Estados árabes agora podem ajudar o Iraque a avançar para o futuro

Roula Khalaf

Deveria ser uma despedida feliz; uma visita que levaria George W. Bush a um Iraque menos complicado e menos sangrento e ajudaria a firmar seu legado. Entretanto, quando estava em Bagdá ao lado do primeiro-ministro Nouri Al-Maliki, o presidente americano que derrubou Saddam Hussein foi recebido com um insulto condenável.

Em vez de celebrar o sucesso do reforço militar que deteve a violência sectária e a assinatura de um acordo de segurança que deve trazer para casa mais de 100.000 soldados americanos, Bush foi forçado a se desviar de sapatos jogados contra ele por um jornalista iraquiano.

Ainda pior, poucas horas depois do incidente, o repórter da televisão Muntazer Al-Zeidi já tinha se tornado herói, saudado no Iraque e no mundo árabe como símbolo da resistência aos EUA. Foi como se jogar o sapato tivesse detonado todo o ressentimento da região contra o governo Bush.

Depois começou a diversão.

Uma obra de caridade na Líbia conferiu a Zeidi um "prêmio por bravura" por supostamente dar "uma vitória aos direitos humanos" - como se Trípoli fosse um modelo de respeito ao Estado de direito. Diferentes fabricantes de sapato, da Líbia até a Turquia, logo alegaram que era seu o famoso sapato que por pouco atingiu Bush.

A reação divertida foi além do Oriente Médio, refletindo a perda mais ampla de respeito pelos EUA. Diversas autoridades, da América Latina até a China, jocosamente advertiram aos jornalistas que não tirassem seus sapatos durante as conferências com a imprensa. Hugo Chávez, o líder venezuelano que adora desafiar os EUA, elogiou a "coragem" do repórter iraquiano, apesar de insistir que não está estimulando esse tipo de comportamento.

Também na Internet, a bravata ou a tolice de Zeidi, dependendo da opinião política, foi celebrada e explorada.

Um perfil do Facebook e jogos de computador baseados no incidente foram criados. No que recebi por email, "sock and awe", você marca pontos toda vez que atinge o presidente Bush com um sapato.

Os iraquianos e outros no mundo árabe talvez tenham certa satisfação ao ver o presidente americano humilhado, dada a decadência da imagem americana.

De fato, muitas pessoas acham que o ataque de Zeidi foi um final adequado a um governo cujo legado será associado à aventura no Iraque.

Toda essa satisfação emocional, contudo, mascara uma realidade mais deprimente: o enfraquecimento e humilhação dos EUA não tornarão o Oriente Médio mais estável nem promoverão uma administração mais eficaz da crise múltipla da região, que inclui o Iraque.

O episódio de Zeidi fala mais do triste estado do Iraque e da sensação de impotência no mundo árabe.

A ampla maioria dos iraquianos não teve voz na decisão dos EUA de remover Saddam Hussein. O mundo árabe foi ambivalente em relação à guerra e de qualquer forma não teria meios de impedi-la. Entretanto, os iraquianos agora têm que prosseguir, concentrando-se na construção de um Estado e na reconciliação entre eles.

Independentemente da dor que possam ter com os erros da administração após a guerra, eles agora podem olhar para frente pela primeira vez, para a verdadeira independência e a verdadeira responsabilidade.

Os EUA sem dúvida terão um papel no futuro do Iraque por décadas, mas suas tropas não estarão lá para manter o país unido após 2011. Independentemente da impotência que os Estados árabes podem ter sentido nos últimos anos, eles agora também têm uma chance de ajudar a formatar o futuro do Iraque.

Em vez de reclamar que o Iraque caiu sob a influência do vizinho Irã e esperar que os EUA contenham Teerã, eles podem aproximar Bagdá do grupo árabe.

Enquanto o Iraque vira uma página de sua história e Bush deixa a Casa Branca, o futuro do próprio Zeidi está ameaçado. Apesar de ele ter gerado um alívio cômico em uma época sombria em todo o mundo, a não ser que seu recente pedido de desculpas a Maliki e seu apelo por perdão sejam ouvidos, ele terá que apreciar sua recém conquistada celebridade atrás das barras. Deborah Weinberg

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