Barclays chega a acordo para compra de ativos do Lehman

Chris Hughes

O Barclays concordou condicionalmente nesta terça-feira (16) em comprar a maior parte da plataforma bancária de investimentos do Lehman Brothers nos Estados Unidos, no momento em que os administradores dos negócios do combalido Lehman no Reino Unido davam os primeiros passos no sentido de liquidar os seus ativos.

O negócio a ser feito pelo Barclays exige aprovação judicial e das autoridades reguladoras, mas indivíduos que acompanham de perto o processo estavam otimistas na noite de terça quanto à perspectiva de superação de quaisquer obstáculos. Segundo duas pessosa familiarizadas com o modus operandis do Barclays, a aquisição será provavelmente acompanhada de uma discreta iniciativa de capital raising (busca e análise de fontes de capital adequadas) por parte do banco britânico.

Para o Barclays, tal acordo aceleraria a atual estratégia ambiciosa do banco no sentido de conquistar uma fatia de mercado nos Estados Unidos em um momento no qual a concorrência encontra-se enfraquecida. Caso o Barclays concorde em comprar o prédio do Lehman, a empresa britânica ganhará um imóvel proeminente no centro de Times Square para nele colocar a sua logomarca.

Para o Lehman, o acordo fornece a perspectiva de manutenção dos empregos de alguns dos seus funcionários, e pode melhorar os índices de resgates para os credores.

Ainda não se sabe ao certo se o Barclays procurará agora adquirir as operações bancárias de investimentos do Lehman na Europa e na Ásia. Segundo pessoas que conhecem bem o banco de investimentos falido, os negócios de trading de renda fixa e equity do Lehman nas operações da Europa e da Ásia baseam-se tradicionalmente no conhecimento e na infra-estrutura disponível nos seus escritórios em Nova York, de maneira que qualquer comprador interessado teria que adquirir primeiro os negócios do banco nos Estados Unidos.

Na terça havia uma nova sensação de esperança entre os banqueiros do Lehman no escritório de Londres. Diretores do banco que atuam na capital inglesa reuniram-se no início da manhã para discutir as opções disponíveis após terem sido informados de que o Barclays estava próximo a um acordo, e que também houve manifestações de interesse pela franchise européia de assesoria e financiamento corporativo, que emprega quase 700 pessoas.

A PwC, a empresa administradora do acordo, estudava maneiras de criar meios para o pagamento de funcionários de importância fundamental, que são necessários para ajudar a manter as operações funcionando enquanto não se concretiva a venda. Ontem alguns fundos foram retirados da condição de ativos financeiros líquidos de venda no trading book do Lehman.

Tony Lomas, diretor da PwC, afirmou: "Sem dúvida é importante manter o corpo apropriado de funcionários e estudar formas de conseguir isso".

Os administradores também criaram um registro de transações controladas pelo Lehman - como simples intermediário, sem o empenho de capital. A medida foi aprovada pela London Clearing House. Havia discussões em andamento sobre um projeto similar com a Eurex e a Euroclear.

Lomas afirmou que houve "cerca de meia dúzia" de manifestações de interesse pelo setor europeu de assessoramento financeiro e investimento do Lehman por parte de "partes críveis".

O setor de trading também foi alvo de algumas sondagens, embora o interesse inicial tivesse se concentrado na franchise de assessoramento. Esse setor provavelmente será o mais atraente para quem quer que feche um negócio para a aquisição dos ativos de corretagem do Lehman nos Estados Unidos.

Lomas afirmou: "Nós temos um profundo interesse nas discussões que estão ocorrendo nos Estados Unidos".

Enquanto isso, os funcionários que no dia anterior pediam a "headhunters" que encontrassem para eles novos empregos, ligaram de volta para esses caçadores de profissionais qualificados para dizer-lhes que não se apressassem.

"Queremos fazer com que este negócio com o Barclays dê certo", disse um dos diretores do departamento de fusões e aquisições do Lehman. "Há nesta divisão mais de 600 pessoas que não seriam capazes de pagar as hipotecas e as dívidas de cartões de crédito caso ficassem desempregadas, e sentimo-nos responsáveis por elas".

Um funcionário da área de trading do banco afirmou: "Eu simplesmente adoraria trabalhar para o Barclays. As pessoas encontravam-se à beira do abismo. Os caras que estão no topo da instituição serão capazes de obter um emprego em qualquer lugar, mas eles são leais a todos aqui. Sempre fomos a parte fraca, e caso haja um acordo com o Barclays, isso significará a existência de uma cultura empresarial fabulosa".

"A mensagem agora é 'tenham paciência'", disse um dos funcionários.

Vários diretores do escritório do Lehman em Londres disseram ter cogitado criar um pequeno banco de investimentos independente para competir com o Perella Weinberg, a firma formada dois anos atrás por Joe Perella, Peter Weinberg e Tarek-Abdel Meguid, entre outros. No entanto, eles decidiram não seguir este plano, já que não seriam capazes de aproveitar todos os 700 funcionários do Lehman em tal firma.

Os banqueiros anunciaram que o departamento de finanças corporativas do Lehmam estava aberto para negócios. "Todos vieram trabalhar hoje, todo mundo está executando as suas tarefas e até mesmo pagando quantias com os seus próprios cartões de crédito para garantir que continuemos atendendo aos nossos atuais clientes", disse um diretor.

William Vereker, que na semana passada foi nomeado co-diretor das operações de investimentos bancários do Lehman na Europa, conversou com os funcionários na tarde de ontem a fim de explicar que todos devem continuar trabalhando normalmente.

"Ainda somos responsáveis por operações no valor total de vários bilhões de dólares e temos pedido aos nossos clientes que continuem conosco até que se encontre uma solução. Isso acontecerá nos próximos dias", afirmou um funcionário do setor de fusões e aquisições.

Julie MacIntosh e Lina Saigol contribuíram para esta reportagem. UOL

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