Tchecos vão trabalhar em três "Es" na presidência européia

Tony Barber
Em Bruxelas

Seguindo os passos de Nicolas Sarkozy, o presidente francês heterodoxo e superenérgico, seria difícil para qualquer país que o sucedesse na presidência rotativa de seis meses da União Européia (UE). Para a República Tcheca, que assume o cargo na próxima quinta-feira (1), a tarefa é especialmente difícil, sobretudo porque a UE, com seus 27 países, está sofrendo uma crise financeira e uma recessão econômica mais agudas do que jamais viu em seus 50 anos de história.

"Nossa agenda poderia ser descrita como três 'Es' - economia, energia e exterior -, mas a crise financeira e suas conseqüências são um tema tão forte que vai superar qualquer de nossas prioridades nacionais", disse o primeiro-ministro tcheco, Mirek Topolanek, em entrevista ao "Financial Times".

Com 10,2 milhões de habitantes, pouco mais de 2% da população da UE, e um Produto Interno Bruto per capita de 80% da média européia, a República Checa não tem ilusões sobre sua capacidade de causar um impacto tão grande quanto causou a França no segundo semestre de 2008.

"Eu gostaria de ter uma presidência muito direta, sóbria e, por isso mesmo, muito eficaz. Não devemos gastar nossa força em grandes demonstrações", disse o ministro das Relações Exteriores, Karel Schwarzenberg.

"Devemos nos contentar em fazer as coisas avançarem, seja um quilômetro ou apenas alguns passos, de modo que quando chegar ao fim ninguém possa dizer que desperdiçamos nosso tempo, que não houve realizações."

Modéstia e pragmatismo semelhantes podem acalmar os nervos de outros países da UE que vêem mais que alguns problemas potenciais despontando nos próximos seis meses.

Um deles tem a forma do presidente Vaclav Klaus, cujas opiniões sobre o euro, a mudança climática e a reforma institucional do Tratado de Lisboa vão de excêntricas a hostis e o colocam muito longe da corrente dominante do pensamento europeu.

Como chefe de Estado, Klaus goza apenas de poderes limitados, e o governo de Topolanek pretende restringi-lo ao menor número possível de aparições públicas ligadas à UE. No entanto, Klaus já demonstrou uma capacidade de perturbar em questões menores, recusando-se a hastear a bandeira azul e dourada da União Européia no Castelo de Praga e sendo um anfitrião entusiástico do irlandês Declan Ganley, um dos principais ativistas contra o Tratado de Lisboa.

Klaus declarou que mesmo que o Parlamento tcheco aprove o tratado nos próximos meses ele não o assinará como lei enquanto não estiver claro se a Irlanda, que rejeitou o tratado em um referendo em junho, o ratificará.

Outra causa de preocupação é a fragilidade da coalizão governante de Topolanek, que não tem uma clara maioria parlamentar e teoricamente poderá cair do poder durante sua presidência européia.

Igualmente, o status de zona não-euro da República Tcheca levantou dúvidas sobre sua capacidade de liderar discussões sobre política econômica e financeira da UE. Mas esse problema poderá ser menos grave depois que foi acordado, sob Sarkozy, que as autoridades tchecas participarão das reuniões da zona do euro.

Com o Parlamento Europeu se dissolvendo antes das eleições de junho próximo, o governo tcheco vai precisar se concentrar em questões não-legislativas, como política externa, nos últimos meses de sua presidência.

Os tchecos, muito pró-EUA, querem desenvolver um forte relacionamento com Barack Obama, o presidente eleito americano, e também adiantar uma nova política européia conhecida como "parceria oriental", cujo objetivo é reforçar os laços com as antigas repúblicas soviéticas da Armênia, Azerbaijão, Belorus, Geórgia, Moldávia e Ucrânia.

O ministro holandês de Assuntos Europeus, Frans Timmermans, diz que a presidência tcheca na UE provavelmente será mais suave do que muitos prevêem. "São pessoas altamente profissionais. A equipe que eles formaram certamente é qualificada. É claro que eles tiveram alguns 'episódios nacionais' ... mas estão escutando os países mais antigos e experientes da UE de maneira positiva." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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