Isolando os mais vulneráveis

Editorial do Financial Times

A crise financeira global levou a uma completa reavaliação do risco. Os mercados ignoraram qualquer chance de default por tanto tempo que sua reversão agora parece mais um cavalo de pau. A aversão ao risco se espalhou em cascata por todas as classes de ativos: primeiro vieram as hipotecas subprime (de risco) americanas, depois as preocupações com a liquidez e solvência dos bancos. Agora os resgates a bancos promovidos pelos governos desviaram a atenção para a solvência dos Estados.

À medida que a dívida soberana passa a ser analisada, as pequenas economias enfrentam enorme pressão. A melhor esperança delas de escapar da turbulência relativamente ilesas é fazer parte de um clube, unido por garantias explícitas ou implícitas. Por isso novos clubes estão se formando, enquanto os existentes estão vendo sua popularidade aumentar.

O Fundo Monetário Internacional está introduzindo instrumentos para tomada de empréstimo por economias emergentes bem-administradas que tropecem sem que seja por culpa própria. Segundo este instrumento, os empréstimos serão estendidos rapidamente sem condições estipuladas. Cerca de meia dúzia de países privilegiados também pode contar com instrumentos de swap fornecidos pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e pelo Banco Central Europeu. Apesar desses esforços contribuírem para acalmar os mercados, eles correm o risco de desviar atenção adversa para os países excluídos.

Enquanto isso, as moedas de várias economias européias fora da zona do euro sofreram ataque nas últimas semanas. Em meio à severa desaceleração econômica, a Dinamarca aumentou sua taxa de juro duas vezes em outubro visando defender a paridade de sua moeda com o euro. A coroa sueca sofreu desvalorização recorde frente ao euro, enquanto a Hungria precisou ser socorrida pelo FMI, pelo Banco Mundial e pela União Européia.

Os dois países escandinavos estão começando a repensar sua adesão ao euro, enquanto a surrada Islândia está pensando se ingressa primeiro na União Européia e depois adere ao euro. Os países do Leste Europeu também estão reexaminando cuidadosamente os encantos da moeda única da Europa.

Mas há riscos aí. A zona do euro parece atraente principalmente por causa da fé nos títulos soberanos alemães e franceses. Até o momento isto tem servido como guarda-chuva para os membros mais fracos da zona do euro. Mas o guarda-chuva agora tem buracos: os spreads entre os títulos de 10 anos do Tesouro da Itália e da Grécia e os da Alemanha aumentaram respectivamente para 125 e 155 pontos básicos - o mais alto desde o lançamento da moeda única em 1999.

Em uma zona de moeda única, as taxas de câmbio e os riscos de inflação se tornam riscos de crédito. No final, a cláusula no Tratado de Maastricht que especifica que nenhum país pode ser socorrido pode ser testada. O acréscimo de mais países vulneráveis tornaria isso ainda mais provável.

Os países fora das redes de segurança querem ingressar nelas. Mas os países que fazem parte delas vão querer evitar compartilhar o custo. Oferecer ajuda aos países vulneráveis é a coisa certa a ser feita. Uma rápida ampliação da zona do euro merece pensamento mais cuidadoso. Alguns países são mais iguais do que outros à medida que a crise se desloca George El Khouri Andolfato

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