Produtores rurais brasileiros perdem batalha da dívida

Jonathan Wheatley

Emerson Spigosso, um agricultor de 34 anos do Estado do Mato Grosso, não sabe como pagar suas dívidas.

"O banco veio levar minhas ceifeiras-debulhadoras, mas não as encontrou", ele disse. "Então ele executou minha dívida na Justiça. Eu não tenho como pagar."

Como muitos agricultores locais, Spigosso investiu em terras e maquinário no início desta década, à medida que o Brasil ganhava proeminência como fornecedor mundial de soja e outros alimentos.

Mas seca, pragas, a valorização da moeda e a péssima infra-estrutura minaram as vantagens que os produtores rurais do Mato Grosso usavam contra os concorrentes nos Estados Unidos, Argentina e no Sul do Brasil.

Agora o arrocho mundial de crédito transformou suas dificuldades em uma crise. Os bancos estão retomando a posse de maquinário agrícola. O crédito para fertilizantes e outros insumos secou. A produção de soja no Estado provavelmente cairá 10% neste ano, dizem os produtores rurais. No próximo ano, ela poderá cair em dois terços.

Até recentemente, os produtores rurais do Mato Grosso tinham pouco do que se queixar. Entre 1990 e 2004, a quantidade de terras cultivadas no Estado mais que quadruplicou, de 1,9 milhão para 8,6 milhões de hectares - uma área maior que a Áustria. Hoje, o Mato Grosso produz 30% da soja no Brasil, ou 8% da produção mundial total.

Mas no período de 2004-2005, as coisas começaram a dar errado. Duas safras consecutivas foram atingidas por seca e praga. A moeda brasileira se valorizou constantemente frente ao dólar americano, minando os lucros dos produtores rurais.

Essas dificuldades expuseram outras. Os produtores rurais no Mato Grosso estão a mais de 2 mil quilômetros dos portos de Santos e Paranaguá, e a 1.500 quilômetros de Porto Velho, um porto em um afluente do Rio Amazonas que, por sua vez, fica a 1.900 quilômetros da costa do Atlântico. Grande parte da produção é transportada por estradas horríveis em caminhões com dois reboques, um sistema altamente ineficiente. Segundo a Agroconsult, uma consultoria em agronegócio, neste ano custará US$ 106 por tonelada para transporte da soja do Mato Grosso ao porto, em comparação a uma média de US$ 30 nos Estados Unidos.

Com o acúmulo das dificuldades, muitos produtores rurais se endividaram profundamente. O financiamento subsidiado para maquinário agrícola, por exemplo, é fornecido pelo BNDES, o banco nacional de desenvolvimento do Brasil, canalizado pelos bancos comerciais e outros dirigidos por empresas como John Deere e Case New Holland, que arcam com o risco do não pagamento.

A maioria dos empréstimos é quitado ao longo de cinco anos. Quando os produtores rurais enfrentaram dificuldades em 2005, o governo determinou que as prestações que venceriam naquele ano poderiam ser pagas em 2010. Depois disse que as prestações que venceriam em 2006 poderiam ser pagas em 2011. Em 2007, ele disse que os produtores rurais deviam pagar 15% de suas dívidas, e o restante em 2012. Neste ano, ele disse que os produtores rurais tinham que pagar 40%, e o restante em 2013.

No Mato Grosso, na semana passada, o FT falou com 26 produtores rurais, sendo que apenas um conseguiu pagar os 40% que devia neste ano, vendendo terras. O governo forneceu R$ 500 milhões em crédito para ajudar no pagamento dos empréstimos para maquinário, mas a maioria não pode usá-lo porque não dispõe de nenhuma caução.

A situação de Spigosso é típica. Ele comprou uma ceifeira-debulhadora em 2001 por R$ 220 mil e outra em 2003, por R$ 280 mil. Devido aos juros acumulados, a dívida sobre suas duas máquinas passou para R$ 800 mil, enquanto o valor das máquinas caiu para menos da metade desse valor.

O governo forneceu uma linha de crédito rural extra de R$ 13 bilhões neste ano mas, como os empréstimos para maquinário, poucos produtores rurais no Mato Grosso podem usá-lo. Ana Laura Menegatti da MB Agro, uma consultoria de agronegócio em São Paulo, disse que dos R$ 49 bilhões disponíveis para financiar o plantio deste ano antes do financiamento de emergência, apenas R$ 18,5 bilhões foram de fato emprestados a agricultores de todo o país. "Os bancos não gostam de risco e há burocracia demais, de forma que muito pouco financiamento chega aos agricultores", ela disse.

A situação se agravou neste ano porque grandes empresas de agronegócio como Bunge, ADM e Cargill estão emprestando muito menos para os produtores rurais do que de costume. Luis Carlos Guedes, vice-presidente de agronegócios do Banco do Brasil, um banco controlado pelo governo, disse que grandes traders fornecem cerca de metade do crédito agrícola no Mato Grosso e que recuaram fortemente devido ao arrocho de crédito.

Ele disse que o governo deveria quebrar o ciclo de adiamento interminável dos pagamentos ao crédito subsidiado, que custa cerca de R$ 4 bilhões por ano, e gastar o dinheiro em instrumentos para garantir uma renda mínima para os produtores. Isso daria aos bancos a segurança que precisam para emprestar.

Edílson Guimarães, secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, disse que a proposta faz sentido, mas que o governo tem problemas de curto prazo, como o acúmulo de dívidas ativas, com os quais tem que lidar primeiro.

Como colocou um produtor rural do Mato Grosso, a proposta do Banco do Brasil é "a solução dos nossos sonhos". Mas enquanto os recursos continuam não disponíveis, a situação difícil dos produtores rurais só pode se agravar. George El Khouri Andolfato

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