Bancos centrais de todo mundo atuam para aliviar o estresse no mercado

Krishna Guha e Alan Beattie
Em Washington

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) se preparou na segunda-feira para injetar US$ 630 bilhões adicionais no sistema financeiro mundial, em coordenação com outros bancos centrais ao redor do mundo, em um esforço imenso para conter o estresse extremo nos mercados de dinheiro internacionais.

A medida visa reforçar o impacto do projeto de resgate de US$ 700 bilhões que está tramitando no Congresso americano e alivia diretamente o estresse no mercado a curto prazo, antes que o novo fundo do governo possa começar a operar.

O grande aumento em empréstimo pelo setor público visa neutralizar o risco na rolagem de dívida. O mercado de empréstimo interbancário está basicamente paralisado, já que ninguém quer emprestar por medo de que a instituição tomadora não conseguirá rolar o restante do financiamento não liquidado.

Isto está colocando uma pressão imensa sobre instituições financeiras fracas -forçando as autoridades a intervirem e resgatarem bancos em ambos os lados do Atlântico- e ameaça intensificar a arrocho de crédito na economia real.

A medida coordenada visa encorajar os bancos a começarem a emprestar de novo, cientes de que o banco tomador sempre poderá levantar o suficiente para rolar seus empréstimos de curto prazo junto ao banco central. O Fed disse que mais que dobrará a quantidade de dólares que fornece aos bancos centrais estrangeiros para distribuição aos bancos no exterior, de US$ 290 bilhões para US$ 620 bilhões. O Banco Central Europeu agora terá US$ 240 bilhões para emprestar, o Banco do Japão terá US$ 120 bi, o Banco da Inglaterra terá US$ 80 bi, e o Banco Nacional Suíço terá US$ 60 bi. O Riksbank da Suécia, o Reserve Bank da Austrália, e o Banco do Canadá terão US$ 30 bi cada, enquanto o Norges Bank da Noruega e o Nationalbank da Dinamarca distribuirão US$ 15 bilhões.

A ação reflete a nova estratégia das autoridades americanas de combate à crise, combinando operações gigantes de liquidez com intervenção fiscal de grande escala nos mercados problemáticos de ativos, ao mesmo tempo que mantém guardada a possibilidade de futuras reduções de juros.

Ao mesmo tempo que dobrará o tamanho de seus leilões de crédito domésticos para US$ 300 bilhões, com US$ 150 bilhões adicionais vindo na forma de empréstimos de maior prazo, 84 dias. O Fed também fornecerá outros US$ 150 bilhões em crédito doméstico em leilões únicos, para financiar o fim de ano, quando a demanda por liquidez geralmente é maior.

Suas novas operações ultrapassam enormemente o tamanho normal de seu balancete. Mas o Fed não mais precisa se preocupar com isso. A legislação de resgate inclui uma cláusula que permite que o banco central americano possa fazer automaticamente das reservas excedentes, pagando juros sobre as reservas exigidas dos bancos a uma taxa que presumivelmente será estabelecida ligeiramente abaixo da taxa referencial dos fundos federais. Por sua vez, o Tesouro poderia esterilizar o impacto das novas operações do Fed ao emitir títulos da dívida e colocando o dinheiro levantado no Fed para gastos em empréstimos.

O enorme aumento de liquidez do dólar pelo Fed segue sinais alarmantes de demanda mundial extrema por liquidez, como refletido no aumento acentuado dos custos de financiamento em dólar, particularmente na Europa, o spread extremo entre as taxas de empréstimo interbancário e a taxa de juros esperada, o crescente estresse de liquidez entre instituições financeiras fracas e a maior demanda pelos instrumentos de liquidez existentes do Fed.

O Fed não apenas aumentou radicalmente o tamanho de seus empréstimos domésticos, como também mudou a composição de seu crédito doméstico, para aumentar o prazo médio dos empréstimos, triplicando a quantidade de empréstimos disponíveis regularmente para 84 dias.

O banco central americano espera que isso encorajará os bancos que atualmente estão dispostos apenas a emprestar uns aos outros no overnight (e mesmo assim a taxas freqüentemente punitivas) a gradualmente prolongarem seus empréstimos a prazos mais longos.

Mas o Fed reconhece que mesmo seus empréstimos de três meses são substitutos ruins para a dívida de longo prazo concedida pelos bancos.

Com o agravamento do panorama com a intensificação da crise de crédito ao longo do último mês, o mercado de futuros agora aposta em uma chance de 50% de redução de 0,5 ponto percentual na taxa de juros do Fed no próximo mês.

Isso não é impossível. Mas a prioridade do Fed agora é não reduzir a taxa de juros referencial de 2%, mas sim usar ferramentas de liquidez basicamente ilimitadas para domar os spreads de risco extremo que tornam as taxas de empréstimo para bancos e outros tomadores muito mais altas que isso.

Muitos analistas acreditam que a combinação de fundo de resgate e operações gigantes de liquidez no final reduzirão a tensão nos mercados de dinheiro, mas os bancos permanecerão cautelosos no empréstimo uns aos outros, em meio à preocupação sobre se seus pares dispõem de capital suficiente.

Os bancos poderão permanecer extremamente cautelosos a menos que os autores de políticos apresentem um plano mais abrangente para escorar sua base de capital.

"A falta de empréstimo não necessariamente provocará outra crise", disse Douglas Elmendorf, membro da Instituição Brookings. "Mas poderia muito bem restringir o crescimento. Certamente há uma demanda mais fraca por crédito do que havia, mas eu acho altamente provável que os problemas do sistema financeiro estejam limitando a quantidade de empréstimo oferecido." George El Khouri Andolfato

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