Filantropia: fundações abaladas pela crise

Por Andrew Jack

Quando um grupo de ricos benfeitores e especialistas em arte se reuniu recentemente em Seattle, nos Estados Unidos, em meio a canapés e vinho local, foram recebidos com uma mensagem agridoce.

Phyllis Campbell, chefe da The Seattle Foundation, que busca doadores para uma variedade de causas locais, congratulou os presentes por seu trabalho em apoiar a transformação de uma pensão arruinada em um impressionante museu dedicado às comunidades da Ásia e do Pacífico na cidade norte-americana. Mas ela também alertou sobre a escassez de fundos no futuro - ao mesmo tempo em que cresce a demanda por todo tipo de auxílio.

"A crise está em nossas mentes", disse ela. "As necessidades aumentarão, e o papel de nossa fundação será mais significativo do que nunca. Essa é uma época para que todos nós trabalhemos juntos".

A atuação beneficente a longo prazo de empresas locais como a Boeing e, mais recentemente, a Microsoft, transformaram Seattle em dos maiores centros de filantropia dos Estados Unidos. Mesmo assim, num padrão reproduzido em todos os EUA, Europa e Ásia, os problemas que começaram nas finanças se espalharam não apenas pela economia "real"
que visa o lucro, mas também pelo setor sem fins lucrativos que depende tão fortemente de seu apoio.

Os efeitos são vários e diversos, mas estão criando pressões por mudanças que poderiam reduzir a atividade filantrópica por meio de uma reestruturação tão radical quanto à que aconteceu no setor corporativo, com corte de orçamentos, perda de postos de trabalho, fusões e fechamentos.

Em Seattle, a demanda por apoio social aumentou drasticamente à medida que o desemprego e a execução de hipotecas cresceram. Ligações para telefones de auxílio, demandas aos bancos de alimentos e pedidos de assistência para tudo, desde contas domésticas até mensalidades escolares, estão crescendo.

Mas a capacidade de resposta das organizações beneficentes está ameaçada. Os atuais níveis de austeridade ameaçam o apoio do governo ao mesmo tempo em que as doações individuais mínguam. Uma pesquisa realizada neste outono no Reino Unido - antes que a onda de falências tivesse exacerbado a crise - pela Fundação de Auxílio Beneficente e pela Associação de Executivos de Organizações Voluntárias descobriu que quase um terço das organizações beneficentes havia sofrido uma queda nas doações individuais, enquanto quase três quartos reportaram uma demanda crescente por seus serviços.

A queda drástica nos preços das casas em todo o mundo desenvolvido está reduzindo o valor dos bens doados às organizações beneficentes.

No Reino Unido, a Fundação Northern Rock sofreu com o colapso da financeira homônima que era sua benfeitora. Muitas outras organizações que haviam colocado dinheiro em contas de rendimentos altos nos bancos da Islândia foram desestabilizadas pelo colapso dessas instituições nesse outono.

Nos EUA, grande número de organizações e fundações judaicas sustentadas por personalidades como o diretor de cinema Steven Spielberg e o escritor Elie Wiesel estão ameaçadas por conta de sua exposição à fraude de supostos US$ 50 bilhões de Bernard Madoff.

Enquanto isso, muitos fundos sem fins lucrativos de universidades americanas como Yale lançaram medidas econômicas depois da queda no valor de suas carteiras de investimentos.

O Wellcome Trust, uma das maiores organizações beneficentes médicas do mundo, com sede no Reino Unido, também sofreu um duro golpe. Mark Walport, diretor-executivo da organização, diz que os gastos gerais deverão cair modestamente no ano que vem.

O resultado será uma reestruturação abrupta dessas organizações. Em uma das várias conferências recentes sobre o impacto da crise, Paul Light da Escola Wagner da Universidade de Nova York, estimou que até 100 mil entre as cerca de 900 mil organizações sem fins lucrativos dos EUA podem falir nos próximos dois anos à medida que suas fontes de financiamento secam.

Mas nem tudo é tão sombrio. Fiona Halton, diretora da Pilotlight, que coloca executivos britânicos em contato com organizações que precisam de consultoria profissional, diz: "Quando as coisas ficam difíceis, os mais fortes se voluntariam". Seis por cento mais pessoas em Londres estão oferecendo seus serviços em comparação ao ano passado - incluindo algumas que perderam empregos corporativos nas últimas semanas.

Mesmo a redução do apoio financeiro não é geral. "As pessoas ainda estão doando, mas de forma menos extravagante", diz Susan Mackenzie da organização Philantrophy UK, um serviço de consultoria. Organizações que trabalham com causas menos populares de longo termo podem sofrer mais do que as que provocam a simpatia imediata para oferecer alívio emergencial aos afetados pela crise atual.

Por outro lado, o evento Crianças Necessitadas que a BBC realiza anualmente, levantou em novembro um valor recorde de 21 milhões de libras. O site britânico Big Give, que ajuda a encontrar doadores para organizações beneficentes, "explodiu" com uma enxurrada de pedidos de doação no mês passado. E até o começo de dezembro, as doações para as Organizações Beneficentes Católicas dos EUA haviam aumentado 15% em relação ao ano passado.

Estimativas do setor sugerem que as fundações tiveram em média quedas de 15 a 30% no valor de seus fundos entre agosto e novembro. Mas a maioria dos administradores usa estratégias atenuantes para tentar equilibrar os gastos durante os anos de vacas gordas e magras, reduzindo a possibilidade de cortes de orçamento. As rendas contínuas de dividendos - por enquanto, pelo menos - significam que talvez não haja necessidade de vender ações pelos seus baixos valores atuais.

Historicamente, as crises econômicas não tiveram um impacto prejudicial sobre as doações das fundações dos EUA. De acordo com uma pesquisa do Foundation Center, um grupo de pesquisa sobre filantropia, as doações de fato aumentaram um pouco em dólares reajustados pela inflação durante as últimas recessões.

Nos próximos anos, com uma concorrência maior por quantias menores de financiamento, os grupos sem fins lucrativos poderão ter que trabalhar duro para conseguir o apoio de doadores, demonstrando sua eficiência e eficácia através de uma maior transparência e avaliações rigorosas de seu trabalho. Muitos podem ser forçados a se reestruturar, considerar fusões ou enfrentar a ruína.

Pamela Barnes, chefe da Fundação de Auxílio Pediátrico Elizabeth Glaser, diz que as organizações precisam lutar contra a "cultura proprietária" e juntar forças para atingir objetivos comuns. "Temos que trabalhar juntos de forma mais inteligente e mais eficaz, e apresentar oportunidades de redução de custos para os doadores".

Se as organizações que buscam financiamento precisam se adaptar, o mesmo vale para os financiadores, que deverão trabalhar juntos e usando intermediários como a organização britânica Capital Filantrópico para identificar os melhores destinatários. "As fundações estão tentando fazer mais com menos", diz Steve Gunderson, chefe do Conselho de Fundações, associação norte-americana que serve aos financiadores, fundações familiares e programas de doação corporativos.

Ele diz que as fundações estão revendo ativamente os financiamentos existentes, emprestando dinheiro para cumprir com os gastos previstos nos próximos anos, e empreendendo cortes de custos internos, incluindo a redução de equipe, deixando vagas abertas e abrindo mão de pagamentos dos associados. "Elas estão tentando economizar dinheiro e redirecionar os recursos que têm".

A Fundação Filadélfia, por exemplo, cancelou um evento para celebrar seu 90º aniversário e, em vez de imprimir seu relatório anual, simplesmente publicou-o em seu site. Os US$ 100 mil economizados foram gastos em causas locais.

A maior organização filantrópica do mundo, pelo menos, não planeja se conter. A Fundação Bill e Melinda Gates decidiu aumentar suas doações em cerca de 10% no ano que vem - apesar de menos do que o previsto e com maior controle de despesas e menor crescimento de postos de trabalho. "Nós só gastaremos uma porcentagem maior de dinheiro do que normalmente", diz Gates. "Vamos manter os gastos porque isso é ainda mais importante".

Ele vem recebendo ajuda de um fundo que foi protegido por uma política de investimento conservador e que aumenta com os depósitos regulares de sua própria fortuna pessoal e, desde 2006, de seu amigo Warren Buffett, o homem mais rico do mundo.

Mais importante que isso, Gates se comprometeu a usar todo seu fundo durante os 50 anos depois da morte do último dos três responsáveis por sua fundação: ele próprio, sua mulher, e Buffett. Isso contrasta com a atitude de muitas fundações de longa vida que tentam manter ou aumentar o valor de seus fundos, com a visão de perpetuar sua existência.

Pablo Eisenberg, experiente pesquisador e analista de filantropia, argumenta que os legisladores dos EUA deveriam mudar os limites de isenção de impostos para as fundações, que requerem que apenas 5% dos fundos sejam usados a cada ano. Ele gostaria de ver esse limite - introduzido em 1969 - aumentado para pelo menos 6%. "Levando em conta a isenção de impostos de que as fundações desfrutam, seus diretores e funcionários deveriam ficar envergonhados com sua relutância em doar mais", diz.

Essas ações podem aliviar os problemas do setor sem fins lucrativos, mas - assim como acontece com as companhias - é provável que o pior ainda esteja por vir. "Quando os mercados começam a se deteriorar, você não vê isso imediatamente", diz Bradford Smith, presidente do Foundation Center. "As fundações estão dizendo que em 2009 haverá uma queda nas doações, mas que 2010 será o ano mais preocupante. Há muito nervosismo, muita preocupação, e muitas organizações sem fins lucrativos estão se juntando".

Com reportagem adicional de Rebecca Knight. À medida que as doações mínguam, organizações beneficentes procuram formas de atuação mais eficientes e pensam até mesmo numa dolorosa reestruturação, semelhante à enfrentada pelo setor corporativo Eloise De Vylder

UOL Cursos Online

Todos os cursos