Wolf: por que um novo acordo de Bretton Woods é vital e tão difícil

Martin Wolf

Nós chegamos ao ponto na crise em que líderes ambiciosos pedem por um "novo Bretton Woods". É fácil zombar dessa linguagem. Mas é fácil entender por que esta crise deve fazer as pessoas pensarem nesses termos heróicos.

Primeiro, a economia mundial fechou seu círculo, com uma imensa crise financeira emanando a partir dos Estados Unidos, então ainda a potência financeira mundial dominante. A Grande Depressão dos anos 30 foi acompanhada - e agravada - pelos fracassos de cooperação econômica, desintegração da economia global e nacionalismo ressurgente. Mas também levou a uma revolução no pensamento econômico. "Nunca de novo" era a meta dos negociadores em Bretton Woods, New Hampshire. Atolados na pior crise financeira desde os anos 30, nós temos bons motivos para dizer o mesmo.

Segundo, é desnecessário esperar por tempos mais tranqüilos para repensar as coisas. A conferência de Bretton Woods culminou em julho de 1944, enquanto a Segunda Guerra Mundial estava longe de encerrada. Se eles podiam travar uma guerra e redesenhar a economia global ao mesmo tempo, nós podemos enfrentar uma crise e redesenhar as instituições globais simultaneamente.

Terceiro, o sistema financeiro global atual é disfuncional. O que está em jogo na reforma é a manutenção da economia mundial aberta que oferece oportunidade para tantos. Também está em jogo a cooperação sustentada entre os Estados. Nada é menos provável do que uma cooperação eficaz entre Estados voltados para si mesmos presidindo sobre sociedades assustadas, até mesmo xenofóbicas.

Finalmente, o que está acontecendo se encontra na intersecção entre a macroeconomia global - moeda, taxa de câmbio e balança de pagamentos- e as finanças globais: fluxo de capital, fragilidade financeira e contágio. O imperativo da cooperação permanece. Mas como Robert Zoellick, o presidente do Banco Mundial, disse em 6 de outubro: "Nós devemos modernizar o multilateralismo e os mercados para uma economia mundial em mutação".

E como isso deve ser feito? Nós devemos começar pelos desafios apresentados.

O primeiro é a inabilidade de sustentar a demanda com imensos e persistentes superávits em conta corrente. Esta foi a preocupação dominante de John Maynard Keynes em 1944. Ironicamente, o problema na época eram os superávits americanos. Hoje, é o colapso na capacidade dos lares americanos e de alguns poucos países ricos em compensar os vastos superávits em conta corrente gerados pela China, Alemanha, Japão e países exportadores de petróleo. Os países com superávit adoram criticar aqueles que gastam o que desejam emprestar. Os primeiros em breve descobrirão que não podem se manter sem a gastança dos últimos.

O segundo envolve os países financeiros sujeitos a "interrupções repentinas" no afluxo de capital do tipo que estamos vendo, à medida que bancos e outros emprestadores de moeda estrangeira cortam o financiamento para uma variedade de emprestadores, particularmente nos países emergentes. Muitos destes últimos fizeram um esforço imenso e caro para reduzir a vulnerabilidade acumulando reservas de moeda estrangeira. Em agosto deste ano, o total de reservas de moeda estrangeira dos países emergentes atingiu US$ 5,5 trilhão, tornando minúsculos os US$ 260 bilhões disponíveis ao Fundo Monetário Internacional. Mas este seguro próprio é ineficiente e, como provado, distribuído de forma desigual.

O terceiro desafio é o de tornar o sistema financeiro menos instável e, acima de tudo, menos vulnerável às imensas oscilações no apetite de risco - de financiar tudo, por mais ridículo que seja, a não financiar nada, por mais meritório que seja. No momento, além disso, como apontou Stephen King do HSBC no fórum de economistas do "FT", os esforços dos governos para forçar os bancos resgatados a financiarem os tomadores de empréstimo domésticos ocorrerão às custas de seus empréstimos aos países emergentes.

O último desafio é o de tornar a arquitetura institucional global menos ilegítima do que hoje. As instituições de Bretton Woods -o FMI e o Banco Mundial- são dominadas pelas potências ocidentais: no caso do Fundo, os Estados Unidos ainda possuíam 17,1% das cotas (o que em grande parte determina as votações) e a União Européia outros 32,4% em maio de 2007. Enquanto isso, a China tinha apenas 3,7% e a Índia 1,9%. Isso é uma anomalia. Assim como a persistência do grupo dos sete países ricos como grupo de coordenação da economia mundial, particularmente quando três deles -Alemanha, França e Itália- não possuem moedas independentes. O grupo dos 20, cujo encontro de cúpula ocorrerá em Washington em 15 de novembro, parece grande demais. Zoellick sugere um G14, que acrescentaria África do Sul, Arábia Saudita, Brasil, China, Índia, México e Rússia.

O que é interessante nesta agenda é quão familiar ela se parece com os participantes de Bretton Woods, com uma exceção. Keynes estaria horrorizado com o fato do mundo ter deixado o gênio do capital livre escapar da garrafa. Esse, ele notaria, é o motivo para um maior financiamento externo ser mais necessário do que nunca, para vastas reservas de moeda estrangeira terem sido acumuladas e para as crises financeiras serem novamente globais, e não locais. Ele acrescentaria que um "banqueiro são, a propósito, não é aquele que prevê o risco e o evita, mas aquele que, quando arruinado, está arruinado de forma convencional e ortodoxa juntamente com seus companheiros, para que ninguém realmente possa culpá-lo". Nós temos demais desses banqueiros. Ele certamente acrescentaria que essas instituições subcapitalizadas e sem liquidez são como bombas-relógio financeiras.

Mas algo útil pode ser feito para tratar desses desafios? Certamente é possível -e na verdade necessário- mudar a arquitetura global, especialmente em resposta à mudança dos pesos econômicos. É igualmente necessário dar ao FMI mais recursos financeiros para apoiar seu novo instrumento de empréstimo de curto prazo. Mas certamente é otimismo demais acreditar que o Fundo algum dia será capaz de fornecer alertas confiáveis de crises iminentes. Mesmo se conseguir, é ainda menos provável que os países que importam façam algo em resposta.

Também não sou otimista de que conseguiremos cortar os elos que ligam a atividade bancária como serviço público enfadonho prestando serviços essenciais à economia da atividade bancária como cassino oferecendo oportunidades para apostas imensas. Foi dado aos banqueiros licença para apostar com o dinheiro dos contribuintes. Este é um setor de atividade maravilhoso no qual estar. Também é um que parecemos incapazes de submeter.

Mas eu desejo estar errado. Eu espero que o encontro de cúpula do G20 estabeleça a agenda para uma reforma séria, ao criar grupos de trabalho que provem ser capazes de produzir propostas radicais e eficazes. Pois o que está acontecendo agora pode muito bem ser a última chance para uma economia mundial aberta e dinâmica. Primeiro, nós temos que superar a crise atual. Então temos que reduzir a probabilidade de ocorrência desses colapsos financeiros catastróficos. Se não nós, quem? E se não agora, quando? George El Khouri Andolfato

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