Chefes monetários em harmonia histórica

Krishna Guha

A redução da taxa de juros por seis bancos centrais na América do Norte e na Europa na quarta-feira é uma ação histórica, que tenta produzir pela primeira vez uma resposta de política monetária internacional abrangente para os riscos econômicos da crise do crédito.

A medida transatlântica marca o reconhecimento de que o crescimento já está enfraquecido no mundo industrializado antes mesmo da mais recente escalada do estresse financeiro.

A combinação de uma maior desaceleração mundial com a tensão financeira global aumenta a probabilidade do aumento do desemprego nas principais economias e já derrubou o preço dos commodities, tornando a perspectiva de inflação menos preocupante.

Os autores de políticas vêem o risco de que o loop de realimentação entre a fraqueza do setor financeiro e a fraqueza econômica que ameaça os Estados Unidos desde o arrocho do crédito pode agora estar se reproduzindo em escala mundial.

Como os mercados financeiros são globais, a ameaça ao crescimento é global, a queda dos preços dos commodities é global, faz sentido tratar dos riscos econômicos por meio de um alívio monetário global.

O Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o Banco do Canadá, o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra, o Banco Nacional Suíço e o Riksbank sueco agirão em conjunto para reduzir as taxas nas próximas semanas.

A medida da China -e a redução da taxa pelo Reserve Bank of Australia no início desta semana- fortalece ainda mais a idéia de que este é realmente um esforço global. Mas há vantagens nos seis bancos centrais agirem como um só.

Primeiro, ao agirem simultaneamente, os bancos centrais maximizam a chance de suas ações ressuscitarem os mercados de crédito com um choque e reforçarem a confiança entre os lares e empresas.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, estava cético de uma redução dos juros apenas pelo Fed - que já está baixa - faria algo para estimular o crescimento ou aliviar a tensão no mercado.

Segundo, a natureza coordenada da ação torna menos embaraçoso para os bancos centrais a mudança radical de posição em relação aos juros -particularmente para o Banco Central Europeu, mas também para o Banco da Inglaterra e para o Fed, que adotaram um equilíbrio de riscos neutro em sua última reunião de política.

Terceiro, ela evita o risco de que reduções de juros uma de cada vez produzam oscilações desordenadas nos mercados de moeda. Esta era uma preocupação em particular do Fed e do Banco da Inglaterra, já que o dólar e a libra sofreram surtos de fraqueza extrema desde o início da crise de crédito.

O Banco Central Europeu também não queria ver o euro se valorizar ainda mais frente ao dólar mesmo que temporariamente, após a redução emergencial da taxa de juros pelo Fed.

Quarto, ela tranqüiliza os mercados de que os bancos centrais do mundo estão atuando em harmonia, em um momento em que os governos de todo mundo estão adotando medidas de emergência -como garantia aos depósitos ou planos de recapitalização- que não são coordenadas e freqüentemente têm efeitos colaterais prejudiciais.

Em particular, os bancos centrais sinalizavam que não haveria esforços de "empobreça teu vizinho" com desvalorizações competitivas.

Conseguir isso não foi fácil. Desde o início da crise de crédito, os bancos centrais do mundo -em particular o Fed e o Banco Central Europeu- parecem ter adotado abordagens diferentes para lidar com o risco. O Fed reduziu cedo e agressivamente os juros, para se apoiar no aumento dos spreads de tomada de empréstimo no mercado e tratar preventivamente o risco ao crescimento, enquanto o Banco Central Europeu adotou um rígido "princípio de separação", distinguindo entre as operações de liquidez e a política de juros.

A ação conjunta de quarta-feira marca um encontro dessas duas abordagens. Ela representa uma globalização da estratégia do Fed de usar os juros para aliviar ou pelo menos compensar aquelas que seriam condições financeiras mais duras, visando reduzir o risco da crise do crédito para a economia mundial.

Mas também respeita o princípio de separação do Banco Central Europeu, já que a redução dos juros visa explicitamente a economia, não o sistema financeiro, e é justificada pela mudança no panorama da inflação. George El Khouri Andolfato

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