A noção de descolamento do Brasil da montanha-russa prova ser infundada

Jonathan Wheatley

A noção antes popular de que os mercados de capital do Brasil tinham se "descolado" do restante do mundo foi arrasada nos últimos meses.

A moeda desvalorizou frente ao dólar de R$ 1,56 em maio para o pico de R$ 2,50 recentemente.

O principal índice de ações da Bovespa caiu para menos de 30 mil pontos na segunda-feira pela primeira vez em três anos; uma perda de mais de 60% em relação ao seu pico de mais de 73 mil pontos em maio. Isso o torna um dos cinco mercados com pior desempenho no mundo nos últimos seis meses.

Na terça-feira, com a perspectiva de um corte nas taxas de juros americanas fornecendo algum alívio para os mercados globais, as ações brasileiras e a moeda se valorizaram juntamente com as do restante do mundo.

"É uma montanha-russa", disse Dany Rappaport, da Investport, um administrador de fundo de São Paulo. "O movimento é todo baseado no que acontece no exterior, mais alguns fatores locais, como a queda dos preços dos commodities."

O Brasil é o principal exportador de commodities industriais e agrícolas, incluindo minério de ferro, aço, soja, açúcar e carne bovina.

Isso aparentemente não corresponde ao que poucos analistas duvidam, o fato do Brasil estar muito melhor posicionado para suportar a turbulência global do que há uma década, quando esteve à beira de um default após as crises asiática e russa terem provocado ataques contra sua moeda.

Muito mudou desde então. O governo é um credor líquido para o restante do mundo, de forma que a recente desvalorização do real reduziu o fardo da dívida soberana, em vez de elevá-la às alturas como no passado. O Brasil tem mais de US$ 200 bilhões em reservas de moeda estrangeira para se defender de ataques especulativos.

Mas as reformas que produziram esta maior resistência incluíram uma reforma dos mercados de capital do Brasil, que os deixou muito mais integrados ao restante do mundo do que antes.

Durante uma série de emissões de títulos entre 2004 e 2006, cerca de 70% do novo dinheiro veio de investidores do exterior.

À medida que a crise se desenvolvia, esses investidores correram para a saída.

Desde junho, os investidores estrangeiros retiraram cerca de R$ 23,5 bilhões da Bolsa de Valores de São Paulo.

E com cada brilho de esperança de que o pior pode ter passado, os preços se recuperam, apenas para despencar de novo.

"Todos sabem que os preços estão muito baratos e alguns poucos investidores estão ousando comprar um pouco, mas é muito difícil saber qual será o ponto mais baixo", disse Tomás Awad, estrategista da Itaú Corretora, em São Paulo.

"Os preços estão ridiculamente baixos, mas tudo ainda está apontando para baixo", disse Catarina Pedroso, estrategista da BanifInvest, outra corretora de São Paulo.

Ela cita a queda dos preços das commodities, a desaceleração do crescimento no Brasil e no mundo no próximo ano, e os temores de que centenas de empresas brasileiras sofrerão perdas pesadas com apostas na moeda que deram errado.

O governo agiu rapidamente para prevenir esses temores. Na segunda-feira, ele disse que emprestaria dinheiro a taxas de mercado para empresas incapazes de levantar financiamento em outros lugares, uma de uma série de medidas voltadas a fornecer liquidez aos mercados de crédito semelhantes às do restante do mundo.

Na terça-feira, o banco central leiloaria até US$ 1,2 bilhão em swaps de moeda, parte de até US$ 50 bilhões que disse na semana passada que seriam oferecidos para proporcionar alívio ao real em queda livre.

Entre outras medidas, uma visa permitir que os bancos públicos comprem ações de bancos privados e até mesmo partes da economia "real" como empresas do mercado imobiliário - algo proibido pela Constituição - visando injetar o capital urgentemente necessário.

O banco central também liberou mais de R$ 100 bilhões das rígidas exigências de depósito compulsório em uma tentativa de "irrigar" os mercados de crédito.

Mas por que está tão proativo?

"O governo tem tido muita sorte de muitas formas", disse Lia da Graça, outra estrategista do BanifInvest. "Ele fará tudo o que puder para manter sua credibilidade."

Mas para preocupação do governo, o sentimento do investidor está à mercê de fatores além do seu controle. George El Khouri Andolfato

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