Wolf: o fim das finanças levemente reguladas está mais próximo

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

Estes são tempos dramáticos. Até a segunda-feira desta semana, três dos cinco maiores bancos de investimento de Wall Street - Bear Stearns, Lehman e Merrill Lynch - desapareceram como entidades independentes. A seguradora AIG está em sérios apuros. Aquele que, até recentemente, era o admirável novo sistema financeiro americano está ruindo diante de nossos olhos.

Nas últimas semanas, três experiências ajudaram a deixar esta crise mais clara na minha mente. Primeiro, eu reli a obra-prima de Hyman Minsky, "Stabilizing an Unstable Economy" (estabilizando uma economia instável). Segundo, eu debati o futuro da regulação com meu admirado colega e amigo, John Kay.* Finalmente, na segunda-feira, eu fui o moderador de uma sessão a respeito desta crise no SIBOS (seminário de operações bancárias internacionais no sistema Swift) em Viena.

Eu estruturei esta última discussão em torno de quatro questões. O que saiu errado? O pior já passou? Quais são as lições para as instituições financeiras? Quais são as lições para os governos? Aqui estão as minhas atuais respostas para estas perguntas.

O que saiu errado? A resposta resumida: Minsky estava certo. Um longo período de rápido crescimento, baixa inflação, taxas de juros baixas e estabilidade macroeconômica estimularam a complacência e uma maior disposição de assumir risco. A estabilidade levou à instabilidade. A inovação - securitização, financiamento fora do balanço e o restante - provou, como sempre, ser uma parte importante da história. Como Minsky alertou: fé indevida nos mercados desregulados provou ser uma armadilha.

Esse é o triste fim do progresso desfrutado pelos Estados Unidos ao longo da última década. Mas eles não foram os únicos. Bolhas de preços de imóveis e equity também afetaram partes da Europa. Mas foram particularmente importantes para o Reino Unido.

O pior já passou? Certamente não. A correção de excessos em tamanha escala envolve quatro processos gigantes: a queda dos preços inflacionados dos ativos para um nível sustentável; a desalavancagem do setor privado; o reconhecimento das perdas resultantes no setor financeiro; e a recapitalização do sistema financeiro. Para piorar ainda mais haverá o colapso na demanda no setor privado, com o encolhimento do crédito e queda na riqueza.

Nenhum desses processos está sequer próximo da conclusão. Alguns mal começaram. Em particular, os preços dos imóveis ainda estão caindo, mesmo nos Estados Unidos. De forma semelhante, o ajuste na economia real, particularmente os aumentos inevitáveis nas taxas de poupança dos lares nos Estados Unidos e no Reino Unido estão em um estágio inicial. Como até pessoas desinformadas percebem quão incertos são os resultados, o medo predomina. Isso é demonstrado, entre outras coisas, pelos altos spreads dos empréstimos interbancários em relação às taxas oficiais esperadas.

A grande pergunta é se resgates liderados pelo governo a sistemas financeiros subcapitalizados serão necessários. No momento isso está parecendo cada vez mais provável. No mundo atual, os governos socorrem essas economias atingidas por crise de quatro formas: eles oferecem generosa liquidez de emprestador de último recurso, por meio dos bancos centrais; eles incorrem em imensos déficits fiscais, para compensar a condução do setor privado ao superávit financeiro; eles substituem a dívida privada por déficit público, visando recapitalizar os sistemas financeiros subcapitalizados (freqüentemente após a nacionalização); e podem adotar a erosão inflacionária do valor da dívida privada (e pública). Tudo isso agora é provável, incluindo a última.

Então quais são as lições para as instituições financeiras? Portas estáveis estão sendo fechadas após a fuga de manadas de cavalos. O Instituto para as Finanças Internacionais (IIF), por exemplo, apresentou um excelente relatório sobre as coisas que o setor financeiro deve fazer (ou melhor, deveria ter feito).**

Este relatório se concentra, apropriadamente, na gestão de risco (que foi um desastre), compensação (que foi grotescamente irresponsável), no modelo originar e distribuir (que era repleto de irresponsabilidade e fraude) e assim por diante. Sem dúvida, as pessoas que saíram com cicatrizes desta crise levarão esses conselhos a sério, por ora. Mas daqui alguns anos - 20, se tivermos sorte, menos de 10 se as conseqüências forem contidas pelas autoridades - isso será história antiga. As crises são inevitáveis em sistemas financeiros desregulados, como terremotos em uma zona de falha. Apenas o momento é incerto.

E, finalmente, quais são as lições para os governos? São duas as perguntas: como reestruturar a regulação para longo prazo; e quantas de suas ferramentas para crises eles devem usar agora.

John Kay argumenta que a regulação deve ser restringida. Seu argumento se baseia em duas idéias: primeiro, o sistema de pagamento é a utilidade financeira central; e, segundo, os reguladores não podem adivinhar com sucesso as decisões de instituições imensas que contam com pessoas melhor remuneradas e muito mais motivadas que eles.

Ele argumenta que os governos não devem nem mesmo fingir que podem tornar o sistema financeiro estável. Mas eles devem tentar "isolar a economia real das conseqüências da instabilidade financeira". Esse último, ele sugere, pode ser conseguido pelo seguro de pequenos depósitos, pela criação de um regime de resoluções especiais para os bancos e tornando o esquema de depósito segurado o preferido dos credores.

Eu considero a posição de John tanto atraente quanto irrealista. Um motivo convincente para o segundo é que os governo definem acertadamente o fornecimento de intermediação financeira e seguro como serviços essenciais na economia moderna. Outro é que é impossível proteger a economia real de um colapso do sistema financeiro. Por esse motivo, os governos não podem prometer de forma crível lavar as mãos em um colapso financeiro. Esta é a lição de pelo menos um século de história financeira.

A propósito, uma maior regulação é inevitável, mesmo se condenada a ser imperfeita. Dois passos devem ser dados.

Um é procurar por regras simples para melhorar o funcionamento do sistema como um todo, a óbvia sendo exigências de capital contracíclicas.

O outro passo bem mais controverso é uma mudança na psicologia da supervisão, abandonando a suposição de que as instituições sabem o que estão fazendo. Em particular, bem mais atenção deve ser dada ao comportamento que pode parecer racional para cada instituição, mas não pode ser racional se todas as instituições o adotarem ao mesmo tempo. O financiamento de bolhas de preços de imóveis residenciais com empréstimos de 100% do valor mal avaliado, porque os preços apenas sobem, vem à mente.

Mas hoje as autoridades também devem se perguntar se o que estão fazendo tornará o sistema mais seguro após o término da crise. Segundo esses padrões, a decisão de não socorrer o Lehman pareceu acertada. Mas também foi arriscada, porque temos que superar a crise. Vamos torcer para que a decisão prove ser parte da solução, não um agravamento dos desafios que enfrentamos. Mas eu não apostaria nesse resultado benigno.

* http://podcast.ft.com;** Relatório Final do Comitê do Instituto para as Finanças Internacionais sobre as Melhores Práticas do Mercado, www.iif.com George El Khouri Andolfato

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