Dilema do Fed em torno da taxa zero se aproxima

Krishna Guha

A redução da taxa de juro americana na quarta-feira, mais a expectativa de novas reduções em dezembro, coloca o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) próximo do "limite zero" - uma taxa zero para os fundos federais.

O que acontece então? Se o Fed se aproximar do zero e acreditar que precisa aliviar ainda mais a política monetária, ele começará a visar a taxa livre de risco de prazos mais longos do que um dia - por exemplo, três meses ou até mesmo dois anos.

Mas antes de fazê-lo, ele redobrará seus esforços para reduzir os spreads de risco nos mercados de crédito em conjunto com maiores estímulos fiscais. Se esses esforços forem bem-sucedidos, o banco central americano poderá não precisar visar as taxas livres de risco de prazo mais longo.

O debate sobre os próximos passos da política está estreitamente associado à avaliação do risco de deflação - a queda dos preços dos ativos e uma profunda recessão que poderia resultar da queda dos preços ao consumidor.

A inflação "headline" (cheia) pode se tornar negativa devido ao colapso dos preços dos commodities. Mas isso não incomoda o Fed. Os autores de política se concentrarão na taxa do núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia.

Larry Meyer, o presidente da Macroeconomic Advisers, disse que há um "aumento do risco de deflação" nos preços do núcleo. Entretanto, a maioria acha que o risco não é muito grande. "Um declínio geral constante nos preços é improvável", disse Richard Berner, co-chefe de economia global do Morgan Stanley.

Importantes autoridades do Fed acham que o risco de deflação permanece pequeno, já que a taxa inicial de inflação é alta, as expectativas de inflação estão firmemente ancoradas e a relação entre desemprego e inflação é fraca. Ainda assim, o risco não é zero.

Os economistas temem a deflação porque ele pressiona para cima o custo real (corrigido pela inflação) da dívida e interage com o limite zero das taxas de juros dificultando para um banco central estimular a economia. Isto ocorre porque o que importa é a taxa de juro real. Quando os preços estão caindo, o Fed -que não pode reduzir as taxas nominais abaixo de zero- não pode reduzir a taxa de juro real tanto quanto gostaria.

O Japão caiu nessa armadilha nos anos 90. Entretanto, há diferenças entre o Japão naquele momento e os Estados Unidos agora. A taxa neutra que normalmente predominaria nos Estados Unidos é mais alta, devido ao maior crescimento da produtividade, fornecendo mais espaço para o Fed reduzir o juro e estimular a economia. Entretanto, o estresse no mercado de crédito derrubou a taxa neutra bem abaixo de sua taxa normal, reduzindo enormemente este espaço para manobra.

Mark Gertler, um professor da Universidade de Nova York, disse que o Fed continuará atacando o estresse no mercado de crédito com operações de empréstimo. Se tiver sucesso, ele elevará a taxa neutra, tornando qualquer taxa de juro mais estimulante. Um estímulo fiscal adicional também elevaria a taxa neutra. Se estas táticas funcionarem, o Fed poderá não ter que se preocupar com o limite zero. Se não funcionarem, ele se voltará para a redução das taxas livres de risco além do prazo de overnight. Durante o temor de deflação em 2003, o presidente do Fed, Ben Bernanke, disse: "Eu vejo os primeiros estágios de uma campanha não-tradicional como voltados para a redução das taxas de juros de prazo mais longo".

O Fed poderia prometer manter as taxas em zero ou próximas disso por um longo período, oferecer empréstimos a prazo a taxas de juros fixas, ou comprar títulos do governo. Como ele dispõe de mais ferramentas para enxugar o excesso de reservas, ele poderia optar por visar as taxas de prazos mais longos com tarifas de curto prazo a zero ou manter uma taxa ligeiramente positiva. George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos