Análise - Dez anos do Euro: Seguindo em frente e valorizando-se

Ralph Atkins

Hoje (31/12) o euro faz dez anos, em um momento perigoso do quadro econômico mundial. Mas se a cultura popular servir como indicador da realidade econômica subjacente, a moeda da união monetária européia está em boa forma. Quando um empresário corrupto paga os seus conspiradores em "Quantum of Solace", o mais recente filme de James Bond, ele usa euros porque, conforme um dos personagens observa, "o dólar não é mais aquilo que era. É o custo da guerra".

A moeda única européia nasceu a partir da tensão. O seu lançamento em 1º de janeiro de 1999 foi estimulado pela crise de câmbio estrangeiro que atingiu o continente nos primeiros anos da década de noventa, quando fluxos especulativos quase destruíram o mecanismo anterior de taxas de câmbio "fixas mas adaptáveis". Segundo Barry Eichengreen, especialista em história econômica européia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, as únicas opções eram retornar ao sistema de câmbio flutuante ou seguir em frente com a implementação da união monetária: "Ficou bem claro o que precisava ser feito".

Uma década mais tarde, o euro, que a partir do início de 2009 será usado por 16 países, conquistou alguns fãs improváveis. Os vilões do filme de 007 não são os únicos a preferirem o euro ao dólar. Jay-Z, o rapper de Nova York, exibiu notas de ? 500 em um vídeo musical.

Em 2006, o valor total de notas de euro em circulação superou o de dólares. O respeito conquistado pelo euro como depósito de valor é comprovado também pelo aumento das reservas oficiais em euros: 27% do total mundial em 2008, uma elevação de 18% em uma década. No mesmo período, a parcela dessas reservas em dólares caiu de 71% para 63%.

Embora as taxas de juros tenham oscilado recentemente, a libra esterlina e o dólar fecharam 2008 dando a impressão de serem as moedas mais fracas. Neste mês, o euro apresentou o maior valor da sua história em termos de unidade monetária comercial.

Não há dúvida de que a crise econômica abalará a zona do euro. A integração financeira enfrentou percalços quando, por exemplo, o grupo financeiro belgo-holandês Fortis faliu em seu território nacional. De forma mais geral, o Banco Central Europeu reclama do precário fluxo de informações entre os reguladores nacionais e as autoridades monetárias enquanto procura estabilizar os mercados financeiros.

Os líderes políticos da zona do euro têm se desentendido quanto à resposta correta para a crise, e os irritados organizadores de políticas financeiras alemãs discutem devido à generosidade fiscal. Os mercados de capital preocuparam-se com as finanças públicas em certos países, gerando uma expansão drástica dos diferenciais de rendimento, por exemplo, nos títulos gregos e italianos, se comparados à dívida pública alemã. Os membros da zona do euro que tentam sair da recessão não contarão com a opção de desvalorizar as suas moedas, o que poderá tornar o processo mais doloroso.

Tais tendências poderiam dificultar a administração da zona do euro, gerando dúvidas quanto ao seu futuro de longo prazo. Mas é também possível que a união monetária da Europa sofra um estímulo no sentido de tornar-se ainda mais forte. "Desde a Segunda Guerra Mundial, as medidas de maior dimensão, ou acelerações do ritmo da integração econômica, ocorrem quando há uma crise", afirma Carsten Brzeski, economista do ING, em Bruxelas.

Um resultado óbvio disso poderia ser uma expansão mais rápida da zona do euro. Desde 2001, quando a Grécia juntou-se aos 11 membros originais, os novos integrantes do clube têm sido menores e mais fácil de absorver: a ex-comunista Eslovênia em 2007; Chipre e Malta no início de 2008. A Eslováquia integra-se amanhã. Agora, o perigo de uma crise de taxas de câmbio está encorajando alguns dos maiores países da União Européia que ainda estão de fora da zona do euro a reavaliar o abrigo proporcionado pela participação.

É provável que o Reino Unido continue mantendo distância do euro, mas nos próximos anos a resistência dinamarquesa poderá desmoronar, e a Hungria e a Polônia também não demorariam muito a seguir tal exemplo. "Os europeus podem não apreciar a forma como o termostato está regulado no interior do grupo, mas eles enxergam que, quando estão de fora, a temperatura é tão baixa quanto a de Reykjavik", diz Eichengreen.

"Os países candidatos precisam atender a critérios rígidos de convergência, que monitoram, entre outras coisas, as taxas de inflação, as finanças públicas e a estabilidade monetária. Além disso, há a compreensão generalizada de que, caso todos os países da União Européia ingressem na zona do euro, isso representará um grande passo rumo à nossa integração econômica. Nesse sentido, sempre é bom que mais países adotem o euro", afirma Athanasios Orphanides, presidente do banco central de Chipre e membro do conselho de administração do ECB.

Os elaboradores de políticas para a zona do euro esperam ainda que os acontecimentos dos últimos meses gerem uma melhor regulação dos bancos europeus. "Esta é uma grande oportunidade de seguirmos em frente rumo à convergência", argumenta Orphanides.

Ainda que a zona do euro tenha evitado um colapso no estilo Lehman Brothers, a opinião generalizada é de que o atual sistema fragmentado deixa a região perigosamente exposta. Mesmo assim, qualquer medida no sentido de centralizar a regulação bancária deverá encontrar resistência de governos que estão de olho nos seus interesses nacionais - algo a respeito do qual James Bond nada saberia. A moeda entra na sua segunda década mais forte em meio à crise. A confiança na base regulatória pode estar abalada, mas o valor da participação no clube do euro é mais evidente do que nunca. UOL

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