Parte do governo indiano quer ataque militar contra o Paquistão

Amy Kazmin
Em Nova Déli (Índia)

O governo da Índia está sofrendo pressões crescentes de elementos de linha dura do setor de política externa do país para lançar uma ação militar contra o Paquistão e a rede terrorista situada naquele país.

Vikram Sood, ex-chefe de inteligência da Índia, disse que sem uma ação desse tipo, o país poderá enfrentar mais ataques semelhantes ao ocorrido recentemente em Bombaim.

Sood, que atuou durante dois anos e meio como diretor do Setor de Pesquisa e Análise, a agência de inteligência externa da Índia, diz que Nova Déli deveria cogitar ações mais duras, como ataques aéreos ou operações clandestinas, contra os que apoiaram o audacioso ataque ocorrido em Bombaim. "Quem tem que pagar o preço é o exército paquistanês", disse Sood em uma conferência sobre o futuro da Índia. "A menos que façamos isso, continuaremos enfrentando esse problema. Neste caso o comedimento não é uma virtude".

Arundhati Ghose, ex-embaixador indiano nas Nações Unidas, manifestou uma opinião similar: "Tivemos um ataque em estilo guerrilheiro contra o nosso país, eles mataram o nosso povo, e agora nós devemos exibir comedimento? Que outro país age dessa forma? Se houver um outro ataque, devemos bombardeá-los intensamente".

Os comentários refletem a ira profunda nas forças armadas, nos serviços de inteligência e no aparato de política externa indianos em relação ao país do qual o ataque de Bombaim teria sido lançado, e a frustração com o fato de a ofensiva diplomática da Índia não ter sido capaz de prejudicar seriamente os militantes.

A Índia acusou o grupo extremista muçulmano paquistanês Lashkar-e-Taiba pelo ataque do mês passado, no qual quase 200 pessoas foram mortas.

Pradeep Kaushiva, um vice-almirante da reserva, diz que essa postura agressiva representa o ponto de vista das forças armadas. "Tenho certeza de que 100% dos integrantes das forças armadas estão sentindo o mesmo que os demais cidadãos do país - que o país foi atacado e que alguém tem que pagar por isso".

Em uma declaração, Pranab Mukherjee, o ministro das Relações Exteriores da Índia, que inicialmente pareceu descartar o uso da força, disse na sexta-feira (19/12) que a Índia "cogitaria uma ampla gama de opções" caso o Paquistão se mostrasse incapaz de conter os grupos terroristas dentro das suas fronteiras.

Sood, que atualmente é o vice-presidente de uma instituição de pesquisas de políticas públicas em Nova Déli, acusa o exército do Paquistão de tentar "repartir a Índia". Segundo ele, os militares paquistaneses estariam procurando vingar-se devido ao apoio de Nova Déli à criação de Bangladesh, em 1971, a partir do território oriental do Paquistão. "O sonho da balcanização da Índia coaduna-se com o sonho da jihadi do califado", afirmou Sood, referindo-se ao antigo reinado muçulmano mogul sobre o norte da Índia.

"A maneira como lidarmos com o Paquistão e o terror instigado pelos paquistaneses terá um impacto sobre a forma como os nossos vizinhos nos vêem", disse Sood. "Se eles acreditarem que somos incapazes de nos defender, isso nos deixará expostos a outras grandes potências que estão atuando na nossa vizinhança".

Após os ataques do mês passado em Bombaim, tanto Condoleezza Rice, a secretária de Estado norte-americana, quanto Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, visitaram o sul da Ásia para tentar evitar um novo conflito entre a Índia e o Paquistão, os vizinhos nuclearmente armados que no passado travaram três guerras.

A Índia deu início a uma iniciativa diplomática no sentido de gerar pressões ocidentais para que o Paquistão reprima os terroristas abrigados no seu território. Mas crescem as dúvidas indianas quanto às intenções de Islamabad.

Kanwal Sibal, um ex-secretário das Relações Exteriores, diz: "A Índia não conta com nenhuma opção fácil, mas deve cancelar formalmente o seu diálogo pela paz com o Paquistão. Estamos dando a impressão de que esperamos que eles façam algo para que tudo possa voltar ao normal. O que estamos transmitindo é uma mensagem de fraqueza, e as conseqüências disso serão muito ruins". UOL

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