Republicanos enfrentam batalha pela alma ideológica do partido

Andrew Ward

Visto de Detroit, o papel dos republicanos do Sul em bloquear a proposta de resgate das fabricantes de automóveis americanas foi visto como ato de traição.

Senadores como Richard Shelby do Alabama, Bob Corker do Tennessee e Mitch McConnell de Kentucky foram acusados de proteger as fabricantes estrangeiras em seus Estados acima do interesse nacional mais amplo.

Entretanto, enquanto parece haver pouca dúvida que o pesado investimento das fábricas européias e asiáticas na região tornou os republicanos do Sul menos simpáticos às "Três Grandes" empresas automotivas, esse não foi o único fator.

A oposição ao pacote de salvamento da General Motors e da Chrysler também reflete uma proposta de alguns republicanos -particularmente os conservadores do Sul- de redesenhar a imagem do partido como defensor dos princípios do mercado livre em uma época de expansão sem precedentes do governo.

"Se eu tivesse cinco fábricas da GM e da Ford em meu Estado, eu me oporia a esse pacote", disse Shelby, cujo Estado abriga fábricas da Toyota, Honda, Hyundai e Daimler.

Shelby liderou a rebelião republicana que descarrilou o pacote de resgate proposto no Capitólio na semana passada, forçando a Casa Branca a considerar desviar parte do plano de resgate financeiro de US$ 700 bilhões (em torno de R$ 1,4 trilhão) para impedir a falência da indústria automotiva.

As alegações de que estava agindo por princípios atraíram escárnio dos defensores dos fabricantes americanos, que salientaram que Shelby e outros republicanos não fizeram objeções quando bilhões de dólares de incentivos financiados pelos contribuintes foram usados para atrair fabricantes estrangeiros para seus Estados.

"Os republicanos no Senado estão protegendo as empresas estrangeiras que estão em suas fronteiras", disse Jennifer Granholm, governadora de Michigan. "Eles não estão agindo como americanos".

Shelby e seus aliados do Sul, contudo, dizem que há uma diferença entre oferecer incentivos para criar empregos viáveis e subsidiar empresas inviáveis.

Eles querem a volta dos princípios econômicos conservadores, como de um governo que pouco se intromete e impostos baixos, ao coração da plataforma republicana, enquanto o partido tenta se reerguer depois da derrota eleitoral esmagadora do mês passado.

O apoio a tal abordagem é mais forte no Sul, onde as indústrias sindicalizadas e a desconfiança com o governo são fortes e duradouras. As perdas eleitorais em outras partes no país reforçaram o poder dos sulistas no partido.

Muitos líderes republicanos do Sul acreditam que os recentes fracassos do partido nasceram do fato do partido ter se desviado demais dos princípios conservadores -inclusive de um governo pequeno e da economia de mercado livre.

Grande parte da culpa é direcionada a George W. Bush por fracassar em controlar os gastos para salvar Wall Street. Em uma entrevista com a CNN nesta semana, o presidente admitiu que havia "abandonado os princípios do mercado livre para salvar o sistema do mercado livre".

Uma das principais vozes de discordância contra Bush é Mark Sanford, governador conservador da Carolina do Sul e astro republicano em ascensão. Em uma carta a Bush nesta semana, ele advertiu que usar fundos do programa criado para a indústria financeira para salvar as fabricantes de automóveis americanas "abriria as comportas" dos subsídios do governo para outras indústrias em dificuldades.

Alguns republicanos temem que a dominância dos conservadores do Sul dentro do partido vai alienar ainda mais os eleitores em outras partes do país, particularmente quando muitos estão esperando que o governo dê soluções para a crise econômica.

Entretanto, os conservadores apontam para pesquisas de opinião que mostram amplo mal estar com os pacotes de resgate de indústrias privadas como evidência que os EUA ainda são um país de centro-direita, apesar da vitória democrata esmagadora do mês passado.

As batalhas regionais e ideológicas entre republicanos podem irromper no mês que vem, quando o partido deve eleger o próximo diretor de seu comitê nacional.

Todos os seis candidatos prováveis falaram da necessidade de ampliar o apelo geográfico do partido, mas quatro deles vêm do Sul da linha Mason-Dixon. Deborah Weinberg

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