Tempestades de fogo testam resistência duramente conquistada

Do Financial Times

Infernos financeiros no mundo em desenvolvimento em geral são episódios de combustão espontânea local: a "crise da tequila" mexicana de 1994/95; as crises financeiras asiática e russa de 1997/98; e o calote da Argentina de 2001.

Entretanto, as tempestades de fogo que varreram os ativos dos mercados emergentes nesta semana saltaram da crise que queima a Europa e os EUA.

Os otimistas ainda argumentam que muitos grandes mercados emergentes tomaram medidas para levantar suas defesas. Entretanto, as enormes correções de segunda-feira nos mercados de ações minaram a idéia que o mundo em desenvolvimento tornou-se imune aos choques de confiança, ao fluxo de capital internacional e ao comércio.

Em teoria, os mercados emergentes estão muito mais seguros do que em episódios de fraqueza anteriores - como a "década perdida" da América Latina nos anos 80 ou as crises financeiras asiática e russa.

"Ninguém quer tentar pegar facas caindo, mas, apesar dos movimentos de mercado terem sido dramáticos, você poderia cortar a maior parte das moedas emergentes do capital externo por um longo prazo e ainda assim ficariam bem", diz Jerome Booth, diretor de pesquisa de Ashmore, principal especialista em investimento no mercado emergente. "O mundo emergente tomou muitas medidas de segurança contra os problemas potenciais".

Há menos países emergentes de grandes mercados altamente dependentes dos investidores de além-mar do que nos episódios anteriores, e suas finanças públicas, em particular, estão em situação muito melhor. Uma década depois das crises da Rússia e da Ásia, os países emergentes têm tido superávit em conta corrente - em média de 5% do PIB, no ano passado - e criaram reservas oficiais fortes em moeda estrangeira.

Michel Camdessus, ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, previu em um discurso em Manila ontem que "graças ao dinamismo da Ásia, a economia global evitará uma recessão".

Muitos países latino-americanos também se livraram da libertinagem fiscal e em conta corrente pela qual a região ficou famosa, e exportadores de commodities pelo mundo emergente se beneficiaram do grande aumento nos preços de alimentos, petróleo e metais.

Somente na Europa central e oriental há grandes déficits em conta corrente, entrada recente rápida de capital e extensiva propriedade estrangeira de bancos que tornam as economias particularmente vulneráveis a um súbito declínio no humor dos investidores.

A queda nos preços das ações foi dramática, mas as bolsas de valores da maior parte das economias emergentes são muito menos desenvolvidas do que no mundo rico. Portanto, o financiamento corporativo e dos consumidores está menos suscetível à queda nos preços das ações.

Arvind Subramanian, do Peterson Institute for Internacional Economics em Washington, contudo, adverte que, em tempos de medo e incerteza, a lógica talvez não funcione. "Algumas vezes, os resultados se provam completamente desproporcionais aos gatilhos", diz ele.

Em termos gerais, existem dois canais para a retração do crédito ser transmitida: pelo estresse no mercado financeiro e pelo efeito na economia real.

Setores com exposição a finanças estrangeiras e à atividade econômica especulativa mais arriscada levaram um golpe, e houve surtos de pânico localizados, com espasmos de temores sem foco determinado. A segunda-feira histérica dos mercados viu a queda do rendimento nos títulos do Tesouro americano, mas o spread entre os bônus do Tesouro americano e os bônus do mercado emergente, pela taxa "Embi+" do JPMorgan, explodiu para seu mais alto preço desde 2004.

No Peru, por exemplo, a corrida das chamadas empresas de mineração "júnior" - empreendimentos aventureiros que dependem dos mercados de capital para financiar sua exploração - foi cortada com a queda nos preços dos metais e a retração do crédito.

"Para mim, o setor de exploração acabou, nesse tipo de mercado. Particularmente a exploração de projetos de desenvolvimento, onde você não tem recursos, perfurações de prospecção... você tem que estar preparado para levar cinco anos até o financiamento se pagar", diz Kerry Smith, corretor de investimentos canadense da Haywood Securities.

Na África do Sul, muitos confiam que a dura regulamentação impedirá o sistema bancário de ser envenenado pelo tipo de ativos tóxicos que infeccionaram os bancos americanos e europeus. Esta confiança, contudo, é temperada pela necessidade de continuar atraindo capital estrangeiro.

Pretória atualmente tem um déficit em conta equivalente a 9% do produto interno bruto; o mercado de ações de Johannesburgo perdeu 30% de seu valor nos últimos doze meses e tornou-se extremamente caro levantar novo capital.

A Índia, recentemente vivenciou uma mínima corrida ao banco Icici, o segundo maior emprestador do país, apesar de as autoridades garantirem que estava bem capitalizado.

Daqui para frente, os mercados de exportação em desaceleração nos EUA e na Europa testarão a capacidade dos mercados emergentes de gerar sua própria demanda interna, minando os países que se beneficiam dos altos preços das exportações de commodities - particularmente na América Latina.

"Minha preocupação original era que o principal risco (para os mercados emergentes) viria de um desaquecimento das economias industriais. Agora, esse é um fato estabelecido", diz Geoffrey Bell, consultor financeiro em Nova York.

No México, por exemplo, apesar do sistema bancário estar forte, a economia continua altamente dependente de seu vizinho no Norte: 80% das exportações mexicanas vão para os EUA, equivalente a 25% do PIB. Alguns economistas cortaram muito suas expectativas de crescimento - para 1% ou menos para o próximo ano. "O humor passou de 'o México está forte e tem seus próprios motores de crescimento' para 'uau'. O México vai ser marretado", diz Damian Fraser, do UBS Pactual na Cidade do México.

As economias em desenvolvimento têm graus variados de espaço de manobra para responder ao desaquecimento com políticas fiscais e monetárias. Na China, se há algo na crise que pode ser uma bênção é que tira a pressão sobre Pequim para aumentar as taxas de juros e desacelerar a economia. Países como a Índia, que tem uma posição fiscal fraca e déficit em conta corrente crescente, têm menos espaço de manobra. Deborah Weinberg

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