Morre o mais famoso desmemoriado da história da neurociência

Jurek Martin

Histórias de pessoas que perdem a memória são comuns em filmes desde o cinema mudo. Em "Amnésia", longa metragem lançado em 2000 e aclamado pela crítica, o herói descobre depois da morte de sua mulher que não se lembra de nada por mais de alguns momentos. Enquanto luta para resolver o assassinato, ele grava freneticamente cada pensamento a cada descoberta, antes que seja apagado de sua mente.

Nem tudo no filme, contudo, era ficção, como acontece na maior parte dos filmes sobre amnésia. "Amnésia" foi inspirado pela vida real de um homem conhecido apenas como HM ou Henry M, cuja verdadeira identidade foi revelada apenas após a sua morte em Connecticut, na semana passada, aos 82 anos de idade. Seu nome era Henry Gustav Molaison e, sem dúvida, foi o paciente mais famoso e mais examinado na história da neurociência.

Ele nasceu no dia 26 de fevereiro de 1926, em Hartford, filho de um eletricista acádio de Thibodeux, Louisiana, e de mãe irlandesa. Em 1953, HM passou por cirurgia experimental no cérebro em Hartofrd, para corrigir ataques epiléticos, que tiveram início depois que foi derrubado por uma bicicleta, quando tinha nove anos de idade. Os ataques tinham se tornado tão freqüentes e severos que não estava conseguindo mais manter o emprego de mecânico e nenhum tratamento funcionou.

O cirurgião, William Beecher Scoville, que tinha técnicas de lobotomia refinadas, removeu dois dedos de tecido do cérebro de HM, cortando profundamente o hipocampo. Os ataques se tornaram menos freqüentes, mas a vida do paciente foi mudada radicalmente para sempre. Ele se lembrava de seu nome e de sua vida pregressa, mas quase nada do que aconteceu depois que saiu da mesa de operação. Cada experiência, cada rosto era eternamente novo para ele. O que ele absorvia ficava em sua mente por apenas 20 segundos, mas ainda assim sua inteligência básica era incomparável. Ele foi vítima de "amnésia profunda", ou, para dar o termo técnico, amnésia anterógrada severa.

Scoville, com dor na consciência, contatou dois médicos canadenses, Wilder Penfield e Brenda Milner, famosos por seu trabalho com perda de memória. Milner começou a visitar HM regularmente. Neste período inicial da neurociência, o conhecimento do cérebro era rudimentar, com amplas discordâncias sobre a causa da amnésia. A função da memória, assumia-se, era distribuída pelo cérebro e não dependente de uma região ou órgão neural.

O estudo seminal de Milner, baseado em seu trabalho com HM, foi publicado em 1962. Ele revelou que há pelo menos dois sistemas no cérebro responsáveis por criar memórias; um subconsciente, do "aprendizado motor", pelo qual as pessoas podem se lembrar como executar tarefas básicas, tais como andar de bicicleta; o outro, da memória declarativa, armazena fatos e experiências até que sejam lembrados conscientemente. Esse se baseia no hipocampo, parte do qual tinha sido removida do cérebro de HM.

Legiões de pesquisadores pousaram em Connecticut para examinar o mais famoso paciente de neurociência, que foi sempre muito atencioso, apesar de não se lembrar de seus visitantes repetitivos.

HM morou na casa dos pais e depois com outro parente, antes de eventualmente mudar-se para um asilo. Ele funcionava em um nível básico, com o que ele se lembrava de seus primeiros 27 anos de vida. Ele sabia preparar uma refeição, fazer a cama e trabalhar no jardim. Ele também era capaz de fazer palavras cruzadas, uma habilidade mais motora. Ele não tinha problemas com conversas diretas. Milner recentemente lembrou-se dele como "um homem muito gracioso, muito paciente, sempre disposto a tentar as tarefas que dava para ele. E ainda assim, toda vez que eu entrava na sala, era como se nunca tivéssemos nos encontrado".

Suzanne Corkin, que foi aluna de Milner e hoje está no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, tem lembranças similarmente agradáveis de sua longa colaboração com HM, sobre quem está escrevendo um livro. "Era como um membro da família. Talvez as pessoas pensem que é impossível ter um relacionamento com alguém que não que nos reconhece, mas eu tive". Ela acrescentou que ele tentou demonstrar reconhecimento: "Ele pensou que me conhecia do colégio".

Corkin fez arranjos para que o cérebro do paciente fosse preservado para a posteridade científica, como foi o de Einstein. Logo após sua morte, ela levou uma equipe de cientistas para tirar uma série de imagens de ressonância magnética de seu cérebro, tentando descobrir quais áreas dos lobos temporais eram danificadas.

A arte não imita a vida necessariamente em "Amnésia", mas, de acordo com um artigo da neuropscióloga Sally Baxendale, na "British Medical Journal" em 2004, é um de apenas três filmes a retratar a amnésia com algo próximo da realidade. Em geral, os roteiros retratam a perda de memória depois de um trauma e a recuperação depois de outro, ou mostram o sujeito vivendo uma vida normal, o que, segundo ela: "É neurologicamente improvável". Os assassinos da ficção, como Jason Bourne, são particularmente dados a esquecer o que fizeram.

O extenso artigo de Baxendale, apropriadamente intitulado "Memórias não são feitas disso", observa que "Amnésia" foi "parcialmente inspirado por estudos neuropsicológicos do famoso paciente HM".

Não se sabe se HM jamais usou fotografias ou palavras escritas na pele para tentar se lembrar do que esquecia rapidamente, como o personagem Leonard faz no filme, mas, na maior parte, a compreensão da amnésia profunda está correta. "A seqüência fragmentada das cenas do filme, quase um mosaico, também refletem inteligentemente a natureza perpétua da aflição", observou Baxendale.

Poderíamos especular quem poderia fazer o papel de HM em um filme. Talvez o falecido Peter Sellers, como fez com Chauncey Gardiner; ou Dustin Hoffman, que interpretou o autista sábio Raymond em Rain Man. Talvez Tom Hanks, em uma revisão de seu papel como Forrest Gump. Cada personagem, apesar de dificuldades mentais, alcançou certa serenidade, como, aparentemente aconteceu com Henry Gustava Molaison. Afinal, ele doou seu cérebro para a ciência. Deborah Weinberg

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