Mundo questiona a resposta indiana aos atentados

James Bliz, em Londres (Inglaterra) e
James Lamont, em Nova Déli (Índia)

Será que as autoridades indianas poderiam ter lidado melhor com os ataques terrorista de Mumbai (antiga Bombaim), evitando uma situação na qual 155 pessoas morreram durante mais de dois dias de violência constante? À medida que os cercos contra os terroristas em Mumbai caminhavam para um fim na noite da quinta-feira, a questão já vinha sido debatida vigorosamente por analistas de segurança na Índia e em outros países.

Na Índia, figuras importantes do círculo militar sugeriam na sexta-feira (28/11) que a operação do governo apresentou falhas graves, até mesmo no que diz respeito ao envio tardio das tropas de elite do país.

No Ocidente, a imagem das forças especiais da Índia junto aos especialistas em segurança é muito boa. "A polícia e as forças de segurança indianas não são lá essas coisas - e não são de fato preparadas para esse tipo de situação -, mas as forças especiais são outra história", afirma Michael Clarke, diretor do Royal United Services Institute, do Reino Unido.

Ashok Mehta, comandante da reserva do exército indiano, diz que o número de mortos em Mumbai poderia ter sido reduzido à metade se a Guarda de Segurança Nacional tivesse chegado mais cedo nos locais dos ataques.

"A guarda de segurança não deveria ficar simplesmente estacionada em Nova Déli", afirma o general Mehta. "Se eles estivessem em Mumbai, apenas a metade das baixas teria sido infligida. É preciso que se aprendam lições com o episódio".

Alguma insatisfação com a forma como os fatos transcorreram foi expressa por algumas das nações diretamente afetadas pelos acontecimentos de Mumabi, como Israel, que perdeu cinco cidadãos nos ataques.

"Em situações em que há reféns, a primeira coisa que as forças de segurança devem fazer é se agruparem no local e começarem a coletar inteligência", disse ao jornal "Jerusalem Post" um ex-oficial do Shin Bet, o serviço de segurança de Israel.

"Neste caso, parece que as forças chegaram ao local e passaram imediatamente a trocar tiros com os terroristas, em vez de primeiro assumirem controle sobre a área", disse ele.

Israel sugeriu que a Índia rejeitou a sua oferta de assessoria de segurança para o combate ao terrorismo, incluindo o envio de forças especiais de contraterrorismo. Autoridades britânicas também disseram que nenhum pedido de ajuda foi feito ao Reino Unido.

E, segundo a BBC, a Interpol teria dito que, 48 horas após o início dos ataques, ainda aguardava a permissão do Ministério do Interior indiano para enviar uma equipe ao país.

Mesmo assim, analistas de segurança e autoridades de governos do Ocidente questionam se a Índia poderia de fato ter se saído melhor.

Clarke diz que a magnitude da atrocidade em Mumbai- com ataques contra vários prédios em uma grande cidade - foi "única" na história recente do terrorismo, não tendo se encaixado em nenhum tipo de ação antecipada por qualquer país importante.

Nos últimos anos o mundo presenciou vários grandes cercos a terroristas, sendo que os dois mais notáveis ocorreram em Moscou, em 2002, e em Beslan, em 2004. Mas ambos também terminaram com significativas perdas de vida.

"Nessas situações, é preciso fazer uma escolha. Ou se tenta encaminhar a crise para um final rápido, ainda que isto signifique que alguns reféns sejam mortos, ou se parte para um processo demorado de negociação em vários locais, algo que pode terminar em fracasso. Os indianos optaram pela primeira linha de ação, e foi por isso que houve mortes. Mas é difícil afirmar com qualquer precisão se o outro caminho teria sido melhor".

Mesmo assim, algumas autoridades de governos ocidentais sugeriram que o aparato de segurança da Índia apresentou falhas. Eles disseram que as autoridades de Mumbai devem ter sofrido um golpe duro quando o seu chefe de contraterrorismo foi morto no início da operação, uma perda que nenhum aparato de segurança deveria permitir que ocorresse.

Outros afirmaram que foi estranho o fato de as autoridades indianas terem permitido que equipes de televisão filmassem as suas forças especiais em ação em torno de estruturas-chave na cidade, possivelmente permitindo que os terroristas tivessem uma visão das operações muito melhor do que poderiam ter.

No fim das contas, a Índia pode ser criticada por ter fracassado em relação aos dois objetivos-chave de uma operação contraterrorista. O país acabou amargando uma perda significativa de vidas de civis inocentes, e, ao mesmo tempo, foi incapaz de neutralizar rapidamente uma operação terrorista observada detalhadamente pela mídia mundial.

Conforme sumariza Paul Cornish, diretor do programa de segurança internacional em Chatam House, em Londres: "Os extremistas receberam mais atenção do que possivelmente teriam esperado, e o massacre de Mumbai só pode ser descrito como um sucesso terrorista muito significativo". UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos