Base de poder brasileira é construída nas eleições locais

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

São 8 horas da manhã no Mercado Municipal da Lapa, um mercado coberto construído nos anos 50 em uma bairro ao mesmo tempo residencial, industrial e comercial na zona oeste de São Paulo. Os primeiros comerciantes estão ocupando os corredores e há um ar de prosperidade no lugar, que tem uma aparência melhor desde que foi reformado há poucos anos.

"Há muitos novos empregos por aqui, nos novos supermercados e na fábrica de queijo", disse José de Oliveira, proprietário desde 1968 da Casa da Feijoada, uma banca repleta de lingüiças penduradas, carne seca, de porco e outras carnes necessárias para o preparo da feijoada tradicional.

Oliveira votou nas duas últimas eleições presidenciais em Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores de esquerda, e votaria nele de novo em 2010 se a lei permitisse um terceiro mandato consecutivo. "Lula melhorou muito as coisas", ele disse.

Mas nas eleições que serão realizadas por todo o Brasil no domingo, ele votará no lado adversário, em Gilberto Kassab, o atual prefeito de São Paulo e membro dos Democratas de centro-direita. "As ruas estão mais limpas e o transporte público melhorou muito", disse Oliveira.

A posição não-partidária de Oliveira é compartilhada por muitos comerciantes e clientes no mercado. Ela é típica entre os eleitores de todo o Brasil, como sugerem as pesquisas de opinião, que tratarão as eleições de domingo como um assunto puramente local.

Mas as eleições têm uma importância nacional muito maior.

"O partido que eleger mais vereadores e prefeitos terá a base que precisa para eleger mais deputados e senadores em 2010", disse David Fleischer, um cientista político de Brasília. "Eles têm um relacionamento local direto com os eleitores. Eles são poderosos cabos eleitorais."

Os partidos que se saírem melhor no domingo também darão o primeiro passo para obtenção do poder público durante o mandato presidencial de 2011-2014, caso seus candidatos saiam vitoriosos em outubro de 2010.

"Os grandes partidos estão gastando muito dinheiro nestas eleições", disse Luciano Dias, um consultor político em Brasília. "É onde estão construindo a base de poder para o próximo presidente."

Se as recentes pesquisas servirem como guia, a eleição presidencial de 2010 deverá ter um resultado inevitável. Lula não pode concorrer de novo sem mudar a Constituição, algo que a maioria dos analistas descarta como tendo um custo político alto demais.

Mas ele está posicionado de forma ideal para escolher seu sucessor.

Uma pesquisa realizada na semana passada apontou seu índice de popularidade em 78% - um número extraordinário para um presidente na metade de seu segundo mandato - e que 44% dos eleitores votariam no candidato indicado por ele independentemente de quem possa ser.

Mas com o agravamento da crise mundial dos mercados financeiros nas últimas semanas, o presidente e seus ministros começaram a parecer cada vez mais nervosos.

A economia está a caminho de crescer mais de 5% neste ano, o dobro da taxa média de grande parte das duas últimas décadas. Até recentemente, era esperado que esse número se repetiria no próximo ano.

Mas desde o estouro da crise, os economistas rapidamente reduziram suas previsões de crescimento para 2009, alguns deles para menos de 3%.

Mesmo antes da crise, muitos observadores acreditavam que a economia estava caminhando para um período de baixa.

Isso pode representar um risco em especial para Lula. A rápida expansão dos programas de bem-estar social e um aumento geral da prosperidade são fatores cruciais para sua ampla popularidade. Grande parte dessa prosperidade está baseada em políticas pró-mercado introduzidas pelo seu antecessor que, para seu crédito, Lula - cujos eleitores clamavam por mudança - manteve.

Mas os grandes gastos do governo, grande parte deles para pagamento dos salários do setor público, ameaçam a saúde da economia em longo prazo ao pressionar a alta da inflação e ao forçar o banco central a elevar as taxas de juros e conter o crescimento.

"O risco fundamental é o aumento contínuo dos gastos do governo", disse Elizabeth Stephens, uma economista e analista de risco da Jardine Lloyd Thompson, uma corretora internacional de seguros com sede em Londres.

"Os problemas fiscais do Brasil estão potencialmente se acumulando em um problema para aquele que assumir em 2011."

Como os clientes e comerciantes no mercado da Lapa, a maioria dos brasileiros apóia o presidente por causa da prosperidade econômica obtida em seu mandato. Mas o apoio pode cair caso a situação econômica piore.

"Lula tem sido bom para a economia, mas isso não significa que certamente votaria nele de novo", disse Josimare Gomes de Macedo, uma funcionária de 27 anos de uma banca. "Vamos ver como as coisas estarão em 2010."

Com a crise mundial colocando a prosperidade do Brasil em risco, disse Fleischer, a disputa pela próxima presidência pode se tornar cada vez mais indefinida.

A batalha começa no domingo. George El Khouri Andolfato

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