Oligarcas russos: navegando de lado

O homem que recebeu políticos britânicos em seu iate está entre aqueles que estão lutando para impedir que seus impérios caiam nas mãos de seu credor - o Kremlin - como escreve Catherine Belton

Oleg Deripaska tinha motivos para estar entusiasmado enquanto o sol do final de agosto banhava o casco cinza de aço e a superestrutura branca de alumínio de seu iate, o Queen K de 72 metros. O homem mais rico da Rússia, que ganhou dinheiro com metais, estava no meio de uma batalha pelo domínio do níquel, mas tinha arrumado tempo para dar uma festa a bordo para a elite política e empresarial britânica.

Como agora se tornou tema de um furioso debate no Reino Unido, os convidados naquela cintilante ocasião - a bordo daquele que é considerado um dos 50 maiores iates do mundo - incluíam Peter Mandelson, na época um comissário da União Européia, e George Osborne, porta-voz financeiro chefe do Partido Conservador de oposição do Reino Unido. Como parte de sua disputa pelo controle da Norilsk Nickel, a maior mineradora de níquel do mundo, Deripaska estava considerando vender ações de sua produtora de alumínio UC Rusal na Bolsa de Londres. Beber com alguns amigos dos altos escalões certamente não faria mal algum.

Mas aquela era a calmaria antes da tempestade. Em apenas dois meses, as dezenas de bilhões de dólares que Deripaska estava disputando foram dizimadas na queda do mercado de ações russo. A Norilsk Nickel está valendo menos de um quarto de seu valor de US$ 40 bilhões em agosto e Deripaska enfrenta um possível perda forçada de sua participação acionária.

Com Osborne tendo nesta semana que negar as alegações de ter solicitado ao magnata uma doação ao seu partido, e lorde Mandelson - recém-nomeado ministro dos negócios pelo governo trabalhista - rejeitando as sugestões de conflito de interesses com seu papel na época como comissário de comércio da União Européia, os encontros do russo com figuras políticas britânicas se tornaram tão tóxicos quanto as dívidas que Deripaska parece ter.

O oligarca de 40 anos está lutando para encontrar um refinanciamento para o empréstimo de US$ 4,5 bilhões junto a bancos ocidentais, incluindo o Royal Bank of Scotland, que pagou por parte de sua participação acionária de 25% na Norilsk, após a queda no valor das ações que ele usou como garantia. Se ele não conseguir um adiamento das datas de vencimento junto aos bancos ocidentais ou uma ajuda do Estado russo até o final da próxima semana, ele poderia se ver obrigado a entregar suas ações para os credores. A Rusal diz que está otimista que conseguirá o refinanciamento junto ao governo, acrescentando que enquanto isso está "realizando negociações com os bancos" para o adiamento do vencimento do empréstimo.

Mas aquele que era o maior império industrial da Rússia "está começando a parecer um castelo de cartas", disse uma pessoa próxima da Rusal. "O pessoal (de Deripaska) acha que tem muitas opções. Mas elas estão começando a se esgotar (...) Cada bilhão conta. Vai ser uma disputa apertada."

Deripaska não está sozinho. O arrocho global do crédito eliminou cerca de US$ 230 bilhões do valor total das ações em poder dos oligarcas russos, cujo pico foi de US$ 300 bilhões. Outros que perderam fortunas na queda do mercado incluem Roman Abramovich e Alisher Usmanov, os respectivos investidores dos times ingleses de futebol do Chelsea e Arsenal.

Mas aqueles que, como Deripaska, levantaram dezenas de bilhões de dólares usando ações como garantia estão na posição mais precária. Em uma reversão das privatizações dos anos 90, quando os oligarcas ditaram os termos de venda para um Estado fraco, agora o governo rico em moeda está em posição de decidir os destinos dos empresários mais alavancados do país. Preparando o terreno para a maior redistribuição de propriedade desde os anos 90, o Kremlin reservou US$ 50 bilhões para o refinanciamento dos empréstimos no exterior de empresas estratégicas, como a Rusal de Deripaska.

Se Deripaska não conseguir obter o adiamento dos vencimentos dos empréstimos ou uma ajuda do Estado até o prazo de 31 de outubro estabelecido pelos bancos, ele poderá enfrentar o não pagamento de outros US$ 10 bilhões em empréstimos devidos pela Rusal a bancos estrangeiros. Pessoas com conhecimento da situação dizem que os bancos possivelmente optarão pelo adiamento para dar tempo para que o VEB, o banco estatal de desenvolvimento, forneça o refinanciamento, o que poderá não ocorrer antes de novembro. Mas com a necessidade de 100% de aprovação pelos credores, ainda há riscos.

Deripaska já foi forçado a abrir mão de participações acionárias em duas holdings estrangeiras para atender as exigências dos bancos estrangeiros. Outras dívidas estão se acumulando. A Rusal disse que persuadiu o bilionário Mikhail Prokhorov a permitir o adiamento da parcela de US$ 700 milhões que ela lhe deve pela compra de seus 25% de participação na Norilsk.

A Basic Element, a holding de Deripaska, não revela o valor total de suas dívidas. Mas segundo uma estimativa, Deripaska está altamente endividado. "Nós compramos isso e depois aquilo", disse um ex-parceiro de negócios. "Quando ele comprava algo, ele imediatamente a usava como garantia para tomada de empréstimo para compra de outra coisa. Era assim que ele movimentava o capital." Alexander Temerko, o ex-vice-presidente da Yukos, o falido grupo de energia, disse: "Tudo vai bem quando o mercado está crescendo. Mas este sistema de empréstimos gerando mais empréstimos é muito perigoso quando o mercado cai".

A Basic Element nega ter problemas de liquidez, dizendo que não pretende abrir mão de mais participações acionárias para os credores. Ela conseguiu levantar 500 milhões de euros em refinanciamento junto a co-acionistas visando manter seus 25% de participação acionária na Strabag, a construtora austríaca, após a exigência pelos bancos de mais garantia.

Mas a alavancagem usada para construção do império de Deripaska, por meio do qual ele controla 90% da produção de alumínio do país, é sintomática do boom de tomada de empréstimo pelos homens mais ricos da Rússia. As centenas de bilhões de dólares levantadas com garantias russas ajudaram a tornar Moscou uma das cidades mais caras do mundo, em um país onde o salário médio ainda é de apenas cerca de US$ 700 por mês. "Isso faz parte da crescente desigualdade de renda", disse Chris Weafer, do banco de investimento Uralsib, com sede em Moscou. "O crescimento dos restaurantes e clubes de luxo e a compra de apartamentos no West End de Londres é um reflexo disso."

Mas quando o mercado começou a cair após a guerra na Geórgia, em agosto, reduzindo o valor das garantias, a alavancagem resultou em um ciclo vicioso de vendas forçadas, ajudando a derrubar o mercado de ações russo em mais de 70% em relação ao seu pico em maio.

A prática de usar como garantia as ações blue chips russas para levantar bilhões de dólares em empréstimos se tornou disseminada em meio aos quase cinco anos ininterruptos de alta do mercado de ações russo. Bancos russos e ocidentais liderados pelo Credit Suisse e Deutsche Bank lideraram o negócio, disseram participantes do mercado. As estimativas de quanto dinheiro foi levantado tendo como garantia as empresas blue chips russas variam muito, de US$ 40 bilhões a US$ 120 bilhões. Como resultado, "ninguém sabe" quanto é a dívida de fato da Rússia, além dos US$ 527 bilhões que o banco central informa que empresas e bancos russos tomaram junto a bancos estrangeiros, disse Andrei Illarionov, um ex-assessor econômico da presidência.

Weafer concorda: "Um dos motivos para o mercado russo ter caído tanto é porque os investidores temem a existência de um problema maior de endividamento do que mostram as estatísticas oficiais". Entre os mais afetados, ele acrescentou, estão o segundo escalão dos chamados minigarcas. "Muitas de suas fortunas se baseavam no crescimento dos valores dos ativos. Mas agora eles são os mais expostos."

Mas entre os oligarcas, Deripaska se destaca. Ele cultivou laços estreitos com Vladimir Putin, o ex-presidente e atual primeiro-ministro, ao prometer ajudar a reconstruir a Rússia. A Basic Element assumiu a dianteira no programa de obras para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 em Sochi e Deripaska prometeu investir até US$ 3 bilhões por ano na reconstrução de estradas, aeroportos e outras obras de infra-estrutura na Rússia -um compromisso que apenas aumenta sua dívida.

Um participante do mercado disse que Deripaska "voou perto demais do sol tanto política quanto economicamente", acrescentando: "Ele é o rosto público dos problemas de Sochi com os aumentos dos custos".

Acredita-se que Deripaska provavelmente obterá o refinanciamento junto ao Estado antes que os credores estrangeiros exijam o pagamento do empréstimo de US$ 4,5 bilhões. A Rússia não vai querer que uma grande participação acionária da estrategicamente importante Norilsk vá parar nas mãos de bancos estrangeiros, disseram analistas. Igor Shuvalov, o primeiro vice-primeiro-ministro, disse nesta semana que acredita que os bancos estrangeiros prorrogarão o empréstimo, dando tempo para que a ajuda do Estado seja concedida. "O que os bancos querem? Eles querem o dinheiro emprestado de volta. Se é uma questão de três semanas, então não deverá haver problema, porque receber dinheiro do VEB não é problema, mas vender 25% da Norilsk -isto sim é um problema", ele disse.

Mas a ajuda do Estado poderá vir a um alto preço. A oportunidade de controlar 25% da Norilsk pode ser tentadora demais para aqueles no governo que há anos desejam uma campeã do setor de metais e mineração sob controle estatal, disse Weafer.

Uma batalha ainda está sendo travada no governo sobre o que fazer com as ações que o VEB receberá como garantia em troca dos empréstimos de emergência. Mas mesmo com o refinanciamento pelo Estado, a Rusal poderá ter dificuldades em pagar os empréstimos junto ao governo quando vencerem. Um caso impetrado junto à Alta Corte de Londres por Michael Cherney, uma figura controversa na indústria do alumínio russa nos anos 90, envolvendo uma participação de 20% na Rusal, também ameaça a reputação do oligarca.

Deripaska já disse ao "FT" que entregaria a Rusal se o Estado lhe pedisse para fazê-lo. "Se o Estado disser que precisamos entregá-la, nós a entregaremos", ele disse. "Eu não me separo do Estado. Eu não tenho outros interesses."

Ele agora diz que falou aquilo de brincadeira. Em breve poderá deixar de ser. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos