Plano de resgate a Wall Street pode envenenar o livre mercado

Alan Beattie

Debatendo com Al Gore na eleição presidencial de oito anos atrás, George W. Bush definiu uma atitude nova, mais humilde, em relação ao restante do mundo: "Não tenho tanta certeza de que o papel dos Estados Unidos seja o de ir pelo mundo e dizer, 'é assim que as coisas devem ser', ele afirmou. "Simplesmente não acho que seja o papel dos Estados Unidos entrar em algum país e dizer: 'nós fazemos isso dessa forma, e vocês devem fazer o mesmo'."

Em uma área, Bush pode estar prestes e alcançar seu desejo, embora talvez não seja da forma que ele esperava.

Os acontecimentos das últimas semanas forneceram munição aos que se opõem aos livres mercados tanto fora do setor financeiro como muito além dos limites dos Estados Unidos. O modelo de liberalização financeira que os Estados Unidos impuseram em todo o mundo, que já havia passado por alguns recuos táticos na década passada, parece estar em uma impetuosa retirada.

Para alguns, o recuo do modelo de Washington corre o risco de transformar-se em uma derrota fragorosa. David Rothkopf, alto funcionário do Departamento do Comércio durante o governo do presidente Bill Clinton, diz que o mundo está em um momento decisivo. "Isso é um divisor de águas," ele diz. "Esse é o fim de 25 anos de Reagan-Thatcherismo, 'deixem tudo com o mercado, menos governo é melhor governo." Isso acabou - ponto final."

Alguns responsáveis pelas decisões políticas estão confiantes de que, embora o ritmo da liberalização possa desacelerar, é improvável que ele apresente uma drástica reversão. Muitos economistas indicam que,além disso, que nem todas as liberalizações são iguais e que uma crise financeira não justifica esquivar-se de todos os mercados livres. No entanto,sucessivos governos dos EUA agruparam bem juntas todas as suas diferentes variedades em um pacote de políticas e as venderam por meio de uma série de instituições - o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio e os acordos bilaterais de comércio dos EUA. Desembaraçar esse emaranhado nas mentes de governos estrangeiros e de seus eleitores será difícil.

Esse pacote pode ter começado com a defesa de tarifas mais baixas sobre importações de produtos, uma política que possui amplo apoio entre economistas ortodoxos. Mas se expandiu para incluir estratégias mais controversas: permitir que instituições estrangeiras comprem bancos locais ou criem suas próprias subsidiárias, desregulamentando os mercados financeiros domésticos e terminando com os controles sobre movimentação de capital de um país para outro.

Jagdish Bhagwati, da Universidade Columbia, importante economista do setor de comércio, há muito adverte que essa é uma confusão perigosa entre mercados financeiros liberalizados, que são sujeitos a repetidas bolhas, pânicos e colapsos, e a movimentação internacional de produtos e serviços, que não é. Embora em termos práticos os dois em geral tenham sido agrupados. Washington buscou, por exemplo, exportar seu próprio modelo financeiro por meio de seus acordos comerciais. O modelo que os EUA usam em todas as suas negociações para pactos comerciais bilaterais, e dos quais tolera poucos desvios, incluem rígidos limites sobre o uso de controles de capital para controlar crises financeiras.

Isso, diz Bhagwati, é o resultado de uma "lógica Tesouro-Wall Street" que tem um apego irrevogável à desregulamentação. "Wall Street tenta exercer pressão sobre a política dos EUA, em grande forma sempre que possível," ele afirma. "Isso é um compromisso ideológico. Você fica se sentindo um fanático socialista se argumenta contra qualquer parte disso."

Essa lógica tem sido incorporada pela pessoas assim como foi fixada em idéias, fornecendo vasto material aos defensores das teorias conspiratórias. Uma sucessão quase permanente de idas e vindas mostra a associação entre os bancos de investimentos e os sucessivos governos dos EUA. Tanto de democratas como de republicanos - com uma terceira saída levando ao FMI. Robert Rubin, um dos mais poderosos secretários do Tesouro até onde se lembre, chegou ao governo Clinton vindo do Goldman Sachs e foi em seguida para o Citigroup. Stanley Fischer, arquiteto de grande parte da estratégia do FMI durante a turbulência financeira da década de 1990, também foi para o Citigroup. Hank Paulson, o atual secretário do Tesouro, junto de um importante grupo de consultores do Tesouro, é outro dos discípulos do Goldman Sachs.

Foi talvez em meados da década de 1990, antes da crise financeira asiática de 1997-98, que a campanha de liberalização financeira alcançou seu apogeu. Os EUA pressionaram pela liberalização das transferências de capital dos países em todo o mundo em desenvolvimento e até mesmo promoveram uma medida para alterar a constituição do FMI para promovê-las. Antigos funcionários dizem que o Fundo raramente prestava atenção em um tipo de desregulamentação financeira interna da qual não gostasse.

"Até a crise asiática, o FMI, abastecido pelos EUA, defendia com vigor a liberalização em todas as direções," diz Carmen Reinhart da Universidade de Maryland e uma ex-funcionária do FMI. Países tais como o Chile e a Malásia, embora relativamente bem sucedidos em termos econômicos, foram castigados por manter controle sobre o capital.

Mesmo antes que o aperto de crédito chegasse, no ano passado, o FMI havia recuado dessa posição, particularmente quanto às transferências de capital. Uma pesquisa de Ken Rogoff, seu ex-economista-chefe e outros mostrou que os efeitos da globalização financeira sobre os países pobres tinham sido variados.

O Banco Mundial também adotou um conjunto mais variado de recomendações. Sua capacidade de pressionar os países em desenvolvimento com a idéia da desregulamentação diminuiu de qualquer forma, uma vez que a China emergiu como uma fonte alternativa de financiamento, particularmente na África. Pequim constrói estradas e fornece dinheiro com menos imposições e às vezes retrata a si mesmo como o modelo a ser seguido para se ficar rico sem a liberalização no atacado de produtos e mercados de capital.

E no entanto tal liberalização em geral ainda forma uma parte importante da diplomacia econômica internacional de Washington, entranhada como está em sua política comercial.

As empresas americanas de serviços financeiros têm estado tradicionalmente entre os mais entusiasmados lobistas dos acordos comerciais. Foi amplamente creditado a elas a obtenção da chamada Rodada Uruguai de negociações sobre comércio global concluída em 1994 e as pressões por maiores concessões nas atuais negociações da Rodada Doha.

Washington vai se passar por alguém que vende uma marca nitidamente contaminada, se depois que a poeira baixar, continuar a defender a sofisticação financeira e maior liberdade para aqueles de seus bancos de investimentos que ainda existirem. Raghuram Rajan da Universidade de Chicago, ex-economista-chefe do FMI, recentemente apresentou um relatório sobre liberalização financeira ao governo indiano. Ele viu que a oposição na Índia à idéia havia se disseminado. "Não se trata apenas da tradicional esquerda saltando e dizendo, Eu não disse?" ele comenta. "Até mesmo pessoas que estavam dispostas a dar sua aprovação à reforma estão se tornando muito mais cautelosas."

Nem, afirma ele, o debate público na Índia faz grande distinção entre diferentes formas de reforma financeira. A venda de participações do governo em bancos comerciais, o desenvolvimento de taxas de juros e mercados de futuros para câmbio até mesmo a criação de um novo sistema para falências - todos foram contaminados pelos acontecimentos nos Estados Unidos. "Existe a sensação de que todas essas coisas são conectadas entre si - Wall Street, os fundos de hedge, private equity, mercados de futuros - que nós queremos fazer parte disso," afirma Rajan. Como para realçar a suspeita sobre os especuladores, o governo da Índia recentemente suspendeu as negociações em futuros de commodities em resposta à crise global de alimentos.

Reações em outras parte do mundo em desenvolvimento foram mais diversificadas. Na China, os reguladores do mercado adiaram a aprovação ao início de negócios futuros com ações, mesmo que a maior parte dos fundamentos técnicos já estejam prontos. Mas os altos funcionários chineses declararam que a crise nos EUA não os persuadiu a abandonar a política de liberalização gradual. Segundo um funcionário do setor de finanças em Xangai, o aperto de crédito pode na verdade acelerar algumas reformas.

"A lição não é que houve inovações demais nos EUA e portanto nós não devemos fazer qualquer inovação... Está errado dizer que todos esses produtos sofisticados são apenas coisas ruins," diz Fang Xinghai, diretor geral da Agência de Serviços Financeiros de Xangai. "Se nós aprendermos com as lições [da crise] poderemos até mesmo acelerar as reformas financeiras porque saberemos qual o tipo de precauções serão necessárias."

Na América Latina, uma região com muita experiência em crises financeiras, uma autoridade comentou: "É importante que o debate não fique tão polarizado que nós simplesmente apaguemos o que se passou e que tudo relativo à securitização (conversão de dívidas em valores mobiliários negociáveis) seja jogado fora."

Pelo menos os defensores dos mercados mais livres terão que moderar e fazer pontaria com suas mensagens - e dada sua própria resposta intervencionista à crise, incluindo a proibição sobre a venda a descoberto de ações, os EUA vão lutar com dificuldades para manter sua linha anterior nos fóruns internacionais. Assim como nas suas negociações com os mercados emergentes, os EUA provavelmente viverão tempos estranhos comparecendo em encontros como o do Grupo dos Sete países ricos e apresentando sua costumeira pregação sobre os benefícios da desregulamentação.

Na verdade, seus pares, Alemanha e França, que passaram grande parte das duas últimas décadas sendo admoestados por Washington pela insuficiente flexibilidade em produtos, mercado de trabalho e mercados de capitais, foram discretos em não mostrar em público o prazer com a desventura alheia. Mas uma linha de avanço foi aberta. Angela Merkel, a chanceler alemã, disse este mês que Berlim pressionaria mais firmemente dentro do G7 por exigências mais elevadas de capital para os bancos e pela transparência para os mercados financeiros. O presidente francês Nicolas Sarkozy defendeu a convocação de uma cúpula mundial para reconstruir o que ele denominou de "capitalismo regulamentado".

Muitos economistas continuam otimistas de que os danos colaterais aos mercados aberto e à inovação financeira poderão ser contidos. Bhagwati indica que como conseqüências da crise asiática, os governos do Leste da Ásia, ao mesmo tempo em que se tornaram muito mais desconfiados da abertura nas transferências de capital, permaneceram ligados ao livre comércio em produtos. Rajan acredita que, com o tempo, a lógica da reforma no setor financeiro - e particularmente inovações tais como um sistema para falências que venha a ressaltar a estabilidade econômica, não miná-la - vai vencer. A Índia abriu sua movimentação de capital sem grande oposição, ele diz.

Rogoff diz que mesmo se os Estados Unidos desistirem da tarefa de liderar a defesa de maior sofisticação financeira, outros, tais como Cingapura, Hong Kong ou até mesmo o Brasil poderão assumir seu lugar. "Existe muita criatividade no setor de serviços financeiros e isso criou um bocado de crescimento e estabilidade," ele afirma. "Em um determinado ponto, alguns países vão se voltar para trás e dizer: 'havia muita coisa boa no que os EUA estavam fazendo e nós poderemos fazer melhor'."

Mas o que parece ser altamente provável é que os livres mercados e a complexa engenharia financeira precisarão de novos promotores. Liberalizadores relutantes em todo o mundo agora terão mais munição ao ficar frente a frente com visitantes americanos que dizem: "Somos de Wall Street e estamos aqui para ajudar".

Reportagem adicional de Krishna Guha e Geoff Dyer O modelo de liberalização financeira que os Estados Unidos impuseram em todo o mundo parece estar em uma impetuosa retirada Tradução: Claudia Dall'Antonia

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