Pressionada pela crise, indústria automobilística européia demite e reduz produção

John Reed

As fábricas de automóveis da Europa estão reduzindo os turnos de trabalho, interrompendo o funcionamento das suas unidades e começando a demitir empregados, à medida que esta indústria torna-se uma das primeiras baixas concretas da crise de crédito no continente.

A Volvo Cars, que pertence à Ford Motor, anunciou ontem (08/10) uma nova rodada de 4.000 demissões, fazendo com que o plano total de redução da força de trabalho da empresa chegue a 6.000 empregos, o que equivale a cerca de 25% do quadro de funcionários.

A maior parte das demissões ocorrerá na principal fábrica da Volvo, próxima a Gothenburg, onde ela produz veículos de grande porte, cujas vendas foram as mais atingidas pela crise atual. No entanto, também haverá demissões na segunda maior unidade de produção da empresa, em Ghent, na Bélgica, e nas revendedoras no exterior.

"O ambiente econômico instável resultou em uma situação imprevisível, e o desaquecimento da indústria automobilística global é mais drástico do que se esperava", afirma Stephen Odell, o diretor-executivo da Volvo.
As demissões na Volvo vêm integrar-se à extensa lista de paralisações temporárias de fábricas e demissões promovidas no continente por todos os maiores fabricantes de automóveis, do Reino Unido à Espanha, da República Tcheca à Polônia, e incluindo companhias como a Renault, a PSA Peugeot Citroën, a Daimler,a Volkswagen, a BMW e a Ford.

"Muitas companhias adotarão uma jornada de trabalho de quatro dias por semana na Europa", afirma o especialista em indústria automotiva, Peter Cooke, da Universidade de Buckingham, no Reino Unido.

Essas demissões vão se somar aos problemas enfrentados pela indústria nos Estados Unidos, onde os problemas crônicos de Detroit resultaram em mais de 100 mil demissões nas montadoras e fornecedoras de autopeças nos últimos três anos.

Os cortes da produção na Europa ameaçarão agora muitos outros empregos em fornecedoras e revendedoras, algumas das quais já estão fechando as portas.

Os consultores da indústria utilizam um índice multiplicador de pelo menos quatro para calcular o impacto das fabricantes de automóveis sobre os negócios a elas vinculados.

Stefano Aversa, co-presidente da empresa de consultoria AlixPartners, em Detroit, acredita que haverá "uma redução de quase dois dígitos" na indústria antes que a pior fase acabe.

A Europa responde por 27% da produção global de veículos, e a indústria emprega 2,3 milhões de pessoas no continente, e cerca de 10 milhões em empresas a ela vinculadas.

A indústria automobilística foi um dos primeiros setores a sentir um impacto devido à sua vulnerabilidade em relação a todos os aspectos da crise financeira, desde o colapso da confiança do consumidor à contração do crédito.

Antes mesmo do colapso financeiro ocorrido no mês passado, as vendas de automóveis começaram a cair devido à recente disparada dos preços dos combustíveis. No decorrer deste ano, as vendas sofreram uma redução de 5% na Europa Ocidental. Somente no mês de setembro a queda foi de mais de 9%.

Até mesmo em períodos favoráveis as fábricas gerenciam as suas operações com rigor e operam sob intensas pressões competitivas. Embora no passado algumas fábricas tenham mantido as suas unidades operando normalmente durante períodos de crise, neste momento a maioria delas reluta em enviar veículos indesejados aos pátios das revendedoras.

Na Europa, os vários anos de difíceis reestruturações fizeram com que, às duras penas, as empresas aprendessem a administrar as suas operações e a agir com rapidez e flexibilidade ao responderem a crises. Neste momento a maioria delas está enviando os seus funcionários temporariamente para casa, em vez de demiti-los, já que a demissão é um processo caro e que consume tempo, além de deixar as empresas vulneráveis quando há um retorno da demanda por automóveis.
Dentre os primeiros funcionários demitidos pela Volvo, pela Peugeot e pela Ford, vários eram trabalhadores temporários.

Os cortes na produção ocorridos na Volvo foram de uma intensidade incomum devido à vulnerabilidade da marca nos Estados Unidos, onde ela não conta com uma produção local capaz compensar o impacto das variações cambiais. UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos