Transição perigosa

Editorial do Financial Times

Aos desafios com os quais o próximo presidente dos Estados Unidos se deparará, soma-se a transição do velho para o novo governo. Não se trata de uma questão de somenos importância. Nos períodos mais favoráveis, os detalhes da passagem de poder nos Estados Unidos pareceriam estranhos aos políticos e funcionários públicos de diversos países. Mas, nas condições atuais, tais detalhes são francamente perigosos.

O novo presidente só tomará posse em 20 de janeiro, 11 semanas após a eleição. Além do mais, o sistema estadunidense exige que o executivo sofra um expurgo com uma profundidade de várias camadas hierárquicas quando um novo presidente assume o poder: não existe um serviço público permanente de funcionários graduados no estilo britânico. Esta enorme reorganização geralmente leva meses. Em alguns casos, se o Congresso reluta em cooperar, e não confirma as indicações, o processo nunca é concluído.

Um governo John McCain teria mais condições de agir sem pressa, é claro, já que funcionários republicanos já ocupam os cargos de alto escalão. Por outro lado, ele enfrentaria um congresso que daria um novo significado à expressão "relutante em cooperar". Se Barack Obama vencer na terça-feira, o que parece ser o mais provável, o novo governo poderá ver-se, durante meses, longe de ter um quadro completo, e a atenção do presidente será constantemente atraída para questões de gerenciamento pessoal, quando ela faz-se urgentemente necessária em outras áreas.

Em um momento no qual os paralelos traçados em relação à década de 1930 são bastante apropriados, é possível lembrar da paralisia que seguiu-se à eleição de Franklin Roosevelt em 1932. Ele e o seu antecessor, Herbert Hoover, discordavam profundamente a respeito de como reativar a economia. Eles perceberam que a cooperação mútua era impossível após a eleição de novembro, e Roosevelt escolheu ficar à margem dos acontecimentos até assumir a presidência no mês de março seguinte. Em um momento crítico, quando uma direção clara era desesperadamente necessária, o país ficou à deriva. Como resultado, a economia afundou ainda mais, e de forma mais acelerada, e o resto daquela década terrível foi uma calamidade pior do que precisaria ter sido.

No decorrer de uma campanha notavelmente bem conduzida, Obama demonstrou que é um ótimo gerente político. Ele também revelou bom gosto na escolha dos seus assessores, favorecendo em todas as ocasiões a experiência e a competência - algo que não pode ser dito a respeito de George W. Bush. Além do mais, apesar do amargor contido nas críticas democratas ao governo anterior, existe muito menos desacordo em relação ao curso de ação imediata quanto à economia do que havia em 1932 e 1933. Caso Obama vença, tudo isso é reconfortante.

Após a eleição, o presidente eleito, o Congresso e Bush precisam deixar de lado as querelas e trabalhar juntos. O novo presidente ficará tentado a agir sem pressa na montagem de um novo governo. Mas o país não tem como agüentar uma pausa, e muito menos um impasse furioso. Em breve será necessário um segundo estímulo fiscal. O primeiro teste do novo governo, e o último teste do antigo, ocorrerá na próxima semana, quando ambos precisarão encontrar uma forma de trabalhar juntos. A passagem do poder presidencial em Washington é um momento arriscado para os Estados Unidos e o mundo UOL

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