Crise força convidados orientais a unirem-se ao G20

Daniel Dombey
Em Washington (EUA)

Enquanto os líderes mundiais se reúnem para a reunião de cúpula deste final de semana sobre a crise financeira, uma mensagem salta aos olhos: o poder e está mudando para o Oriente.

A União Européia, na pessoa do presidente francês Nicolas Sarkozy, empurrou o presidente George W. Bush a convocar a reunião de cúpula - mas também reconheceu que, nas atuais circunstâncias, a antiga lista de convidados seria inadequada.

É por isso que a reunião envolve o grupo G20, das economias industrializadas e emergentes, incluindo a China e a Índia, e não os sete países que formaram um clube fechado por mais de três décadas.

Além disso, com poucos meses depois da guerra da Rússia com a Geórgia, que trouxe um esfriamento das relações entre Washington e Moscou, o presidente russo Dmitry Medvedev será recebido na Casa Branca.

Em termos mais gerais, a reunião refletirá uma das novas realidades mundiais: a influência crescente de países como a China, Arábia Saudita e Coréia do Sul, detentores de centenas de bilhões de dólares da dívida americana.

"A crise econômica forçou uma união", disse o ministro de relações exteriores da França, Bernard Kouchner, em uma reunião com jornalistas em Washington.

"Mesmo que seja impossível chegar a uma decisão no G20, será o início de um processo. Temos que transformar o G8 até que seja G14, incluindo a China, a Índia e o Brasil em particular. É ridículo não envolver metade da população mundial."

Uma autoridade brasileira disse: "No que concerne o G8, como um grupo que assume a liderança nas questões importantes do mundo, talvez seu tempo tenha passado". Ressaltando a necessidade de redistribuição do poder no Fundo Monetário Internacional e no influente Fórum de Estabilidade Financeira, ele acrescentou: "Se formos capazes de reunir um grupo de países que são mais representativos da economia do mundo, será muito melhor."

Outros países - tais como Alemanha, Japão e Rússia - resistem à expansão dos G8 para além da atual prática de convidar o Brasil, África do Sul, China, Índia e México para participarem do segundo dia da reunião de cúpula anual do G8.

Entretanto, dada a natureza da crise financeira, as autoridades francesas exortaram seus colegas americanos a estenderem o convite para este final semana para a Rússia, que foi economicamente atingida pela crise. A China foi um agente ainda mais importante por seu crescente papel econômico e financeiro. Espanha e Holanda induziram Sarkozy, em sua capacidade de detentor da presidência rotativa da União Européia, a convidá-las também.

"Quando você reúne esses países, não é porque você quer todos os vinte países, e sim porque quer países maiores que não fazem parte do G8", disse Steve Clemons, da Fundação Nova América, um grupo de estudos em Washington.

"Você está tentando superar alguns dos anacronismos do atual sistema. A questão é como levar os detentores de bônus (países que têm títulos da dívida americana) para dentro do sistema para que se tornem acionistas".

Em um sinal das ambições de alguns dos participantes, os líderes do Brasil, Rússia, Índia e China provavelmente terão uma reunião própria, dizem as autoridades. A reunião "poderá inaugurar um G20 ou um G25", disse uma autoridade americana, que acrescentou: "A preocupação é que o grupo seja grande demais para ter resultados... não podemos cair de volta do protecionismo ou desviar nossos esforços para discussões sobre diferenças estreitas."

Ainda assim, a amplitude de tais desacordos será limitada pela velocidade na qual a reunião deve ocorrer. As duas sessões formais plenárias estão marcadas para durar apenas quatro horas amanhã de manhã e estarão cercadas por um jantar na noite anterior e um almoço na tarde seguinte. Esse é outra razão por que o simbolismo pode ser importante como substância durante os eventos deste final de semana.

China permite que Sarkozy e Lula assumam as manchetes
A China tem minimizado a significância da reunião do G20, que, segundo as autoridades, será mais para forjar um consenso sobre princípios amplos do que para decidir sobre reformas concretas.

As autoridades chinesas também sugeriram que não vão usar a reunião para afirmar um papel de liderança maior em questões financeiras globais. "Ficamos contentes em deixar Sarkozy e Lula nas manchetes", disse uma autoridade, referindo-se se aos presidentes da França e do Brasil.

Além de uma relutância tradicional em assumir um papel de alta visibilidade em tais eventos, a China não tem opiniões detalhadas sobre muitas das questões regulatórias que provavelmente serão discutidas na reunião.

Os líderes chineses argumentaram que sua principal tarefa é manter um crescimento forte em casa, e o presidente Hu Jintao apontará para o programa de gastos em infra-estrutura e bem-estar social que o governo anunciou nesta semana como sua contribuição, de US$ 586 bilhões (aproximadamente R$ 1,2 trilhão). As autoridades esperam que o amplo pacote de estímulo fiscal esvazie o debate sobre a possibilidade da taxa de câmbio chinesa estar exacerbando os desequilíbrios globais.

Uma das questões sobre a qual a China tem uma posição mais forte é a reforma do FMI. Pequim acredita que deveria ter um papel maior no fundo, que refletisse seu crescente poder econômico.

Colaborou Geoff Dyer, em Pequim (China) Deborah Weinberg

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