Como os titãs do Congresso dos Estados Unidos foram pegos de surpresa

Daniel Dombey
Em Washington (EUA)

Examinando o que aconteceu, os titãs de Capitol Hill admitiram que um dos maiores erros que cometeram quanto à versão inicial do pacote de socorro financeiro de US$ 700 bilhões (? 507 bilhões, £ 395 bilhões) foi elementar: eles não fizeram uma lista das intenções de voto.

Na última segunda-feira, quando o pacote foi rejeitado na Câmara dos Deputados com 228 votos contrários e 205 favoráveis, o resultado surpreendeu a presidente da casa, Nanci Pelosi, bem como as lideranças republicanas.

Sem saberem ao certo como a câmara votaria e alheias a um debate marcado por discursos que criticaram a medida, as lideranças parlamentares seguiram em frente e convocaram uma votação na esperança de que ela tranqüilizasse os mercados financeiros.

Os parlamentares que votaram contra a legislação não tinham motivos especiais para acreditar que o fato de se oporem a um impopular pacote de socorro a Wall Street condenaria a medida ao fracasso. Na verdade, muitos adotaram posturas que davam a impressão de serem pouco mais do que retórica.

"Hoje estão pedindo a vocês que escolham entre pão e liberdade", afirmou Thaddeus McCotter, diretor do conservador Comitê de Políticas Republicanas. "O povo de Main Street (termo usado para designar o cidadão comum, em contraste com a elite financeira de Wall Street) disse que prefere a liberdade, e eu estou com ele".

E, depois disso, o pacote fracassou, Wall Street desabou 777 pontos e a elite política dos Estados Unidos pareceu ficar perdida em relação ao que fazer em seguida. Acomodado em uma poltrona, o presidente George W. Bush declarou: "Estamos trabalhando para desenvolver uma estratégia que nos permita continuar seguindo em frente".

E os comentários sobre o que fazer em seguida, feitos pelo secretário do Tesouro, Hank Paulson, e pelos candidatos democrata e republicano, Barack Obama e John McCain, também não foram muito mais coerentes. Mas na quinta-feira a tendência reverteu-se.

"Creio que os nossos líderes democratas entenderam a partir da lição da segunda-feira que não se submete uma proposta à votação se ela não vai ser aprovada", afirmou Paul Ryan, republicano de Wisconsin. "E, portanto, eles estão apresentando a proposta hoje", acrescentou ele, ao comentar a mudança de clima na casa. "Jamais pensei que passaria os três últimos dias falando sobre a taxa Libor e títulos comerciais".

A percepção de que a contração de crédito disseminava-se foi um dos temas da semana em Capitol Hill, especialmente durante o debate da quarta-feira no Senado e nos preparativos para a votação da quinta-feira na Câmara dos Deputados.

Ficaram para trás os apelos de McCotter aos conservadores e a descrição exuberante do pacote feita pelo deputado Paul Broun, que comparou a medida a "um grande bloco de estrume de vaca com um pedaço de marshmallow no centro". Agora os membros das duas casas parlamentares passaram a falar sobre as dificuldades encontradas pelos governos municipais e estaduais para vender títulos e a respeito dos problemas crescentes enfrentados por pequenas empresas que deixaram de receber crédito.

Embora senadores e deputados tenham sido capazes de aceitar com tranqüilidade o fim do Bear Stearns e do Lehman Brothers, os problemas de Wall Street os deixaram alarmados.

"O objetivo deste pacote não é beneficiar Lower Manhattan (região de Nova York onde fica Wall Street)", afirmou Harry Reid, líder da maioria no Senado, antes da votação dos senadores na quarta-feira, que ressuscitou a legislação. "O objetivo dela é ajudar o povo a manter os seus empregos e ser capaz de comprar carros e conseguir empréstimos. É permitir que um vendedor de automóveis seja capaz de fazer o que faz há décadas, pegando dinheiro emprestado para comprar carros e revendê-los. No momento, eles não estão podendo fazer tal coisa".

Reid procurou também convencer os céticos na Câmara com um acréscimo de US$ 150 bilhões (? 108 bilhões, £ 84 bilhões) em isenções fiscais exigidas por ambos os partidos. As concessões fizeram com que alguns parlamentares gritassem "pork" ("pork barrel" consiste na prática parlamentar de aplicação de recursos em redutos eleitorais), sem que, entretanto, anunciassem que deixariam de votar pela aprovação da medida.

Na noite da quarta-feira o Senado apoiou o pacote por 74 votos a 25, e, na Câmara, a segunda votação foi antecedida por listas de votos a favor e contra a medida.

Quando as revistas e os programas de televisão começaram a divulgar fotografias pouco nítidas da década de 1930, o medo de uma nova Grande Depressão pareceu superar os ressentimentos em relação a um suposto resgate dos Donos do Universo de Wall Street.

Quando o debate da quinta-feira chegava ao fim, Howard Coble, um republicano do Estado da Carolina do Norte, levantou-se no plenário e anunciou que, após ter refletido por algum tempo, decidira apoiar o pacote.

Mesmo após a votação da segunda-feira, ele disse: "A quantidade de telefonemas e e-mails continuou enorme. Mas, vejam só: as pessoas que ligam e escrevem são favoráveis à medida". UOL

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