Obama se prepara para transição rápida

Edward Luce
Em Washington (EUA)

O segredo mais bem guardado de Washington é que Barack Obama conta com a maior e mais disciplinada equipe de transição presidencial da qual alguém consegue se lembrar. Liderada por John Podesta, ex-chefe de gabinete da Casa Branca, ela começou a trabalhar bem antes do impacto financeiro de setembro, mas desde então foi tomada pelas conseqüências da crise.

Pessoas que trabalham com a transição, e que estão seguindo ordens rígidas da campanha para que não falem com a imprensa a fim de evitar a impressão de que Obama acha que já ganhou, contrastam a equipe com aquela de Bill Clinton, em 1992, que ficava em Little Rock, no Estado de Arkansas, e que se transformou em um simpósio ampliado que lidava com todas as questões possíveis.

"A transição de Clinton só começou de fato depois que ele ganhou a eleição", afirma uma pessoa que está ajudando a equipe de transição de Obama, e que trabalhou para Clinton. "Mas a escala dos desafios enfrentados por uma administração Obama significa que é muito mais importante estar preparado desta vez do que teria sido em 1992".

Uma das principais motivações de Obama é evitar os erros atribuídos a Clinton, cujos primeiros cem dias no cargo transformaram-se em um pesadelo que demorou anos para ser superado, e que contribuiu para a vitória republicana acachapante nas eleições parlamentares de 1994.

Clinton passou as primeiras semanas da presidência selecionando um gabinete heterogêneo que "se parecesse com os Estados Unidos", o que consumiu um tempo que poderia ter sido usado para decidir as prioridades legislativas e a nomear os principais integrantes da equipe administrativa, garantindo que o governo funcionasse sem problemas.

Já Obama, que vai se deparar instantaneamente com dúvidas a respeito de como e se interagirá com a reunião de cúpula sobre a crise financeira, que George W. Bush convocou para a semana seguinte à eleição, está se concentrando nos aspectos básicos de como as coisas devem funcionar, segundo o depoimento de outra pessoa envolvida com a equipe de transição do candidato democrata.

O candidato já fez um acordo com Harry Reid, líder da maioria democrata no Senado, no sentido de apressar o processo - frequentemente muito lento - de confirmação naquela Casa das centenas de nomeados que participariam de um governo Obama. No caso de Clinton, um ano depois da sua posse havia muitos cargos ainda por serem confirmados.

Obama também conversou com os democratas "blue dog" - os defensores de uma política fiscal conservadora - sobre as potencialmente dolorosas decisões orçamentárias que ele teria que tomar bem antes da sua posse em 20 de janeiro.

"O nível de detalhamento que a equipe de transição de Obama está alcançando é extraordinário - eles estão verificando todos os detalhes", afirma uma autoridade graduada do governo Clinton que foi consultada. "Estou recebendo telefonemas que, em transições prévias, esperávamos receber talvez só em dezembro, ou mesmo nunca".

Caso seja eleito, Obama enfrentará quatro problemas imediatos de uma magnitude que eclipsa os trabalhos de transição de governos anteriores. O primeiro é quando pressionar o Congresso para a aprovação de um segundo estímulo fiscal a fim de proteger a economia, e decidir ou não pela implementação da promessa feita por Obama de investir no sistema de saúde, na energia, na educação e na infra-estrutura já neste pacote.

Em 1992, a equipe de Clinton foi consumida por uma batalha entre Bob Reich, o futuro secretário do Trabalho, que defendeu o cumprimento das promessas de campanha, e Bob Rubin, o futuro secretário do Tesouro, que argumentou pela redução do déficit. Rubin venceu. Um debate similar está ocorrendo agora dentro do grande universo de assessores de políticas de governo de Obama. "Ninguém ainda tomou decisão nenhuma quanto a nada", disse um deles.

O segundo é como implementar a promessa de Obama de uma retirada rápida das tropas do Iraque. Esta meta poderá ser complicada pelo impasse nas negociações entre Bagdá e Washington a respeito do "acordo sobre o status das forças". Robert Gates, que muitos acreditam que será solicitado por Obama a permanecer como chefe do Pentágono, fez soar um alarme de alerta quanto a essas negociações.

"Na véspera de Ano Novo o presidente eleito Obama poderia se deparar com uma situação na qual as tropas norte-americanas não pudessem sair das suas instalações por não haver base legal para a sua presença no Iraque", adverte Bill Galston, pesquisador da Brookings Institutions, que participou do trabalho de transição do governo Clinton. "Para superar todos esses cenários - crise financeira, Iraque, estímulo fiscal, etc - será necessário um grau sem precedentes de planejamento para um esforço de transição".

A terceira e a quarta decisões serão como lidar com o colapso financeiro e preparar o primeiro orçamento, que deverá ser lançado em fevereiro. Com a projeção de um déficit orçamentário de US$ 900 bilhões para o ano que vem, segundo números internos da equipe de transição, a batalha Rubin-Reich poderá voltar a ser travada em uma escala muito maior.

"Nem mesmo umas poucas semanas atrás ninguém previu o quanto seríamos afetados pela crise financeira", afirma outro participante do projeto de transição. "Isto é algo que treina as nossas mentes para determinar quais deverão ser as prioridades".

É de se esperar que Obama anuncie os nomes dos seus três ou quatro principais assessores, incluindo o chefe de gabinete, dias após a sua eleição. "Não há tempo para divagar", afirma Galston. UOL

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