Casas Bahia sentem-se em casa na favela

Jonathan Wheatley

A música ao vivo é do grupo Exaltasamba, e, ao estrondar a sua voz nas pilhas de auto-falantes, o cantor faz com que as centenas de pessoas em frente à loja dancem, pulem e agitem os braços como se não houvesse um amanhã.

São 9h30, e o show foi organizado para a inauguração de uma nova unidade, em São Paulo, das Casas Bahia, uma rede varejista brasileira que vende móveis e eletrodomésticos.

A loja é uma das 550 da rede no Brasil e a primeira a ser inaugurada em uma favela - grandes aglomerados de barracos que surgem onde quer que haja algum espaço em torno das cidades do país.

"Os caminhões de entrega das Casa Bahia vão e vem todos os dias da semana", diz Carlos de Assis Silva, um cliente. Ele comprou a sua televisão, a maior parte da mobília e até uma serra de cortar pedras para o seu trabalho naquela que antes era a Casas Bahia mais próxima, no bairro de baixa classe média de Santo Amaro, que fica a cerca de meia hora de ônibus.

As Casas Bahia prosperam com pessoas como Silva. Embora os seus produtos não sejam mais baratos do que aqueles vendidos por muitas outras lojas que têm como alvo clientes mais ricos, ela é altamente popular entre os pobres porque permite que paguem em pequenas prestações - e com taxas de juros pesadas, que ficam, em média, em 4,5% ao mês, ou cerca de 70% ao ano. Os clientes recebem um carnê de pagamento e têm de ir até à loja para pagar as prestações. Isto faz com que eles continuem voltando e, geralmente, comprando - a menos que façam parte do grupo de 10% que atrasa os pagamentos.

A menção à crise econômica provoca sorrisos entre os consumidores que entram em grande quantidade quando as portas da loja se abrem. As Casas Bahia não preveêm nenhuma queda imediata das vendas. A rede espera que as vendas subam dos R$ 13 bilhões (? 4,5 bilhões, US$ 5,6 bilhões, £ 3,8 bilhões) registrados no ano passado para R$ 14 bilhões neste ano. A rede investiu R$ 2 milhões para abrir a nova loja. Outras 30 serão inauguradas no ano que vem, incluindo outras em favelas.

Silva mora em frente à loja, do outro lado da rua, de forma que agora poderá pagar as prestações restantes com mais facilidade. Ele é uma das 80 mil pessoas que moram em Paraisópolis, uma das maiores favelas brasileiras. O gerente da nova loja diz que 3.000 pessoas inscreveram-se para as 50 vagas de trabalho oferecidas. Destas, 50 - na verdade, todas, exceto as de gerência - foram preenchidas por moradores locais.

Isso será importante para construir um bom relacionamento com a comunidade. Em sua maioria as favelas são áreas terminantemente proibidas para gente de fora, sendo dominadas freqüentemente por traficantes de drogas e outros criminosos.

Paraisópolis não é muito diferente. Nos últimos anos, muitas áreas da favela passaram a contar com água encanada e rede de esgoto. As casas são vendidas por quantias que variam entre R$15 mil e R$ 400 mil, o que significa que muitos dos seus habitantes encaixam-se na crescente classe média brasileira.

Um jovem na multidão, que admite alegremente estar "ligado ao Paralelo" (o PCC, a organização criminosa que por um curto período de 2006 aterrorizou São Paulo com bombas e tiros), explica como o papel do crime organizado mudou nos últimos anos.

"Na década de 1990, quem tivesse negócios aqui tinha que pagar", explica ele. A favela era dominada por uma família do nordeste do Brasil. Eles extorquiam R$ 15 mil por ano, por exemplo, de quem tivesse um serviço de transporte com microônibus entre a favela e outras partes da cidade.

Na virada da década, o PCC entrou em cena. "Eles só ganham dinheiro com drogas", diz o jovem - embora nesta semana o PCC tenha também roubado bancos e explodido um posto policial, roubando drogas e armas. O PCC mantém-se popular por distribuir comida gratuitamente.

No dia nacional das crianças, no mês passado, a organização forneceu 12 mil brinquedos. "A extorsão não faz parte da filosofia do grupo. Se você quiser montar um negócio aqui, tudo bem", explica o homem. Os criminosos são menos tolerantes em relação aos ex-chefes de quadrilhas da área. Os poucos que sobreviveram à chegada do PCC fugiram rapidamente.

Como os negócios podem funcionar sem serem incomodados, várias outras redes preparam-se para juntar-se às Casas Bahia. Quem também estava na inauguração era Fauze Fares, cujo primo é dono de uma rede rival, especializada em móveis - uma das várias que procuram locais para se instalar em Paraisópolis.

"Nos últimos seis anos essas lojas têm se deslocado para além dos centros tradicionais da cidade, rumo às partes mais pobres", diz ele. "Esses indivíduos são grandes consumidores".

Silva afirma que o seu salário mensal fica geralmente entre R$ 1.800 e R$ 2.200. Muitos moradores locais trabalham em outras regiões em empregos de baixa qualificação, mas, segundo ele, outros abriram negócios em Paraisópolis, tornaram-se ricos e, ou mudaram-se ou construíram casas maiores na favela.

"As Casas Bahia demonstraram grande esperteza ao inaugurar uma loja aqui", diz Tânia Ribeiro de Barros, uma professora de inglês que faz trabalho voluntário em Paraisópolis. "Os moradores locais compram bastante, mas muitos não pagam. Agora a loja poderá vigiar mais de perto quem não paga as prestações". UOL

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