Brasil é pouco afetado pela crise, apesar de o crescimento diminuir

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

Na gráfica de Fábio Marangoni, em São Paulo, páginas de revistas lustrosas emergem quase silenciosamente das máquinas de impressão modernas importadas da Alemanha.

Quando perguntamos quanto pegou de empréstimo para instalar as máquinas, Fábio respondeu com um ar de satisfação: "Nada. Usamos nosso próprio capital".

No ano que vem, sua empresa familiar completará 50 anos. "Nesse tempo todo, vimos a moeda subir e cair vertiginosamente. Nossa matéria-prima e maquinário é vendido em dólar, então sempre tomamos o cuidado de usar nosso próprio dinheiro. Isso significa que crescemos mais lentamente, mas para a pena. Veja o que está acontecendo agora."

A cautela de Fábio não o protegeu inteiramente do caos no sistema financeiro mundial. As condições de crédito apertaram, e os consumidores e empresas estão adiando seus planos de gastos.

Ainda assim, o Brasil deve emergir da crise relativamente intocado. Economistas que previamente esperavam um crescimento de 4.5 a 5,5% no ano que vem, agora esperam entre 2,5 e 3,5% - nada mal, comparado com o cenário global.

Nem todas as empresas, contudo, foram tão conservadoras quanto a de Fábio. Na sexta-feira (10/10), o Grupo Votorantim, um conglomerado industrial, disse que tinha pago R$ 2,02 bilhões para liquidar posições em derivativos de moeda. Foi a terceira grande empresa a anunciar grandes perdas em apostas de câmbio e provavelmente não será a última.

A mídia local está falando de "subprime brasileiro". Alguns observadores acreditam que haverá mais falências, na medida em que mais exportadores forem forçados a admitir que se expuseram além dos limites indicáveis a contratos de câmbio - que trabalharam em seu favor durante a longa estrada do real a R$ 3,95 para o dólar em outubro de 2002 para R$1,56 em maio deste ano, mas que viraram-se contra eles durante sua queda subseqüente.

Ao todo, contudo, empresas brasileiras estão muito menos endividadas do que seus competidores estrangeiros. A quantidade total de crédito no Brasil foi igual a 38% do produto interno bruto em agosto, muito menos do que em muitos países desenvolvidos.

Economistas e empresários há muito pediam ao governo que adotasse reformas para liberar mais dinheiro e financiar o investimento e o consumo pelo crédito. De fato, houve uma aceleração do crescimento nos últimos poucos anos liderada pelo consumo, com taxas de juros mais baixas, emprego crescente e estabilidade econômica estimulando financiamentos.

Entretanto, as taxas de juros ainda são muito altas pelos padrões internacionais. A Anefac, uma associação de executivos de finanças, diz que as taxas oferecidas aos consumidores foram em média de 105% em agosto, enquanto a taxa dos cartões de crédito foi em média foi de 230%. As empresas estavam pagando uma média de 60% para o capital de giro.

No nível internacional também, o Brasil é relativamente pouco exposto. O governo pagou grande parte de sua dívida externa e agora é credor do resto do mundo. Menos de 10% do crédito bancário é levantado no exterior. As importações são apenas 9% do PIB, e as exportações, perto de 12%.

"Em geral, é ruim, mas nas atuais circunstâncias, é bom o Brasil estar relativamente isolado do resto do mundo", diz Nathan Balnce da Tendências, firma de consultoria em São Paulo.

A boa fortuna do Brasil não se deve apenas à sorte. O sistema bancário está sólido depois de uma reestruturação promovida pelo Estado nos anos 90, com regras conservadoras para financiamentos. Atividades arriscadas como vendas a descoberto são rigorosamente controladas - apesar do "subprime brasileiro" sugerir que regras mais firmes talvez sejam necessárias para o mercado de derivativos de balcão.

O BC, contudo, têm estado alerta aos perigos e rápido nas respostas. Repetidamente relaxou os requerimentos de reserva rígidos do Brasil, permitindo que os bancos emprestassem mais de seus depósitos e fornecessem alívio a empresas com dificuldade de crédito.

"Não estou dizendo que não seremos atingidos ou que seremos apenas marginalmente atingidos. Mas quando a poeira baixar, o Brasil vai se sair melhor do que muitos outros lugares", diz Jean-Marc Etlin do Itaú BBA, banco de investimentos de São Paulo. Deborah Weinberg

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