Brasil deverá responder aos problemas do real com empréstimos a exportadores

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

Ontem (20/10), o Banco Central do Brasil deveria oferecer empréstimos de seis meses no valor de até US$ 2 bilhões em uma tentativa de proporcionar alívio aos exportadores que viram-se sem financiamento de operações comerciais à medida que a crise dos mercados financeiros globais agravava-se no mês passado.

A medida - que foi elaborada para proporcionar uma bastante necessária liquidez em dólares - segue-se a iniciativas para proporcionar liquidez em moeda brasileira, o real, a companhias que viram-se incapazes de utilizar recursos de crédito de curto prazo no setor bancário brasileiro.

"As linhas de crédito secaram", afirmou Cláudio Andrade, da Polo Capital, uma administradora de fundos do Rio de Janeiro. "O mercado opera na margem, e, assim que os preços sobem, ele sente o impacto".
Nas últimas semanas, o banco central reduziu as suas rígidas exigência relativas a reservas - segundo as quais os bancos são obrigados a deixar uma proporção substancial de seus depósitos no banco central - com o objetivo de injetar mais de R$ 100 bilhões (? 35,7 bilhões, US$ 47,5 bilhões, £ 27,7 bilhões) na economia.

Mas muitos bancos optaram por não usar o dinheiro para fornecer créditos e, em vez disso, têm comprado títulos governamentais de alto retorno.

Henrique Meirelles, o presidente do Banco Central, disse que os empréstimos que seriam oferecidos ontem devem ser usados exclusivamente para proporcionar financiamento comercial - e que os bancos que utilizarem as verbas para outros objetivos serão punidos segundo a legislação brasileira.

Os exportadores brasileiros, especialmente os do setor agropecuário, foram atingidos por uma conjunção de fatores, incluindo a queda dos preços das commodities, algo que já seria suficiente para criar problemas para muitos deles, mesmo sem a contração do crédito.

Várias companhias viram-se também em dificuldades por terem apostado na continuidade da valorização do real, que passou de R$ 3,95 em relação ao dólar em outubro de 2002 para R$ 1,56 neste ano, antes de cair acentuadamente para R$ 2,33 por dólar no início deste mês.

A indústria alimentícia Sadia, a produtora de papel e celulose Aracruz e o conglomerado industrial Votorantim pagaram R$ 2,2 bilhões para se livrar das suas operações com derivativos cambiais. O governo teme que até 250 outras companhias possam estar enfrentando dificuldades semelhantes.

Este é um dos motivos pelos quais nas últimas semanas os bancos não têm se mostrado dispostos a conceder empréstimos às companhias. E preocupações mais gerais quanto ao desaquecimento da economia fazem com que eles relutem ainda mais a emprestar.

Antes do agravamento da crise financeira no decorrer do mês passado, muitos economistas esperavam que o produto interno bruto do Brasil crescesse 5,5% no ano que vem, em sintonia com o crescimento registrado no ano passado e neste ano. Mas desde então muitos deles reduziram as suas previsões para menos de 3,5%.

Outros exportadores de commodities da região, como Argentina, Chile e Peru, deverão enfrentar uma redução de crescimento no ano que vem devido à queda da demanda. O México - onde as companhias também foram bastante afetadas por terem apostado na moeda errada - encontra-se especialmente vulnerável a uma desaquecimento econômico nos Estados Unidos.

O banco central anunciou que ontem aceitaria inscrições para os empréstimos, das 16h às 17h, horário local, e que as taxas de juros seriam estabelecidas durante um leilão, devendo ficar acima da London Interbank Overnight Rate (Libor). Os bancos que participarem terão que oferecer como garantia o equivalente a 105% de quaisquer empréstimos na forma de títulos brasileiros soberanos. UOL

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