balões que indica o grande final. Foi o melhor adjetivo para resumir uma semana que a havia catapultado da obscuridade para uma posição em que ela poderá ficar muito perto de ser a primeira mulher a presidir os EUA.

Nascida na pequena cidade de Sandpoint, em Idaho, em 1964, Sarah Heath foi a terceira de quatro filhos de uma família de operários que pouco depois se mudou para o Alasca - o Estado mais novo e última fronteira da América. A família se instalou na natureza. Segundo sua biógrafa, Kaylene Johnson, o congelador estava sempre cheio de peixe e caça. "Papai não parava de preparar aventuras para nós", disse Chuck Heath, seu irmão mais velho. "Nós podíamos literalmente caçar no quintal dos fundos de casa."

O primeiro sinal do apetite de Palin por um palco maior surgiu em sua adolescência, quando ela surpreendeu os irmãos anunciando que entraria no concurso de Miss Wasilla - sua cidade. "Lembro que perguntei a ela por que ia entrar em um concurso de beleza, coisa que parecia tão tola para todos nós", disse Chcuk. "Ela me disse com simplicidade: 'Vai ajudar a pagar minha faculdade'."

E deu certo. Depois de se formar na Universidade Estadual de Idaho em jornalismo, Palin (que então havia se casado com seu namorado de colégio, Todd), lançou-se na carreira de apresentadora esportiva de uma afiliada local da NBC. Foi um trampolim para sua incursão na política, primeiro como membro da Câmara de Wasilla, depois como prefeita. Poucos em sua família haviam previsto que a política seria sua vocação. Baseada em uma plataforma de "estradas e esgotos", Palin explorou seu reconhecimento local para deslocar políticos mais antigos, geralmente homens. Foi um feito que ela realizaria várias vezes. "Eu a subestimei", disse John Binkley, um empresário do Alasca que perdeu para ela na primária republicana para o governo em 2006.

Também é uma descrição que poderia resumir a primeira reação do Partido Democrata a Palin na semana passada. "Eu supus que sua falta de experiência, comparada à experiência que eu tinha, seria evidente e marcante", acrescentou Binkley. "Não importava se tentássemos atacá-la ou se tentássemos ignorá-la. Ela simplesmente se conectava com os eleitores."

Palin rapidamente se transformou de aprendiz em hábil operadora que sabia quais botões populistas devia apertar. O Alasca, dominado por uma "rede de velhos amigos" republicanos, muitas vezes corruptos, estava maduro para a mudança. Mais uma vez, explorando o fato de que seus rivais - muitas vezes antigos mentores - a subestimavam, Palin combinou um conservadorismo de cidade de interior com uma reputação populista de denunciar erros do próprio partido. Às vezes, como quando ela participou da delegação do Alasca na convenção republicana de 2004, sua reputação de deslealdade e oportunismo a transformou em pária. "Ninguém prestava muita atenção nela", disse um delegado. "Lembro-me dela principalmente sentada sozinha."

Mas o que soava negativo para a hierarquia era música para os ouvidos dos eleitores do Alasca. Com um pequeno orçamento, Palin desafiou os gurus e rivais, derrotou o governador do Alasca na primária e se tornou a indicada republicana. Menos de dois anos depois, seu índice de aprovação superava o de quase qualquer outro governador nos EUA.

Tendo disputado com uma plataforma social e fiscal conservadora, ela governou em termos pragmáticos. Usando as gordas receitas do petróleo do Estado, Palin recentemente mandou uma devolução de US$ 1.200 para todas as famílias do Alasca. Enquanto isso, os eleitores ouviram falar muito pouco de seu fundamentalismo cristão. Ao contrário de suas promessas, ela não tomou medidas para restringir os direitos ao aborto ou introduzir o ensino do criacionismo nas escolas.

Depois veio o relâmpago de McCain que pegou a própria Palin de surpresa (ainda em junho ela disse a um repórter que não tinha idéia de para quê servia a vice-presidência). Até sua sogra parecia duvidar de suas credenciais. Os amigos ficaram incrédulos. "Eu disse: não acredito!", disse Mark Niver, que corre de snowmobile com Todd Palin. "Mas depois de alguns minutos pensei que daria certo. Ela estuda muito - lê o jornal todos os dias de cabo a rabo."

Muita coisa ainda poderia prejudicá-la, como o inquérito sobre alegações de que ela usou seus poderes de governadora para tentar demitir seu ex-cunhado, um policial estadual. O inquérito deverá ser divulgado apenas uma semana antes da eleição. Por enquanto, Palin está chamando a atenção de milhões que vêem nela algo de si mesmos - famílias de operários de cidades pequenas que formam a espinha dorsal da auto-imagem da América. "São os que fazem os trabalhos mais duros - que plantam nossos alimentos, movimentam nossas fábricas e lutam nossas guerras", disse Palin aos delegados que aplaudiam. "Eles amam seu país, nos bons e nos maus momentos, e sempre se orgulham dele." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos