Como a crise financeira está mudando a China

Geoff Dyer

As reformas econômicas lançadas na China por Deng Xiaoping comemoram seu 30º aniversário este ano, e há muitos motivos para se pensar que o país poderá desfrutar mais 30 anos de grande crescimento.

A urbanização foi uma das maiores forças propulsoras, e segundo alguns cálculos o processo está apenas na metade. Apesar de todo o progresso feito desde 1978, a China ainda é um país muito mais pobre do que a maioria das pessoas percebem - não está sequer entre os cem mais na classificação do Fundo Monetário Internacional de Produto Interno Bruto per capita. E isso significa que há muito espaço para continuar jogando pega-pega.

Por isso é importante não entrar em pânico diante das notícias de que a economia chinesa está esfriando mais rapidamente do que se esperava diante da fusão financeira global, após cinco anos de expansão de dois dígitos. O crescimento de 9% no terceiro trimestre ainda é excepcional pelos padrões históricos, maior que o do Japão ou da Coréia do Sul em seus anos de pujança. A última vez em que os EUA cresceram tão rapidamente foi mais de meio século atrás.

Mas também parece claro que a economia chinesa atingiu um ponto limite. A máquina do crescimento que trouxe a China até aqui precisa ser revisada para manter seu histórico notável. Os líderes chineses estão enfrentando questões que vão ao cerne da administração econômica.

A economia chinesa às vezes é descrita como dependente de sua máquina de exportações. Certamente é verdade que a China não pode continuar expandindo as exportações 20% ao ano diante de uma recessão global prolongada. Mas a verdadeira história dos últimos cinco anos foi o surto de investimentos internos, notadamente na indústria pesada.

Alumínio, aço, cimento e vidro quase duplicaram a produção nos últimos anos, o que também foi uma das principais causas do boom nos preços de matérias-primas e da energia. Mesmo fontes privilegiadas do setor às vezes se surpreenderam com o ritmo da expansão. Alguns anos atrás a associação de siderúrgicas da China decidiu investigar a produção de centenas de pequenas novas fábricas que haviam surgido mas não estavam incluídas nas estatísticas oficiais: descobriu uma capacidade excedente equivalente a mais que toda a indústria siderúrgica dos EUA. Missões espaciais e arranha-céus não são o símbolo do recente sucesso da China; é a siderurgia.

Mas esse investimento teve efeitos colaterais negativos que tornam difícil sustentá-lo. O uso da energia tornou-se menos eficiente, a poluição aumenta, causando instabilidade política, e essas indústrias pesadas criam menos empregos que os serviços.

É aí que entra a crise financeira global. Nos últimos cinco anos, o governo chinês reconheceu a necessidade de modificar o equilíbrio da economia. As autoridades admitiram que a China deveria dar menos ênfase ao investimento e às exportações de baixo custo e mais ao consumo, serviços e inovação. Hoje essa transição não pode mais ser adiada.

Já existe uma lista de propostas políticas para aumentar o consumo. A maior prioridade para muitos economistas é a reforma do sistema de saúde. Como o sistema se dilapidou em muitas áreas rurais foi revelado esta semana por nova pesquisa publicada no jornal médico "The Lancet". Nas áreas rurais mais ricas, os índices de mortalidade infantil eram de 26 por mil nascidos vivos, semelhante ao do México; nas áreas rurais pobres o nível era de 123, o mesmo índice da República Democrática do Congo. Se as pessoas tiverem mais confiança que evitarão contas médicas, diz a teoria, vão economizar menos e gastar mais sua renda. O enorme investimento em saúde tem até um toque keynesiano muito na moda.

Mas modificar o equilíbrio da economia vai exigir mais que políticas bem executadas. Vai obrigar a mudanças na cultura política e nas instituições que governam a economia.

A lei civil será um dos principais campos de batalha. Depois do recente escândalo sobre leite envenenado, as autoridades conseguiram evitar que muitos pais de bebês hospitalizados movessem ações. Mas a ação legal sobre questões como responsabilidade por produtos se tornará mais importante em uma sociedade em que os consumidores tenham mais prioridade. E se a China quiser que suas empresas sejam mais inovadoras vai ter de dar garantias mais sólidas de respeito à propriedade intelectual. O Partido Comunista da China delineou um novo modelo econômico que exige menos interferência dos líderes do partido no sistema jurídico.

Em grande parte do setor de serviços, das finanças às telecoms, o Estado ainda predomina. Mesmos setores criativos estão presos em sua sombra. O filme de sucesso na China neste verão foi "Kung Fu Panda", e provocou um debate angustiado sobre por que os EUA e não a China fizeram uma comédia de sucesso sobre um dos símbolos nacionais da China. Os críticos acusaram de tudo, desde um sistema de educação que sufoca a imaginação até a censura.

Durante os Jogos Olímpicos houve muita discussão sobre se o capitalismo traria democracia à China. Mas há muitos tipos diferentes de capitalismo. Uma estratégia econômica baseada em encorajar os produtores - terra barata, energia barata, crédito barato - é de muitas maneiras adequada a um sistema político autoritário. Mas defender os interesses dos consumidores colocará novas pressões sobre o partido-Estado chinês.

Nos EUA e em partes da Europa, a crise financeira levou os governos a exercer um papel ativo na economia que parecia impensável poucos meses atrás. Seria irônico se também encorajasse o Estado chinês a afrouxar. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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