Bancos centrais: um guia de sobrevivência

Editorial do Financial Times

Os bancos centrais são chamados de emprestadores de último recurso por um bom motivo. Eles agora se tornaram devidamente o último recurso em meio a um pânico generalizado no âmago do sistema financeiro mundial, em uma escala não vista desde os anos 30. Ninguém confia em crédito nenhum, exceto o dos próprios governos.

Nesta situação, a regra é simples, clara e bem conhecida desde os dias de Walter Bagehot. Os bancos centrais devem emprestar livremente recebendo como garantia até mesmo ativos de valor limítrofe. Se o setor privado emprestará apenas ao governo, o governo deve financiar o setor privado. É simples assim.

Os bancos centrais do mundo entendem isso muito bem. Eles anunciaram na quinta-feira (18) uma injeção de liquidez de emergência de US$ 180 bilhões, na mais recente tentativa de conter o pânico. O Federal Reserve (o banco central dos Estados Unidos) está disponibilizando recursos adicionais para o overnight e para os mercados de dinheiro de longo prazo. O Banco Central Europeu, Banco do Japão, Banco da Inglaterra, Banco do Canadá e o Banco Nacional Suíço prometeram "tomar medidas apropriadas para tratar das pressões atuais".

Empréstimo adicional é basicamente o que é necessário nestas condições difíceis. O empréstimo adicional também parece ter tido algum impacto nos mercados. Os spreads nos empréstimos interbancários de curto prazo, em particular, diminuíram. Mas os dos empréstimos de longo prazo continuaram subindo, um sinal de que os bancos continuam nervosos a respeito da liquidez e solvência de seus pares.

O que não é necessário, pelo menos nos Estados Unidos por ora, são taxas de juros mais baixas. Juros baixos poderiam ser até mesmo perigosos para o país. Reduções adicionais provocariam o risco de uma fuga da moeda, o que tornaria o resgate do sistema financeiro ainda mais difícil, não menos. É preciso lembrar que os Estados Unidos são um país devedor, em uma escala enorme. O país também tem um déficit em conta corrente para financiar. A confiança dos estrangeiros no valor de sua moeda a longo prazo não é um extra opcional. É absolutamente essencial.

De qualquer forma, a crise no mercado não se deve ao custo excessivo dos fundos do governo americano. Com a taxa dos fundos federais em apenas 2%, isso dificilmente seria um problema hoje. O risco é o desaparecimento de todo o financiamento privado.

Basicamente, o mundo está testemunhando uma mudança extrema na preferência da liquidez. As pessoas querem manter moeda ou valores mobiliários apenas na forma mais segura e acessível, ou seja, papéis do governo. O governo, que é o beneficiário desta mudança na preferência da liquidez, deve responder promovendo uma operação de reciclagem em uma escala enorme - na verdade, ilimitada. Ele deve convencer os mercados que a robustez dos negócios não desaparecerá por falta de financiamento.

Essas operações devem ser conduzidas em uma escola global, com os arranjos de swap necessários entre os principais bancos centrais do mundo também sendo ilimitados. Ele agora deve oferecer fundos com prazos de vencimento relativamente longos, ou pelo menos com o compromisso de rolagem do financiamento enquanto as condições de pânico perdurarem. Este não é um momento para delicadezas. Quando o crédito - ou a confiança - desaparece, as únicas instituições com credibilidade que restam no planeta - os grandes governos com rating AAA - precisam agir. Os bancos centrais são emprestadores de último recurso porque os governos são seguradoras de último recurso. É para isso que existem, para colocar de forma simples.

Mas isso não é tudo. Está cada vez mais provável que as perdas com ativos ruins irão descapitalizar o âmago do sistema financeiro americano a um grau inaceitável. Mas o uso do Federal Reserve a pedido do governo para a seminacionalização de uma seguradora como o AIG pode impor perdas substanciais ao banco central americano. O perigo é de que o Federal Reserve precise ser recapitalizado e que os legisladores possam impor limites inaceitáveis à sua capacidade de agir de forma independente.

Em vez disso, são necessários poderes de emergência no momento para que o governo americano possa recapitalizar o sistema financeiro, talvez assumindo os ativos ruins. Precedentes de ações semelhantes existem em outros países ricos, notadamente na gestão da crise bancária escandinava do início dos anos 90 e, apesar de ter sido um evento menor, na crise dos empréstimos e poupanças nos Estados Unidos nos anos 80.

Essa ação aumentará substancialmente a dívida do governo americano, talvez em até 10% do produto interno bruto. Ninguém sabe a escala no momento. O governo americano pode, felizmente, bancar isso. Na verdade, ele não pode arcar em não criar os meios para agir dessa forma.

A estupidez de uma geração de financistas irresponsáveis recairá sobre futuras gerações de contribuintes. Um preço terá que ser pago na forma de uma regulação financeira mais rígida e fundamentalmente alterada. Mas isso é um assunto para outro dia. O de hoje é sobrevivência. Os emprestadores de último recurso devem emprestar livremente e fazê-lo imediatamente. Empréstimo adicional é a resposta para estes tempos difíceis George El Khouri Andolfato

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