Greve prolongada ameaça cortar asas da Boeing

Hal Weitzman
Em Chicago

Jim McNerney, o principal executivo da Boeing, escreveu um e-mail para seus funcionários esta semana apresentando uma visão desoladora do que poderia acontecer se a fábrica de aviões cedesse às exigências dos trabalhadores em greve.

"As companhias de automóveis americanas ... se feriram mortalmente anos atrás ao prometer níveis insustentáveis de salários e benefícios e ao concordar com condições contratuais (incluindo garantias de emprego) que limitaram sua flexibilidade para dirigir seus negócios diante da intensa concorrência global", advertiu McNerney. "Hoje suas ações continuam caindo e as demissões cresceram para milhares".

O tom apreensivo reflete preocupações dentro da empresa sediada em Chicago de que a greve de um mês dos 27 mil membros da Associação Internacional de Maquinistas (IAM na sigla em inglês) que trabalham em fábricas da Boeing nos estados de Washington, Oregon e Kansas poderá cobrar um preço maior do que se esperava originalmente do fabricante e de sua reputação global, num momento em que a economia americana mergulha em um pântano.

Quando a interrupção do trabalho começou, a Boeing reagiu com equanimidade, aparentemente assumindo a visão de que uma greve poderia ser necessária para preservar um elemento crítico de sua estratégia industrial.

No centro da disputa está o ressentimento dos trabalhadores sobre a recusa da companhia a limitar o uso de empresas terceirizadas para trabalhos tradicionalmente realizados pelos maquinistas. McNerney calculou que se pudesse vencer o sindicato colocaria a segunda maior fabricante de aviões do mundo em uma posição mais forte por não ter cedido o direito de terceirizar o trabalho.

A Boeing, que parecia estar preparada para uma greve de um mês, também pode ter apostado que a falta de alternativa de emprego e o pagamento de US$ 150 por semana durante a greve fornecido pelo sindicato logo obrigaria os maquinistas a abrandar suas exigências.

No entanto, conforme a greve se prolonga, as atitudes parecem ter endurecido. Os dois lados não tiveram negociações diretas desde o início da ação industrial. Embora estejam em contato com um mediador federal, as diferenças entre os lados são tão grandes que não foram marcadas negociações diretas.

Em resposta ao e-mail de McNerney, o sindicato exigiu "texto de contrato escrito que garanta que empregos historicamente desempenhados por membros do sindicato de maquinistas em nossas fábricas continuarão sendo feitos por membros do sindicato".

A perspectiva de uma greve prolongada já começa a preocupar os analistas. Esta semana Richard Safran, da Goldman Sachs, reduziu sua previsão de receitas para a Boeing em quase 14%, para US$ 5,05 por ação, sugerindo que a greve poderá continuar até dezembro, enquanto Joseph Nadol do JPMorgan disse esperar que a paralisação dure pelo menos mais duas semanas e cortou sua previsão de lucros em 3%.

Novas preocupações foram despertadas pela difícil posição financeira que muitos clientes enfrentam com o agravamento da crise econômica.

A ILFC, uma das maiores companhias de leasing de aviões do mundo e um dos maiores clientes da Boeing, com encomendas atuais de mais de cem aeronaves, é um dos ativos que a AIG foi obrigada a pôr à venda para tentar saldar o empréstimo de US$ 85 bilhões do governo, depois que a seguradora americana foi de fato nacionalizada no mês passado.

Os investidores nervosos fizeram as ações da Boeing cair em parafuso esta semana em meio ao turbilhão geral do mercado. Ontem as ações foram negociadas em seu piso de quase quatro anos, a US$ 48,83 no pregão do meio-dia, com queda de US$ 0,45.

Para cada mês que a greve se prolongar os lucros da Boeing poderão cair US$ 0,31 por ação e custar à companhia cerca de US$ 2,8 bilhões em receitas perdidas, segundo Ronald Epstein, um analista da Merrill Lynch. Em 2007 a Boeing relatou lucros líquidos de US$ 4,7 bilhões sobre receitas de US$ 66,39 bilhões.

Enquanto a greve continua, as operações de fabricação de aviões comerciais da Boeing foram interrompidas, embora a companhia continue entregando aviões que foram concluídos antes do início da greve.
Os danos mais imediatos causados pela greve são ao cronograma do 787 Dreamliner, o jato de passageiros de médio porte da Boeing, que já está pelo menos 14 meses além do cronograma, depois de três atrasos separados.

James Bell, principal oficial financeiro, admitiu que a produção da aeronave de baixo consumo de combustível, que atraiu encomendas recordes, vai demorar mais. Embora os engenheiros continuem trabalhando no 787 de teste, a greve provavelmente eliminará o plano da companhia de voar o Dreamliner pela primeira vez até dezembro e iniciar as entregas no terceiro trimestre de 2009.

A Boeing não quis comentar possíveis atrasos, mas disse que vai reavaliar o calendário de entregas dos 787 quando a greve terminar.

A fabricante de aviões já enfrenta pedidos de indenização de clientes por atrasos anteriores. No entanto, as companhias aéreas não poderão pedir indenização adicional por qualquer atraso causado pela greve.

Ainda este mês a Boeing começa negociações contratuais com seu sindicato de engenheiros, de 21 mil membros. Infelizmente para McNerney, os engenheiros têm as mesmas preocupações que os maquinistas sobre terceirização e também ameaçam uma ação industrial. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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