Governo brasileiro autoriza ajuda a bancos privados

Jonathan Wheatley
Em São Paulo

Bancos controlados pelo governo brasileiro receberam luz verde para ajudar instituições financeiras credoras de companhias que fizeram más apostas na moeda do país, em meio às preocupações crescentes quanto ao grau de risco financeiro.

A Sadia, uma empresa de alimentos; a Votorantim, um conglomerado industrial; e a Aracruz, uma das maiores produtoras de papel e celulose do mundo, admitiram ter sofrido grandes prejuízos com derivativos cambiais depois que a moeda brasileira, o real, sofreu uma forte desvalorização em relação ao dólar nos últimos meses, após ter se valorizado constantemente durante quase quatro anos.

A possibilidade de que centenas de companhias possam querer renegociar a sua exposição aos riscos de derivativos com os bancos emissores motivou a iniciativa do governo de permitir que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, dois bancos controlados pelo governo, comprassem ações de outros bancos, embora nenhum desses bancos tenha ainda admitido estar em dificuldades.

Guido Mantega, o ministro da Economia, afirmou ontem (22/10) que a medida foi uma resposta a uma crise temporária de liquidez na economia global, e acrescentou que os bancos estão "sólidos" e que nenhum corre o risco de falir.

Neste mês a Aracruz anunciou que os seus prejuízos com derivativos cambiais seriam de R$ 1,95 bilhão (US$ 820 milhões) caso tivesse livrado-se desses ativos em 30 de setembro. Mas a agência de classificação de crédito Moody's rebaixou a companhia nesta semana, após concluir que o verdadeiro grau de risco estava na casa de US$ 6,26 bilhões.

Nesta semana a Aracruz montou uma conferência com analistas para discutir os seus resultados do terceiro trimestre, e anunciou: "Com o objetivo de aumentar a liquidez da companhia, proteger os seus ativos e manter os negócios em funcionamento, várias medidas estão sendo tomadas, incluindo ações para reduzir gradualmente a nossa exposição aos riscos das operações com derivativos, o que envolve, entre outras coisas, contínuas negociações com os bancos".

Alguns analistas minimizaram a extensão do problema devido aos lucros anteriores que as companhias obtiveram com tais instrumentos.
Maria Helena Santana, diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), disse ao "Financial Times" que acredita que as dificuldades das companhias com derivativos cambiais não atingiram proporções sistêmicas.

"A moeda já passou pelo seu valor mais baixo em relação ao dólar", disse Santana. "Acredito que, se as companhias estivessem em sérias dificuldades, nós já saberíamos disso".

A CVM deu às companhias brasileiras um prazo até 14 de novembro para que revelem a extensão dos seus riscos com derivativos cambiais. UOL

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