Os planos de Super-Sarko para o mundo

Gideon Rachman

"A Europa deseja um encontro de cúpula antes do fim do ano. A Europa quer. A Europa exige. A Europa o terá." Assim disse Nicolas Sarkozy - o presidente da França e (até janeiro) da União Européia- antes de partir para Washington no fim de semana. Lá ele persuadiu o presidente George W. Bush a concordar em um encontro de cúpula internacional dedicado, disse Sarkozy, visando nada menos que "refundar o sistema capitalista".

A viagem para Washington foi como uma fantasia francesa virando realidade: uma tentativa bem-sucedida de pressionar o presidente americano a discutir a governança mundial e a domesticação do capitalismo. Agora que as imagens de bancos quebrando e fila da sopa para os pobres estão diminuindo, os europeus estão desfrutando a crise financeira global.

A confiança enérgica de Sarkozy é reforçada pelo senso comum de que a Europa passou por uma boa crise. Após um período de desordem, os líderes da UE acertaram as coisas e elaboraram um plano que resgatou os bancos e restaurou um pouco da confiança.

Mas os europeus não deveriam acreditar na sua própria publicidade - e nem um crédulo e chocado presidente americano. Pois apesar da UE se considerar como a líder global na arte da governança internacional, ela lidou com esta crise ignorando em parte alguns de seus próprios princípios mais acalentados.

Europeus ardorosos em Bruxelas sabem que durante a crise financeira a verdadeira religião do "método comunitário" foi abandonada, em troca da terrível heresia do "intergovernamentalismo". Em não-jargão, isto significa que a crise foi tratada por governos nacionais. As instituições da UE - o Parlamento, a Comissão - foram em grande parte irrelevantes, assim como o poderoso corpo da lei da UE.

Isto pode parecer como uma disputa teológica obscura, de interesse apenas da casta sacerdotal em Bruxelas. Mas foi saudada pelo ministro francês das relações européias como "um novo modo de organização e decisão". E poderia desviar a UE em algumas direções imprevistas - prenunciando um ataque mais amplo a alguns dos principais poderes e políticas da União.

Isto não é o que aqueles que acreditam na integração européia esperavam que aconteceria em uma crise. Eles sempre acreditaram na teoria do "acidente terrível" para integração européia - que crises persuadem os europeus a se unirem e a adotarem formas mais profundas de integração política e econômica.

Romano Prodi, um ex-presidente da comissão, explicou esta teoria ao "Financial Times" em 1999. Ele reconheceu que a criação de uma moeda comum européia não foi acompanhada pela criação de um governo econômico para a Europa. Mas, ele acrescentou: "Eu estou certo que o euro nos obrigará a introduzir um novo conjunto de instrumentos de política econômica. É politicamente impossível propor isso agora. Mas algum dia ocorrerá uma crise e novos instrumentos serão criados".

Bem, a crise aconteceu - mas a UE não reagiu criando "novos instrumentos". Na verdade ocorreu o oposto. Visando permitir que os governos europeus socorressem seus bancos, a UE teve que ignorar alguns de seus "instrumentos" mais poderosos e venerados - as leis de ajuda pelo Estado que visam impedir que os governos da UE subsidiem empresas nacionais, e as regras de disciplina orçamentária que visam impedir que os governos nacionais degradem a moeda comum ao manterem déficits fiscais insustentáveis.

Em teoria, estes lapsos são medidas temporárias em resposta a uma crise. O risco para a UE é que se transformem em um esforço sustentado para reverter os poderes da União.

Os italianos e os franceses, em particular, parecem ávidos em desafiar as leis de ajuda pelo Estado em outras frentes. Como nos Estados Unidos, há um clamor para resgate às empresas automotivas - assim como os bancos. Outros alvos tentadores estão despontando. Sarkozy é um antigo crítico do firmemente independente Banco Central Europeu e do pacto de estabilidade que restringe os déficits orçamentários. Alguns governos da Europa Central -liderados pela Polônia- querem reverter as leis ambientais européias.

O governo francês - e grande parte da esquerda européia - há muito acredita que a comissão européia foi seqüestrada por doutrinários do livre mercado. Sarkozy argumenta que a crise provou a loucura de acreditar que o mercado está sempre certo. Logo, a crise financeira pode ter preparado o caminho intelectual para um ataque aos poderes da comissão de policiar o mercado interno da Europa. Quem precisa de todas estas leis exigentes e irrealistas quando super-Sarko tem empresas e economias inteiras para salvar?

Onde os instintos intervencionistas de Sarkozy o levarão nas discussões internacionais de um novo acordo de "Bretton Woods"? Algumas pistas já estão surgindo. Assim como os pedidos-padrão de maior supervisão do sistema bancário internacional, Sarkozy quer uma repressão aos paraísos fiscais internacionais. A idéia de uma "concorrência fiscal injusta" entre os países há muito é um bicho-papão para os franceses. O comunicado de encerramento do mais recente encontro de cúpula da UE também pediu por controles aos pacotes de remuneração dos executivos que encorajam que corram riscos excessivos.

Parece improvável que qualquer governo americano se sinta particularmente encantado pela idéia de esforços internacionais para harmonizar os regimes fiscais ou remuneração de executivos. Nem deveria.

Os políticos da América do Norte e da Ásia também devem estar cientes de que, ao mesmo tempo que a UE pede por novas regras e regulamentações internacionais, ela está discretamente ignorando algumas de suas próprias políticas centrais. É fácil propor esquemas nobres e empolgantes para a governança internacional. Mas eles podem parecer rapidamente irrelevantes quando estoura uma crise. George El Khouri Andolfato

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