A vitória histórica de Barack Obama

Editorial do Financial Times

Ele deve lembrar ao seu partido que é presidente de todo o país

A vitória de Barack Obama é notável e inspiradora. Os Estados Unidos elegeram seu primeiro presidente negro - um homem cujas chances até mesmo de conquistar a indicação por seu partido pareciam pequenas há dois anos. Se há momentos em que a história dá uma guinada, este é um.

Seu triunfo não foi por acaso. A presidência não caiu no colo de Obama. Ele e sua equipe planejaram e executaram uma campanha audaciosa e impecável, visando não apenas partes do eleitorado ou regiões do país, mas a nação como um todo. Em Hillary Clinton e John McCain, ele teve que derrotar dois rivais formidáveis. Para conseguir isso, ele reescreveu o manual de campanha, arrecadando somas impressionantes em pequenas doações. E o maior ativo de sua equipe era o próprio candidato, um homem cuja calma e temperamento firme tornaram reconfortante sua mensagem de mudança. Desafiar e tranqüilizar ao mesmo tempo exige talento político da mais alta ordem. Obama é um político que surge apenas uma vez a cada geração.

Mesmo o mais saturado observador deve sentir que teve início um novo capítulo na história americana. Momentos de virada históricos anteriores se apresentam para comparação. Será Obama outro Franklin Roosevelt, pronto para embarcar em uma reforma radical do tecido político e social do país? Ou seria, por mais estranho que o paralelo possa parecer, mais como Ronald Reagan, inspirador, mas não tão revolucionário, um homem com idéias, mas também capaz de unir politicamente?

Até onde alguém pode julgar, as esperanças do país se devem mais às qualidades únicas de Obama, e às circunstâncias difíceis diante dele, do que qualquer mudança radical naquilo que o país deseja. Assim que a celebração após esta eleição extraordinária acabar, há um alerta aguardando para o governo em espera de Obama.

O presidente eleito obteve uma vitória impressionante no colégio eleitoral, e segundo os padrões de seus antecessores democratas, uma margem impressionante de apoio, 52% contra 47%, no voto popular. Graças a Obama, os democratas desfrutarão de maiorias significativamente mais fortes em ambas as casas do Congresso, mesmo que não consigam as 60 cadeiras no Senado necessárias para superar uma obstrução. Será argumentado que esta conquista democrata tanto da Casa Branca quanto do Congresso seja um mandato para mudanças abrangentes. Obama precisa pesar este argumento com muito cuidado.

Ele certamente não é um político do status quo. Sua proposta de política doméstica mais importante - uma reforma abrangente do sistema de saúde americano - é ambiciosa, e uma na qual o país não desejaria vê-lo recuar. Mas ele precisa lembrar que em um ano em que todas as forças, incluindo seu apelo magnético, se alinharam em apoio à vitória democrata, cerca de metade do eleitorado votou em McCain. É seguro dizer que o próximo Congresso, disposto a aproveitar uma rara oportunidade, desejará governar como se essa metade do eleitorado não existisse. O maior desafio de Obama - e ele está diante de muitos - será lembrar ao seu próprio partido que ele é presidente de todo o país.

Os republicanos agora estão contando com uma reprise de 92-94, após Bill Clinton ter liderado os democratas a uma vitória comparável a de Obama. Os democratas exageraram, visando governar como se o país tivesse se tornado solidamente democrata. Os eleitores se rebelaram, o partido perdeu seu controle do Congresso e nas eleições de meio de mandato seguintes, Clinton foi obrigado a governar quase como se fosse um conservador. Muito foi conseguido posteriormente - mas o maior prêmio, a reforma da saúde, caiu vítima do excesso de confiança daqueles dois primeiros anos.

Não é que os democratas não estejam cientes deste risco. Esta experiência amarga está queimada em sua memória coletiva. Muitos no partido prometem que não haverá repetição. Mas a exuberância provocada pelo triunfo de Obama será uma força que terá que ser enfrentada. Alguns democratas já falam como se todos os americanos tivessem repudiado não apenas o governo Bush, mas também os valores políticos de centro-direita que colocaram George W. Bush (duas vezes) na Casa Branca. Este é o caminho mais certo para a desilusão e decepção.

Obama parece entender. Ele fez uma campanha de apelo ao centro, prometendo, entre outras coisas, reduções de impostos para quase todos os lares americanos. Por causa do apelo amplo cuidadosamente nutrido, ele começa com um enorme estoque de capital político e boa vontade de grande parte da nação. Ele deve buscar conservar ambos. Para lidar com a enorme crise econômica e os muitos outros desafios diante dele - sem mencionar ter sucesso onde Clinton fracassou, na reforma da saúde - ele precisará de tudo isso e mais. Nós o parabenizamos e lhe desejamos sucesso. George El Khouri Andolfato

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