Crimes com armas arruínam as vidas de favelados de Caracas

Benedict Mander

Quando a polícia realizou uma batida em uma fábrica de balas clandestina, escondida dentro de uma das enormes favelas sem lei de Caracas, ela ficou estupefata com o tamanho da operação.

A decrépita fábrica de munição em Petare, um bairro na periferia da capital freqüentemente considerado o maior da América Latina, foi encontrada abarrotada de lingotes de chumbo, tornos mecânicos e moldes usados para produzir 2 mil balas de vários calibres por dia.

"As pessoas passam e compram uma caixa de balas como se estivessem comprando algo na farmácia local", disse o inspetor chefe Wilmer Flores Trosel, que supervisionou a batida.

Flores, que recentemente assumiu o comando da polícia metropolitana de Caracas, enfrenta uma dura tarefa.

Apesar do índice nacional de homicídios ter atingido 48 assassinatos por 100 mil habitantes em 2007 -representando um salto de 67% desde que Hugo Chávez foi eleito presidente há uma década- em Caracas o índice é de 130 por 100 mil, segundo números oficiais. O índice nos Estados Unidos paira em seis e no Reino Unido é de cerca de dois.

"Há uma guerra civil em andamento aqui", disse Jesus Torrealba, um ativista nas favelas de Caracas que é um crítico do governo.

"Mas por ser uma guerra de baixa intensidade, em que 50 pessoas morrem em um fim de semana em Caracas, o mundo não quer saber a respeito -diferente, digamos, de quando um carro-bomba mata o mesmo número de pessoas em Fallujah."

A Venezuela não está sozinha: o índice médio de homicídios na região é quatro vezes maior do que a média mundial, segundo um recente relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Mas a Venezuela é um dos piores. Desde 2004, sua taxa de homicídios tem ultrapassado até mesmo a da vizinha Colômbia, que está atolada há décadas em um conflito envolvendo guerrilheiros insurgentes, esquadrões da morte paramilitares e cartéis das drogas impiedosos.

Uma recente pesquisa realizada pela empresa Datanalisis, com sede em Caracas, apontou que 54% consideram a insegurança pessoal e o aumento da delinqüência como o principal problema da Venezuela. A inflação ficou em um distante segundo lugar, com apenas 13% a considerando a preocupação mais urgente do país.

Mas a violência até o momento teve um impacto limitado sobre a popularidade de Chávez, que será testada nas eleições regionais em duas semanas.

Apesar da insegurança estar consistentemente no topo das pesquisas sobre as preocupações dos cidadãos nos últimos três anos, durante o mesmo período a popularidade de Chávez tem oscilado enormemente. Ela caiu de 70% em 2006 para 46% no início deste ano, mas já subiu para 57%, segundo a Datanalisis, indicando pouca correlação entre o problema do aumento da criminalidade e a popularidade do presidente.

"As pessoas não culpam o presidente por isso", disse Luis Vicente Leon, um diretor da Datanalisis.

Outros problemas como o custo de vida alto e em ascensão, o desemprego e a escassez de itens básicos -o café é o mais recente item a desaparecer das prateleiras dos supermercados- provavelmente terão um maior impacto sobre o resultado eleitoral em 23 de novembro, argumentou Leon.

Os especialistas apontam vários motivos para a situação da Venezuela. No alto da lista está o fato de mais de 6 milhões de armas circularem entre uma população de cerca de 27 milhões, com cerca de 4,5 milhões delas ilegais, segundo estimativas oficiais. O aumento do vício e tráfico de drogas combinado com as guerras brutais entre gangues exacerbaram o banho de sangue. Enquanto isso, uma força policial corrupta e ineficaz até o momento tem feito muito pouco para resolver o problema, contribuindo para um clima geral de impunidade.

Flores argumenta que a criminalidade armada é um problema herdado que começou a se tornar sério nos anos 80.

"Não dá para mudar um país em apenas 10 anos, após 40 anos de desgoverno." George El Khouri Andolfato

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