Um vento cruel

Kate Burgess
Tom Braithwaite
Sarah O'Connor

Na maior parte do século passado, a Islândia era pouco mais do que um ponto de descanso para as frotas pesqueiras do Atlântico Norte que cruzavam as águas entre Groenlândia e a ilhas Faroë.

Reykjavík, onde mora grande parte da população de 320.000 habitantes, ainda parece um porto provinciano. Motoristas de táxi acenam para o presidente, e há uma sensação que a maior parte das pessoas tem alguma relação política, comercial ou de parentesco. Entretanto, apesar de seu ar sonolento, a capital islandesa foi transformada na última década. Uma forte expansão para mercados externos trouxe para o país uma influência desproporcional ao seu tamanho e tornou sua população uma das mais ricas per capta do mundo.

Agora, depois de uma semana na qual os três principais bancos da Islândia desmoronaram e foram estatizados - colocando mais de $ 20 bilhões de euros (em torno de R$ 60 bilhões) em risco para a Europa - a fama está virando notoriedade. Como advertiu o primeiro-ministro Geir Haarde nesta semana: "Há um perigo real que a economia da Islândia seja tragada junto com os bancos, e a nação vá à falência."

É um final triste para o que os predecessores de Haarde anunciaram como a transformação econômica que transformou uma comunidade pobre e isolada em um motor de bancos e empresários, com investimentos globais em diversos setores, desde o farmacêutico até a administração de fundos.

A Islândia irrompeu no cenário financeiro mundial nos primeiros anos desta década. Os islandeses compraram fatias do mercado de telecomunicações da Europa Oriental, alguns dos nomes mais conhecidos no varejo do Reino Unido, inclusive House of Fraser e Hamleys, e grande parte do sistema bancário nórdico.

Inevitavelmente, observadores questionaram de onde vinha o dinheiro. Histórias de elos estranhos com a Rússia abundaram. "Freqüentemente, é sugerido algo dúbio ou nebuloso sobre a origem da força financeira islandesa", disse o presidente Ólafur Ragnar Grímsson em 2006, comentando as "explicações imaginativas" para a súbita riqueza islandesa.

Grande parte do mistério girava em torno da figura carismática de Thor Björgólfsson, que mal fez 40 anos, o homem mais rico da Islândia e fundador da Actavis, quarta maior fabricante de remédios genéricos do mundo. Ele começou sua carreira montando uma cervejaria em São Petersburgo, que ele vendeu à Heineken em 2002, arrebatando US$ 100 milhões (em torno de R$ 200 milhões).

Quase na mesma época, Jón Ásgeir Jóhannesson, um jovem executivo da Baugur, maior cadeia de lojas da Islândia, subitamente materializou-se como o comprador desconhecido de uma grande parte da rede Arcadia do Reino Unido.

Na realidade, disse Grímsson, o sucesso da Islândia é facilmente explicável. O país teria se beneficiado de uma combinação fortuita: a globalização e a remoção de controles comerciais e financeiros junto com inovações tecnológicas em informação que tornaram seu isolamento geográfico irrelevante.

Na base do sucesso da Islândia estava a fundição do alumínio e um sistema de pensão forte, baseado na indústria pesqueira, que tinha dinheiro e apetite para investir em ações. A desregulamentação e a privatização do sistema bancário permitiram que os bancos da Islândia -Kaupthing, Landsbanki e Glitnir (na época chamado Islandsbanki)- se diversificassem e se afastassem de suas bases na agricultura e na pesca.

Uma classe de 30 ex-alunos de administração, como Hreidar Mar Sigurdsson, hoje diretor executivo do Kaupthing, banco que, até sua nacionalização nesta semana, era a maior empresa listada da Islândia, agilmente tiraram vantagem dessas mudanças. Como diz um banqueiro: "O Kauphting se achava o Goldman Sachs do Ártico".

Banqueiros e empresários pegaram grandes empréstimos no exterior, investiram nas empresas uns dos outros e expandiram para além-mar. Quando perguntaram a Grímsson onde a Bakkavor, empresa de alimentos islandesa, tinha conseguido fundos para comprar a Geest - em um negócio que tornou a Bakkavor a maior empresa de alimentos prontos no Reino Unido - ele disse: "A resposta é muito simples: 'vem do Barclays Bank'". Grande parte do patrocínio de Björgólfsson veio do Deutsche Bank.

Ao mesmo tempo, os islandeses começaram a fortalecer laços com empresários internacionais como Kevin Stanford, fundador da Karen Millen, e Robert Tchenguiz, empresário imobiliário. A participação de Tchenguiz na J. Sainsbury e Mitchells & Butlers, cadeia de bares do Reino Unido, foi financiada pelo Kaupthing. Tchenguiz também entrou para o conselho da Exista, seguradora islandesa que detinha 25% de participação do Kaupthing.

Na Islândia, a expansão resultou em uma expansão de crédito que, por sua vez, alimentou seu mercado imobiliário e de ações. Em 2003, os proprietários de imóveis da Islândia estavam entre os mais ricos do mundo, apesar de também estarem entre os mais endividados.

Em 2004, soaram alguns alarmes. O Banco Central estava preocupado com uma "onda de 'buy-outs' alavancados de empresas listadas e não listadas, o que explicava o aumento em empréstimos dos bancos". E advertia: "Essas transações forçaram para cima o preço das ações de várias empresas listadas, inclusive financeiras, gerando uma questão sobre o impacto dos preços das ações, caso voltem para baixo".

Um ano depois, o FMI incitou autoridades supervisoras financeiras na Islândia a implementarem testes de estresse para acessar os riscos para o setor financeiro de flutuações na taxa de câmbio. "Isso está se tornando particularmente importante na medida em que os bancos intermediam um volume crescente de empréstimos estrangeiros", disse.

Em 2006, as agências de classificação rebaixaram os bancos. O Moody's Investor Service culpou a deterioração do ambiente operacional doméstico do Kaupthing por causa do rápido aumento das taxas de juros e da moeda em queda. Ele ressaltou o rompimento das operações de financiamento dos três bancos comerciais islandeses.

Os bancos islandeses responderam aumentando a expansão para o exterior e dissolvendo suas posições cruzadas de ações. Eles diversificaram seus financiamentos e aumentaram a ênfase sobre depósitos, particularmente em filiais estrangeiras. O Landsbanki criou o Icesave, seu banco de Internet no Reino Unido, enquanto o Kaupthing lançou o Kaupthing Edge, que no início do ano estava recebendo 700 milhões de euros por mês em depósitos.

Em 2007, o Kaupthing começou a se recompor. Vendeu ativos, diminuiu os empréstimos, reduziu custos. Em janeiro deste ano, desistiu do que teria sido a maior aquisição de sua história: um 'buy-out' do Nibc, banco mercantil holandês.

Outros bancos o acompanharam. Mas não foi suficiente: a retração global de crédito chegou com força neste ano com o aumento do custo de empréstimos de riscos no exterior, enquanto a moeda e os preços dos ativos em Reykjavík caíam. De acordo com o Banco Central islandês, o dinheiro devido pelos bancos aos estrangeiros no segundo trimestre era seis vezes o total de bens e serviços produzidos pela economia islandesa durante o ano. Enquanto isso, a inflação subiu, a produção caiu, e analistas advertem da proximidade da recessão.

Somente agora as conseqüências plenas das expansões ousadas dos bancos nos mercados estrangeiros estão se tornando claras. Na semana passada, o governo islandês tomou a decisão de estatizar o Glitnir, seguida rapidamente pela estatização do Landsbanki. O Kaupthing correu para vender ativos e empréstimos em torno mundo para conseguir se manter no negócio, com efeitos dominó sobre os credores. Tchenguiz perdeu perto de $ 1 bilhão de libras (cerca de R$ 3,4 bilhões) em 24h, após ser forçado a vender sua participação na Sainsbury e na Mitchell & Butlers.

Entretanto, na quinta-feira o Kaupthing também foi estatizado em meio a acusações de Haarde que a decisão do governo britânico de colocar a subsidiária Kaupthing Singer & Friedlander sob administração e congelar seus ativos tinha sido parcialmente responsável pelo colapso.

A queda dos bancos está fazendo o mercado temer o pior. O custo do seguro contra um calote na nação islandesa sobre sua dívida soberana inflou, com o mercado exigindo pagamentos adiantados pela primeira vez desde 2002, no caso do Brasil. Simon Johnson, do Instituto Peterson em Washington, diz: "Esta é primeira vez que vemos um problema soberano verdadeiro como esse da Islândia - a crise está se espalhando."

Uma equipe do FMI está agora em Reykjavík e analistas acreditam que o governo islandês pedirá ajuda. Lars Christensen, economista dos Danske Bank, disse: "Há apenas uma opção sustentável -e esta é o FMI".

A Suécia ofereceu um empréstimo para proteger as operações suecas do Kaupthing. Os bancos centrais nórdicos estão falando em apoiar a Islândia com mais financiamentos. Mas os esforços islandeses para encontrar apoio mais amplo no exterior foram prejudicados por sua baixa reserva em moeda estrangeira e alto déficit comercial. A Rússia indicou que talvez ofereça um empréstimo de $ 4 bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões), gerando questionamentos entre aliados da Islândia na Otan no Ocidente. A Islândia assegurou que qualquer ajuda não se estenderia além do apoio financeiro.

Enquanto isso, o tom das relações da Islândia com o Reino Unido começou a se deteriorar para níveis não vistos desde a guerra do bacalhau, nos anos 70. Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, falou nesta semana em "ação legal contra as autoridades islandesas" para recuperar 300.000 poupanças no Icesave, depois que o Landsbanki foi declarado insolvente. Desde então, veio a público que 108 condados no Reino Unido, inclusive o de Kent, tinham depósitos de $ 800 milhões de libras (aproximadamente R$ 2,7 bilhões) nos bancos islandeses. Para os contribuintes e investidores no Reino Unido é provável que demore um bom tempo antes de esses fundos retornarem.

Nas palavras de um investidor britânico: "É melhor os islandeses pegarem suas varas de pescar. Vão precisar de muito bacalhau para compensar o que perdemos."

O caminho para a desregulamentação

A história da Islândia começa no século 19, com a chegada dos primeiros colonos permanentes da Noruega. A ilha vulcânica e geologicamente ativa foi governada pela Noruega e depois pela Dinamarca até 1944, quando ganhou independência.

A relativa pobreza do país isolado refletia-se no fato de até 1973 ser classificado como país em desenvolvimento pelo Banco Mundial, por causa da sua dependência excessiva do peixe. Os preços eram centralizados e os impostos eram altos, assim como as tarifas sobre o comércio. Importação e exportação eram altamente reguladas.

"O poder político dominava todo sistema financeiro, que mal podia ser distinguido do sistema político", observou David Oddson, primeiro-ministro entre 1991 e 2004 que liderou o movimento pela desregulamentação dos mercados de capital e pela privatização empresas estatais, especialmente do setor bancário. Deborah Weinberg

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