Análise: Podemos crescer de novo?

Com reduções profundas das taxas de juros, alimentos e petróleo mais baratos e o fator político positivo americano, uma recuperação antecipada é possível. Mas primeiro virá a dor, como escrevem Chris Giles, Krishna Guha e Ralph Atkins

Invocando novamente "o credo eterno que resume o espírito de uma pessoa: sim, nós podemos", Barack Obama resumiu em seu discurso de aceitação da vitória, nesta semana, sua mensagem de esperança para uma América admirada e um mundo cheio de entusiasmo.

Mas será que esse espírito pode erguer a economia americana ou mundial? Seriam políticos, políticas ou forças naturais capazes de dar início à recuperação após o recente mergulho em parafuso? Ou o presidente eleito está destinado a repetir a sorte de seu antecessor, suportando uma recessão em seu primeiro ano de mandato, assistindo ao mundo afundar também e vendo a volta daquele cinismo e dúvida que, nesta semana, ele afastou?

A base para a esperança descansa sobre duas forças poderosas, atualmente sendo lançadas sobre a economia mundial. A primeira, a de que os políticos e as políticas impedirão que a recessão se transforme em depressão. A segunda, a de que o declínio nos preços das commodities será tão influente na melhora a renda e o consumo nas economias avançadas quanto seu aumento provocou um ciclo vicioso de fraqueza, que colocou pressão adicional sobre um sistema financeiro já estressado.

Jim O'Neill, economista do Goldman Sachs, está cautelosamente otimista em relação a ambos. "Por causa da situação ter ficado tão ruim, os autores de política superaram sua obsessão com o risco moral (no socorro aos bancos) (...) e estou razoavelmente esperançoso de que o mundo apenas flertará com uma recessão por um ou dois trimestres."

Mas as nuvens escuras que envolveram o mundo nos últimos dois meses permanecem. Após a falência do Lehman Brothers, o sistema financeiro mundial começou a implodir, criando uma desaceleração econômica sincronizada que o Fundo Monetário Internacional prevê que se espalhará por todas as principais economias.

Os números desta semana foram novamente terríveis. Os índices dos gerentes de compras para outubro - nos Estados Unidos, zona do euro e Reino Unido, e tanto para o setor de serviços quanto manufatureiro- foram Žpéssimos, geralmente caindo aos níveis mais baixos desde que o levantamento teve início no final dos anos 90 ou, no caso do índice manufatureiro americano, ao pior resultado em 26 anos.

Dados dramáticos como esses levam economistas a rasgar suas previsões de curto prazo quase semanalmente. A média de previsões do Consenso Econômico para 2009 está se deteriorando constantemente ao longo deste ano e caiu ainda mais em outubro. A atualização extraordinária do FMI na quinta-feira mostrou outra queda nas expectativas.

O FMI notou que desde sua previsão no mês passado, "a desalavancagem do setor financeiro prossegue e caiu a confiança do produtor e do consumidor". Ele agora espera ver em 2009 a primeira retração de ano inteiro por todas as economias avançadas desde a Depressão dos anos 30.

Com estas forças de contração, a esperança tem uma batalha e tanto em suas mãos. O resultado eleitoral americano apresenta um possível apoio ao otimismo graças à reação positiva nos Estados Unidos e no exterior à vitória de Obama. "A visão de um novo presidente jovem se engajando de forma articulada com outros líderes mundiais na próxima semana, em Washington, pode ser a fagulha para reacender o otimismo pelo qual os americanos são amplamente conhecidos e admirados", disse DeAnne Julius, chefe da Chatham House, um instituto de assuntos internacionais com sede em Londres, se referindo ao encontro do Grupo dos 20 países industrializados e em desenvolvimento, em 15 de novembro.

Mais que isso, Obama pode ter a capacidade de se dirigir aos consumidores americanos temerosos, explicar as medidas adotadas para tratar da crise, persuadi-los a ser pacientes enquanto as medidas entram em vigor e, assim, aumentar a confiança deles. Marco Annunziata, economista-chefe do Unicredit, argumenta que o resultado eleitoral poderia ter efeitos potencialmente significativos sobre a economia real se ajudasse a melhorar o sentimento do consumidor americano. "Nós estamos em um mundo onde o consumidor americano ainda é o principal motor de crescimento (...) Este é um evento histórico que claramente pode dar confiança aos consumidores americanos." Os efeitos poderiam ser rapidamente transmitidos para a Europa.

Mas o fator "de bem com a vida" pode provar ser fugaz, dada a magnitude dos problemas econômicos diante do próximo presidente. Um limite natural à esperança virá na forma do desemprego americano, que deverá subir de 6,1% para 7,5% nos próximos meses. Aumentos são esperados de 7,5% para 8,4% na zona do euro e da 5,7% para 7,1% no Reino Unido.

Nos Estados Unidos e no Reino Unido, a crise já se transformou de financeira para econômica. Há clara evidência de que os consumidores estão finalmente cedendo sob a tensão da perda de poder aquisitivo, negação de crédito e aumento do desemprego. A maioria dos economistas diz que as economias avançadas já estão nos estágios iniciais de uma recessão que será pior do que a sofrida nos primeiros anos desta década. Os autores de políticas buscaram compensar a tendência de desaceleração com uma séria de medidas dramáticas que deram aos governos um controle significativo dos bancos, colocaram os bancos centrais no centro da intermediação financeira e reduziram o preço do dinheiro.

Essas ações visam assegurar que as economias evitem uma queda. A drástica redução de 1,5 ponto percentual na taxa de juro pelo Banco da Inglaterra, na quinta-feira, juntamente com uma redução de 0,5 ponto percentual pelo Banco Central Europeu (BCE), são apenas parte de uma série de medidas extraordinárias tomadas desde meados do ano.

De forma encorajadora, as medidas em ambos os lados do Atlântico tiveram algum efeito. Os spreads do swap de crédito para grupos financeiros despencaram, indicando uma redução do temor de que deixarão de pagar, e há um lento mas constante alívio na tensão no mercado de dinheiro. O processo é lento e os spreads no mercado de dinheiro permanecem muito mais altos do que estavam no início de setembro, antes do colapso do Lehman, mas a direção da mudança tem se mantido consistente.

Os autores de políticas esperam que o ritmo da melhoria possa agora acelerar. Eles dizem que foi necessário tempo para que os agentes do mercado entendessem a série de políticas de intervenção e garantias. Todavia, de uma forma mais ampla, todos os bancos centrais do mundo foram mais bem-sucedidos em se tornarem intermediários financeiros e substituindo o mercado de financiamento bancário do que em fazê-lo funcionar. Esta estratégia apresenta limites óbvios.

Mesmo as respostas agressivas em andamento podem não ser adequadas. Nos Estados Unidos, as injeções de capital salvaram o sistema bancário, mas o grande setor financeiro não-bancário do país ainda corre risco de colapso. Além disso, em todos os países o novo temor é de que a política monetária não será tão eficaz quanto o habitual para estimular a demanda. Stuart Green, economista do HSBC, disse: "O ponto óbvio de referência é o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) reduzindo os juros, o que parece não estar tendo um efeito perceptível sobre a economia".

A política fiscal é, provavelmente, a próxima opção a ser tentada, com reduções de impostos pelo menos nos Estados Unidos, em algumas partes da Europa e da Ásia. Obama, com seu forte mandato e aumento da maioria democrata no Congresso, está bem posicionado para reduzir os impostos e tentar reduzir as execuções hipotecárias. Algo semelhante, porém mais limitado, é esperado neste mês no Reino Unido, onde Alistair Darling, o ministro das Finanças, está tentando promover os gastos públicos planejados e aumentar as deduções no imposto de renda.

Também cresce a evidência nesta semana de que a China está se preparando para um estímulo fiscal significativo, com a mídia doméstica indicando que próximo de US$ 500 bilhões em gastos adicionais estão sendo planejados em infra-estrutura e na reconstrução das áreas destruídas pelo terremoto de maio em Sichuan.

Finalmente, os líderes europeus também estão empolgados com o encontro do G20 da próxima semana. Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, disse na quinta-feira que o encontro de cúpula em Washington buscará aumentar a transparência e evitar o imediatismo, promovendo "mais disciplina nas macropolíticas para todos os grandes participantes na economia global". Poucos, particularmente nos Estados Unidos, acham que o encontro terá muito peso sobre as perspectivas econômicas atuais.

As políticas ajudam apenas após algum tempo, quando ajudam. Mas ainda pode ocorrer uma mudança natural na sorte econômica, como aconteceu após setembro de 2001, quando o pessimismo extremo após os ataques terroristas nos Estados Unidos foram substituídos pelo entendimento de que o mundo não tinha mudado completamente.

Porém, mais provavelmente, se uma recuperação dessas ocorrer será por causa dos alimentos e energia mais baratos. Os consumidores alemães sensíveis à inflação reduziram seus gastos quando os preços do petróleo subiram. Agora, alguns efeitos benéficos parecem estar despontando. A empresa de pesquisa GfK espera que seu índice de "sentimento do consumidor" alemão subirá neste mês por conta da redução dos índices de inflação.

O'Neill, da Goldman, disse que estes ganhos no poder aquisitivo real dos lares será poderoso no estímulo dos gastos no próximo ano, em particular na Europa e na Ásia, onde os consumidores não estão altamente endividados. Os preços mais baixos do petróleo, um euro mais fraco e taxas de juros européias mais baixas, todos contribuem para uma maior esperança, segundo Annunziata do Unicredit, mas ele disse que levará "vários meses" até que os efeitos sejam sentidos.

Alguns economistas alertam que os efeitos positivos devem ser compensados pelo impulso contrário criado pelo desemprego. "Sim, o sentimento do consumidor é melhor diante da perspectiva de inflação e isso poderia melhorar seu poder aquisitivo, mas isso ocorre em um momento em que os temores com o mercado de trabalho estão aumentando", disse Jacques Cailloux, do Banco Real da Escócia.

Este é o grande fator desconhecido. Existem motivos para esperança na economia mundial, mas também há motivos para medo. O grande risco é o de que uma desaceleração econômica global severa crie uma segunda onda imensa de perda de crédito pelo consumidor e de empréstimos corporativos, o que devastaria ainda mais as bases de capital abaladas dos bancos e outras instituições financeiras. Isso poderia intensificar o arrocho de crédito e poderia exigir novamente grandes injeções de capital por parte dos governos do mundo.

Neste ano, o medo era de que o tempo dos bancos se esgotaria para reparo dos estragos causados pela crise inicial das hipotecas subprime (de risco) antes da chegada de uma desaceleração econômica. Aquele medo se justificou e seis meses de dor agora são inevitáveis. A preocupação para o próximo ano é de que as poderosas forças naturais e induzidas pelas políticas visando aumentar a esperança não chegarão antes que a recessão inevitável desfira um golpe adicional contra o sistema financeiro. George El Khouri Andolfato

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