"Boligarcas" sobem ao topo na Venezuela socialista

Benedict Mander
Em Caracas

Há dez anos, Wilmer Ruberti era apenas outro executivo ambicioso. Atualmente, enquanto o presidente da Venezuela Hugo Chávez completa uma década no poder, Ruperti é um bilionário dos transportes e um dos homens mais ricos do país.

Muitos dos colegas de Ruperti alegam que seu sucesso se deve a mais do que seu talento para os negócios. Ele é taxado de "boligarca", a nova raça de magnatas venezuelanos que têm relações próximas com o governo "bolivariano" de Chávez -Simon Bolívar foi herói da independência da América do Sul no século 19.

Ruperti diz que foi castigado por seu papel na greve infame da indústria de petróleo em 2002-03, fomentada por opositores de Chávez, muitos deles líderes empresariais, que estavam tentando derrubar o governo.

Depois de disponibilizar seus petroleiros para o governo -e assim permitir ao presidente sobreviver à tentativa da oposição de cortar sua principal fonte de renda, ou seja, as exportações petróleo- Ruperti ficou em boa posição para conquistar os contratos de transportes da petrolífera nacional, Pdvsa, em uma época em que outros foram excluídos.

"Foi uma grande decisão. Normalmente eu não jogo dessa forma", diz Ruperti, que admite que valeu a pena. "Mas, realmente, eu só estava cumprindo meu contrato".

Daniel Hellinger, historiador e cientista político especialista na Venezuela diz que altas do petróleo anteriores geraram novas elites empresariais. "É a história se repetindo", diz ele.

Ele distingue dois grupos de boligarcas: membros da ordem antiga que "mudaram de cor na hora certa" e um novo grupo que "fez decisões inteligentes, construiu conexões com o governo, foi muito esperto e soube como trabalhar com o sistema".

Entretanto, os líderes empresariais que defenderam a greve de petróleo e o golpe de Estado fracassado em 2002 sofreram. A principal baixa foi o Rctv, que era o canal mais popular de televisão da Venezuela. Sua licença foi revogada no ano passado, devido parcialmente às acusações de Chávez que estivera por trás do golpe.

A diferença entre a elite antiga e a nova, dizem os observadores, é que a nova evita a política. "Evidentemente, o governo fica mais confortável trabalhando com pessoas que não estão tentando derrubá-lo", diz Arturo Sarmiento, que foi importador de uísque e negociador petróleo e hoje dirige a rede de televisão regional Telecaribe.

Alberto Cudemus, empresário proeminente envolvido na criação de suínos que tem boas relações com o governo, diz: "Muitos dos empresários tradicionais simplesmente não compreendem que houve uma enorme mudança aqui... as empresas têm que voltar a fazer o que supostamente deveriam fazer: investir, gerar emprego, melhorar a tecnologia e produzir bens e serviços. Não é nosso papel fazer as leis."

De fato, apesar de Chávez chamar seu credo de "socialismo do século 21", alguns capitalistas -principalmente os que trabalham com commodities, os expostos à expansão de consumo venezuelana e os que se beneficiam de distorções econômicas- vem prosperando.

Para algumas empresas, a Venezuela é o país mais rentável da região. "As empresas podem fazer dinheiro mais sério na Venezuela", diz Daniel Linsker, analista da Control Risks, que presta consultoria a várias empresas internacionais grandes operando na Venezuela. "Isso não significa que não seja um desafio, que as empresas privadas não enfrentem um alto grau de incerteza e até abusos do governo, ou que as empresas possam remeter seus lucros livremente", acrescenta.

Os bancos, em particular, prosperaram. Isso se deveu particularmente a um a taxa de câmbio fixa desde 2003 para impedir a fuga de capital com os temores de instabilidade resultante do estilo impulsivo de Chávez. Entretanto, depois de permanecer igual contra o dólar desde então, depois de anos de inflação galopante, agora a moeda está altamente supervalorizada.

Isso fomentou um mercado negro ativo que permitiu aos banqueiros experientes -particularmente os que têm contratos com o governo- a fazerem fortunas "como as russas", de acordo com um banqueiro de investimento local.

Entretanto, é provável que, de agora em diante, torne-se muito mais difícil fazer fortuna na Venezuela. O colapso do preço do petróleo significa que os capitalistas do país, boligarcas ou não, enfrentarão tempos mais difíceis.

Quanto à Ruperti, ele ri do termo boligarca. "Na Venezuela, as pessoas inventam todo tipo de história ridícula", diz ele. "Não passei mais do que sete minutos com Chávez". Deborah Weinberg

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