Em 31 de dezembro, dê adeus à era da complacência

Stefan Stern

É muito tarde para evitar a recessão que atualmente se aprofunda. Mas ainda há tempo para aprender lições importantes com 2008, e assumir o compromisso de fazer um trabalho melhor no ano que vem. Eis aqui cinco idéias para se ter em mente em 2009.

Ousar ser diferente
Enfadonho e velho Lloyds TSB. Durante anos, analistas do setor e jornalistas bateram no banco de varejo do Reino Unido, criticando-o pelo seu desempenho aparentemente ruim. Por que ele não apresentou um negócio realmente grande como alguns dos seus concorrentes britânicos? Por que ele se orgulha tanto da sua estratégia conservadora? E por que ele não se juntou de forma apropriada à toda a diversão das subprimes nos Estados Unidos? Será que o Lloyds não sabia que havia muito dinheiro fácil para faturar?

Atualmente os críticos não andam fazendo tanto barulho.
O Lloyds TSB, embora não tenha saído exatamente ileso da crise, aproveitou o momento que lhe era propício e, com o auxílio do governo, abocanhou o HBOS, o seus ex-rival muito maior. A instituição precisou de coragem para resistir a todas as críticas.

Lembrem-se de como o já falecido J.K. Galbraith encarava o conceito de "sabedoria convencional". "A visão convencional serve para nos proteger da dolorosa tarefa de pensar", dizia Galbraith.

As recessões mostram quais empresas tomaram as medidas necessárias para adquirir uma maior resistência, e quais deixaram de adotá-las, esperando o surgimento de uma oportunidade melhor.

Simplesmente agir
As mais robustas empresas comerciais do Reino Unido - as quatro grandes redes de supermercados britânicas, por exemplo - tornaram-se mais eficientes e sensíveis em relação às preferências do consumidor no decorrer dos anos. Atualmente elas são capazes de competir ferozmente em termos de preços quando os seus clientes estão com orçamento curto. Mas duas outras empresas - o grupo de mobiliário MFI e a rede de lojas Woolworths - não colocaram a casa em ordem. Ambas entraram em colapso.

As épocas das vacas gordas permitem que as empresas medíocres sobrevivam. Mas a tranqüilidade dos últimos dez anos gerou complacência. Algumas equipes de liderança corporativa caíram no sono.

O co-fundador e presidente da Southwest Airlines, Herb Kelleher, definiu a abordagem correta "Temos o plano mais incomum deste setor: fazer coisas. Este é o nosso plano".

O mais importante ainda são as pessoas
Aquela campanha publicitária da L'Oréal precisa responder a muita coisa. Nos dias de hoje, todo mundo "vale a pena". A força de trabalho transformou-se em "alta manutenção". Gerenciar pessoas com o cuidado e a atenção necessários consome tempo.

Mas isso é necessário. Os líderes empresariais, tendo que tomar decisões desagradáveis quanto ao quadro de funcionários, estão se defrontando com esta questão neste momento. Mas muita gente boa ainda será despedida. E, quando a crise acabar, não haverá uma quantidade suficiente de bons funcionários a bordo para que se possa tirar o maior proveito possível da mudança.

São as pessoas de alta qualidade que fazem a diferença entre os negócios que têm sucesso e aqueles que fracassam. Assim, os administradores deveria prestar atenção nelas. Ninguém entende isso melhor do que Studs Terkel, o escritor e radialista de Chicago, que morreu neste ano, aos 96 anos de idade. As suas vigorosas descrições de pessoas se empenhando para registrar um bom dia de trabalho, enquanto mantinham uma dignidade básica intacta, conquistaram muitos admiradores. "Trabalho é vida", disse ele. "Sem isso, não há vida". A recessão não deveria obscurecer esse fato.

Não matar o mensageiro
Os melhores líderes não são apenas capazes de lidar com más notícias. Eles também as procuram. Esses líderes desejam "confrontar os fatos brutais", segundo a expressão de Jim Collins, e insistem em obter informações atualizadas e precisas. Já os maus líderes não só detestam notícias ruins, mas eles às vezes culpam o mensageiro. No Lehman Brothers, Richard Fuld parecia incapaz de aceitar o quão grave se tornara a situação do banco. Propostas de resgate desagradáveis, mas necessárias, foram rejeitadas, até que fosse tarde demais.

Os líderes que proíbem as notícias ruins estão se inserindo na rota do desastre. O mensageiro pode aparecer em várias formas: um colega de diretoria, um cliente, um cônjuge ou um filho. Talvez em 2009 os líderes mostrem-se mais dispostos a tomar conhecimento das más notícias um pouco mais rapidamente.

Criar riqueza e bem-estar
Na semana passada, Rowan Williams, o arcebispo de Canterbury, concedeu uma notável entrevista à BBC. Ele questionou várias das afirmações feitas por líderes empresariais e financistas nas últimas duas décadas.

Williams criticou a "espiral interminável de acumulação de riquezas, que não tem muito a ver com a produção de qualquer coisa". Ele falou sobre a criação de "riqueza sustentável", que apóie "o bem-estar de longo prazo para as populações", em vez do simples acréscimo de "lucros extras à conta corrente de certos indivíduos". Segundo ele, temos que pensar na criação de riqueza em termos do bem-estar da sociedade.

Williams acrescentou que alguns líderes empresariais admitiram para ele, reservadamente, que a criação de riquezas reais e sustentáveis leva tempo. Talvez esses líderes compartilhem as suas idéias com uma platéia mais ampla em 2009. Tal iniciativa será do interesse deles próprios.

Os próximos meses provavelmente serão ruins. Empregos desaparecerão. A demanda sofrerá forte redução. Os bancos estão abrindo os seus guarda-chuvas no momento em que a tempestade evolui para o seu apogeu.

Mas haverá uma recuperação, e depois disso teremos novamente dias melhores. E quando esses dias vierem, eu espero estar em forma suficiente para tirar o maior proveito deles.

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