Confiança do Brasil acumula problemas para o futuro

Jonathan Wheatley

Os líderes do mundo desenvolvido, sofrendo de desdém e escárnio dos eleitores à medida que suas economias balançam, podem olhar com inveja nesta semana para seu colega do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva.

Apesar da ameaça de recessão mundial e dela poder arranhar a recente prosperidade do Brasil, Lula está desfrutando de uma onda de aclamação. Uma pesquisa de opinião nesta semana apontou seu índice de popularidade pessoal em 78%.

"Lula tem sido realmente bom para os pobres", disse Adeilda Alves Costa, uma empregada doméstica de 31 anos que se mudou do sertão do Nordeste para São Paulo. "No sertão, o governo acabou com a pobreza das pessoas", ela disse. Mas os críticos dizem que Lula também é o presidente mais sortudo da história brasileira. Assim como o Brasil se beneficiou do aumento nas taxas de crescimento globais e dos mercados de crédito nos últimos anos, a recente inversão da tendência de crescimento e crédito paradoxalmente poderá se revelar benéfica.

Nos últimos meses a economia parecia correr o risco de superaquecer, com a inflação subindo para mais de 6% - muito além da meta de 4,5% do governo - por causa de um aumento no consumo. Os economistas dizem que a crise de crédito poderá esfriar a economia sem reduzir demais o crescimento.

"Os efeitos (da crise financeira mundial) serão muito mais benignos aqui do que nos países desenvolvidos", disse o economista-chefe de um grande banco estrangeiro em São Paulo. "Nós esperamos que o crescimento diminua de 5,4% neste ano para 3,5% no próximo ano. Em comparação ao crescimento mundial de cerca de 1% em 2009, isso é excelente."

Os economistas ainda temem que uma mudança desorganizada nas circunstâncias possa ter conseqüências imprevistas. "Nada que ocorra como surpresa pode ser vista como positiva", disse Giovanna Rocca Siniscalchi, uma economista do Unibanco, um banco brasileiro.

Mas a primeira reação do Unibanco aos eventos das duas últimas semanas, assim como muitas outras instituições, foi revisar para baixo sua expectativa de aumento nas taxas de juros. Apesar de a maioria esperar a continuidade do atual ciclo de alta (a taxa referencial Selic subiu de 11,25%, em junho, para os atuais 13,75%), eles acreditam que ela parará em 14,75% no final do ano.

O Brasil pode ser creditado como responsável por muito de sua própria sorte. Augusto de la Torre, economista-chefe para América Latina e Caribe do Banco Mundial, disse que o Brasil passou os últimos 15 anos introduzindo três coisas que permitiram que se integrasse com segurança aos mercados mundiais de capital: um fortalecimento significativo do banco central, um sistema de câmbio mais flexível e o desenvolvimento de mercados de dívida em moeda local.

No início desta década, o Brasil desfrutou de um boom de exportação nascido do aumento da demanda mundial por seus commodities e produtos manufaturados. À medida que a demanda começou a diminuir nos últimos dois anos, a demanda doméstica começou a crescer. Uma década de estabilidade econômica resultou na criação de empregos e crédito mais barato, enquanto políticas sociais bem direcionadas trouxeram milhões de pobres para o mercado de consumo.

"As coisas melhoraram muito", disse Ernani Landi, que é dono de uma banca de frutas em uma feira livre. "Nosso volume aqui subiu bastante."

Mesmo com os investidores estrangeiros deixando o mercado de ações brasileiro em grande número para cobrir perdas em outros lugares - eles retiraram R$ 17,2 bilhões (US$ 9,2 bi) neste ano - o país manteve reservas de moeda estrangeira de mais de US$ 200 bilhões, o suficiente para ajudar a enfrentar a tempestade.

Mas da mesma forma que o Brasil tem contribuído para sua própria sorte, ele também pode estar acumulando problemas. Com o aumento da inflação nos últimos meses, mantê-la sob controle ficou aos cuidados do banco central. O papel da política fiscal, que continua sendo altamente expansionista, tem sido ignorado.

"O governo não vê os gastos públicos como um fator na inflação", disse Sérgio Vale, um economista da MB Associados, uma consultoria de São Paulo. "Ele os vê como contribuindo para o crescimento."

De la Torre disse que o Brasil tem sido hábil em administrar gastos do setor público bem acima da média regional. Mas tamanho gasto abre espaço para "coisas ruins".

Ele alertou: "Se o Brasil perder o controle da política fiscal, ele poderá minar a política monetária. No final, as expectativas de inflação a longo prazo são determinadas pela política fiscal, não pela política monetária". George El Khouri Andolfato

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