Cambaleando até a estabilidade

Combatendo a crise após um início discordante, os líderes nacionais encontraram um modo de escorar os bancos da UE e iniciar a construção de defesas contra a recessão - mas decisões tensas ainda os aguardam, como escreve Tony Barber

Para a União Européia, a hora da verdade na crise financeira chegou na manhã de 30 de setembro, em Dublin. Quinze dias após o colapso do Lehman Brothers, supostamente o momento definidor da crise nos Estados Unidos, o governo irlandês anunciou que garantiria todos os depósitos em seis das maiores instituições financeiras da Irlanda.

A medida sugou os fundos do Reino Unido, ameaçando desestabilizar o sistema bancário britânico e levando a anúncios unilaterais semelhantes de garantias ilimitadas aos depósitos por toda parte, acima de tudo pela Alemanha, em 5 de outubro. Estas medidas resumiram bem a incapacidade da UE de elaborar uma resposta coletiva para a crise.

Quase dois meses depois, a UE está se organizando e evitou a perspectiva de um controla nacional direto do sistema financeiro europeu - um resultado que teria causado danos incalculáveis à experiência do bloco de 27 países de ganhar força por meio da soberania compartilhada. Mesmo assim, as conseqüências da crise, em termos de reforma econômica, comércio, regulamentação financeira, as instituições da UE e o destino político dos líderes do continente, prometem ser imensas.

Alguns entusiastas da maior integração temem que a crise vai desferir um duro golpe contra a causa européia. Mas autores de políticas e especialistas com longa experiência em relação à UE e seus esforços às vezes audaciosos, às vezes desafortunados de unidade, estão menos pessimistas.

"É justo dizer que a resposta inicial da UE foi inadequada, mas é sempre por meio da crise que a UE se torna menos inadequada mais à frente", disse Mario Monti, um ex-comissário da UE. Monti e outros traçaram paralelos com a turbulência que ocorreu em 92-93 no mecanismo de taxa cambial da UE, após a reunificação da Alemanha. Longe de arruinar a visão de uma moeda única européia, as turbulências reforçaram a determinação dos líderes em seguir em frente e levar ao nascimento do euro em 1999.

Para muitos governos, a mais recente crise viu o euro realmente comprovar seu valor. Um país vulnerável como a Irlanda poderia ter sofrido um colapso financeiro caso não estivesse protegido por sua filiação à zona do euro. "A segurança fornecida pelo euro dá à Irlanda uma oportunidade de navegar em meio às condições econômicas mais difíceis na história do país", disse Joe Gill da Bloxham, uma corretora de ações com sede em Dublin.

Países não-membros como a Hungria, que precisou de 20 bilhões de euros em ajuda de emergência, e a Islândia, cuja moeda e maiores bancos ruíram, ficaram expostos à força plena da crise. Até mesmo a Dinamarca, um modelo da virtude econômica escandinava, teve que aumentar as taxas de juros duas vezes no mês passado para defender a coroa. Um novo pedido dinamarquês de ingresso na zona do euro parece certo, e pode ser acompanhado pela Suécia.

Em Varsóvia, onde o governo polonês elaborou às pressas um plano para adoção do euro em 2012, o ingresso não é considerado certo porque a questão é politicamente divisora. Mesmo assim, parece que a união da moeda, que receberá a Eslováquia em 1º de janeiro como seu 16º membro, se expandirá ainda mais nos próximos anos.

Isso não quer dizer que tudo está cor-de-rosa na zona do euro. Como mostrado pelos crescentes spreads entre os rendimentos dos títulos dos governos da Grécia, Itália e outros países e os da Alemanha, os mercados financeiros não tratam a área como uma entidade única. Os investidores estão cientes de que a UE, diferente dos Estados Unidos, não é uma federação e não possui um mecanismo fiscal central para transferência de fundos de um país próspero, estável, para um país em dificuldades.

Com os spreads em seu ponto mais alto nos quase 10 anos de história do euro, os investidores poderão prestar maior atenção, durante a recessão econômica em curso na Europa, ao que consideram a raiz dessas desigualdades e à fraqueza mais séria dos membros mediterrâneos da zona do euro - uma persistente falta de competitividade nos negócios em comparação à Alemanha. Apenas reformas econômicas estruturais podem tratar do problema, mas é questionável se Atenas, Lisboa ou Roma terão força política ou vontade para introduzir essas reformas durante aquela que parece que será uma longa e amarga recessão.

Mais provável é a perspectiva de mudanças significativas na governança da zona do euro. Um tabu foi quebrado em 12 de outubro, quando o presidente da França, Nicolas Sarkozy, convocou o primeiro encontro de cúpula dos chefes de governo da zona do euro. A rigor, a presença de Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, neste encontro "zona do euro mais um" o tornou inegavelmente importante. "A crise levará a uma maior coordenação econômica por toda a parte, e isso inclui a zona do euro", disse Angel Gurría, secretário geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Ocde), com sede em Paris, o clube dos países desenvolvidos.

Por quase 10 anos, a Alemanha exibiu pouco entusiasmo pelos encontros de cúpula da zona do euro, suspeitando de um desejo francês de "politizar" a moeda única e comprometer a independência do Banco Central Europeu. No futuro, não haverá nada de extraordinário em reuniões de líderes da zona do euro.

Mas Sarkozy exagerou sua posição ao sugerir que poderia continuar presidindo reuniões como essa no próximo ano, quando dois países que não fazem parte da zona do euro - a República Tcheca, e depois a Suécia- herdarem da França a presidência rotativa da UE.

Os papéis cruciais exercidos na crise por Sarkozy e Brown contrastam com o papel da Comissão Européia. O órgão executivo com sede em Bruxelas tem atraído críticas pelo seu suposto atraso. Uma proposta da Comissão de aumentar as garantias aos depósitos bancários, por exemplo, surgiu apenas após os ministros das finanças da UE terem assumido o comando e se tornou pública mais de um ano após a quase falência do Northern Rock, o banco britânico posteriormente nacionalizado.

"Eles sabiam que isso era um problema desde o Northern Rock. Eu não sei por que demorou tanto para fazerem algo", disse Karel Lannoo, do Centro para Estudos de Políticas Européias, em Bruxelas, que critica a "ausência" da Comissão. "A Comissão não foi o motor, mas o desacelerador da integração européia."

Em sua defesa, altos funcionários em Bruxelas disseram que José Manuel Barroso, o presidente da comissão, estava com suas mãos atadas pelos governos que queriam inicialmente lidar com a crise na esfera nacional. Sem citar nomes, Barroso observou que alguns importantes países membros -o Reino Unido vem à mente- relutavam em apoiar uma regulamentação mais forte do mercado financeiro até que a crise atingiu sua intensidade máxima.

Além disso, as iniciativas da comissão ao longo dos últimos três meses cobrem de tudo, de exigências de capital e regras contábeis para as agências de classificação de crédito, enquanto mais está a caminho visando derivativos, fundos hedge e remuneração de executivos. Um grupo de alto nível presidido por Jacques de Larosière, um ex-diretor administrativo do Fundo Monetário Internacional, apresentará um relatório aos líderes da UE em março sobre métodos para melhorar a supervisão financeira transnacional.

Na próxima quarta-feira, a Comissão anunciará um programa de recuperação econômica que convidará os países membros a lançarem pacotes de estímulo fiscal. Ele também proporá maiores gastos em ajuda às partes mais pobres da UE.

Alguns políticos permanecem desdenhosos. Os socialistas no Parlamento Europeu exigiram que Charlie McCreevy, um comissário de mercado interno com responsabilidade pela regulamentação do mercado financeiro, fosse transferido para outro cargo. Em uma entrevista para o "Financial Times", Joschka Fischer, o ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha, atacou a Comissão como "no momento fraca, com um presidente ainda mais fraco que, como recompensa por sua fraqueza, está prestes a receber um novo mandato de cinco anos no cargo".

Talvez um risco mais perturbador seja o de que a crise financeira, ao desacreditar o livre mercado aos olhos de muitos europeus e ao fortalecer as forças do populismo e do nacionalismo econômico, assegure que a próxima Comissão, que será nomeada daqui 12 meses, tenha uma face muito menos liberal do que a atual. É fácil imaginar Sarkozy e outros líderes colocando pressão sobre Barroso, caso seja nomeado novamente, para que escolha comissários para comércio, agricultura, concorrência e mercado interno que reflitam o novo clima político.

Isto, por sua vez, provavelmente dificultará ainda mais que os defensores do livre mercado vençam a discussão em assuntos como a antiga batalha para liberalização do setor de serviços. Os planos para adoção de uma legislação obrigatória no próximo ano para o combate à mudança climática também poderão ser afetados. Barroso, um defensor apaixonado do livre mercado e de ações ambiciosas para tratar da questão do aquecimento global, pode se sentir compelido a ceder aos esforços para introdução de medidas protecionistas disfarçadas como tarifas de carbono, que seriam impostas a bens de países como a China, cujas políticas de emissões de gases do efeito estufa são consideradas abaixo dos padrões europeus.

A capacidade da UE de manter as rédeas das regras de concorrência e ajuda do Estado também será testada, algo que o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, deixou claro no mês passado. "A ajuda do Estado, que até ontem era considerada um pecado, agora é absolutamente essencial", ele disse com prazer.

Os fabricantes de carros europeus já receberam uma resposta receptiva de Bruxelas ao seu pedido de 40 bilhões de euros em empréstimos com condições favoráveis em equiparação a uma ajuda semelhante aos seus concorrentes americanos. Tendo em mente o precedente de resgates aos bancos europeus pelos governos, outros setores poderão não demorar muito para apresentar seus próprios pedidos.

Enquanto isso, Sarkozy e Berlusconi deixaram claro que consideram a crise uma oportunidade de ouro para fortalecer as defesas das empresas francesas e italianas contra tomadas hostis estrangeiras. O presidente francês até mesmo apelou pela criação de fundos soberanos europeus para que adquiram participações acionárias de grandes empresas com preços de ações desvalorizados.

A brusca rejeição da Alemanha a esta idéia ressalta quanto a crise testou o relacionamento franco-alemão, que nunca foi muito feliz durante o ano e meio em que Sarkozy e Angela Merkel, a chanceler alemã, estiveram simultaneamente no poder. O interesse francês em um fundo de resgate comum a bancos da UE foi instantaneamente rejeitado pela Alemanha, enquanto a França ficou perplexa com as garantias ilimitadas da Alemanha aos depósitos bancários -uma medida tomada apenas um dia após Sarkozy, Merkel, Brown e Berlusconi terem concordado em Paris quanto à necessidade de uma coordenação mais estreita das ações nacionais durante a crise.

O herói europeu mais improvável do momento é Brown, que em dezembro passado estava tão alérgico ao espírito de camaradagem continental que optou por assinar sozinho o tratado de Lisboa da UE para reforma institucional, horas depois dos demais líderes. Nesta emergência, ele estabeleceu o ritmo com sua percepção de que a recapitalização dos bancos tinha que ser um componente central da resposta política do bloco. Ele colheu a recompensa ao ascender nas pesquisas de opinião.

Mas a recessão punitiva diante do Reino Unido significa que Brown terá muito trabalho para vencer a próxima eleição geral, que ocorrerá em 2010. O mesmo vale para Merkel, mas seus democratas-cristãos são auxiliados pela avaliação ruim aos seus parceiros de coalizão social-democratas. Grande parte do interesse na eleição alemã do próximo ano se concentrará no desempenho do Partido de Esquerda, que é composto pelos ex-comunistas da Alemanha Oriental e esquerdistas insatisfeitos do Partido Social Democrata, que espera se beneficiar com a crise financeira e a recessão.

Por sua vez, Sarkozy exibiu energia a imaginação em sua liderança da UE em um momento realmente crítico em seus 50 anos de história, assegurando que a Europa terá uma posição influente na futura reestruturação da arquitetura financeira mundial.

De forma característica, ele também explorou a crise para promover as noções da França de capitalismo guiado pelo Estado, às custas do que ele e vários outros europeus consideram como um neoliberalismo fracassado dos Estados Unidos e do Reino Unido. Para domar estas ambições, Brown poderia utilmente lembrar o que George Curzon, o estadista britânico do início do século 20, já disse sobre o relacionamento franco-britânico: "Nós andamos de braços dados com ela, mas com uma de nossas mãos agarrando seu colarinho". George El Khouri Andolfato

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