A piora da América Latina

As duras lições aprendidas com as crises anteriores não foram suficientes para proteger a região da evaporação do crédito, somada aos preços mais baixos para as matérias-primas que produz, como escreve Stephen Fidler

Até poucos meses atrás, à medida que a turbulência financeira e econômica tomava conta do mundo industrializado, a América Latina estava cheia de otimismo de que escaparia do pior. "As pessoas me perguntam sobre a crise e eu respondo, 'vão perguntar ao Bush'", disse o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a respeito de seu par americano, no início de setembro. "A crise é dele, não minha."

Agora ela é de Lula. A produção industrial do Brasil caiu 6,2% no ano até novembro, segundo números anunciados nesta semana - a queda mais acentuada da produção desde dezembro de 2001.

Por todo o continente, a crise provocou uma destruição de riqueza em grande escala. Claudio Loser, um ex-diretor do Fundo Monetário Internacional, calcula que 40% da riqueza financeira da América Latina desapareceu nos primeiros 11 meses de 2008 graças à queda das ações e outros mercados de ativos e à desvalorização cambial. Esta perda de US$ 2,2 trilhões poderia por si só reduzir os gastos domésticos em 5% no próximo ano, ele estima.

Além disso, o fluxo de crédito do exterior retraiu fortemente e a região, que em grande parte depende da exportação de matérias-primas, foi duramente atingida pelo colapso dos preços das commodities. A deterioração dos termos de comércio da América Latina - o preço das exportações dividido pelo preço das importações- poderá ser um golpe ainda mais duro do que a crise de crédito, disse Loser, agora membro do Diálogo Interamericano, um centro de estudos de Washington. "O fato dos termos de comércio estarem tão contrários às economias latino-americanas em termos de agricultura, minérios e petróleo realmente atingirá a região muito duramente", ele disse.

As previsões de crescimento estão sendo reduzidas. Os economistas em geral esperam que o produto interno bruto de toda a região aumentará apenas 1,4% neste ano, com o México provavelmente entrando ligeiramente em território negativo. A balança de riscos está fortemente no lado negativo. Na melhor das hipóteses, o progresso econômico de 570 milhões de pessoas estagnará, com os pobres entre os mais duramente atingidos, segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, uma divisão da ONU.

Mas o líder brasileiro não foi o único em sua complacência. As duras lições das crises financeiras anteriores encorajaram cautela entre os autores de políticas latino-americanos. Muitos governos coibiram empréstimos no exterior tanto pelo setor público quanto privado. Eles mantiveram baixas suas dívidas, deixaram o câmbio flutuar para evitar crises de desvalorização e formaram grandes reservas de moeda estrangeira. Eles vigiaram seus bancos como falcões, o que ajudou a assegurar que permanecessem em grande parte livres das dívidas tóxicas americanas.

Como resultado, muitos economistas e autoridades do governo viram a região como melhor posicionada do que em qualquer outro momento em cinco décadas para suportar um duro golpe. Mas o pior choque global em três quartos de século expôs a fraqueza mascarada pelos números agregados.

Uma dessas fraquezas no Brasil e no México foi uma série de contratos falhos de derivativos que as empresas assumiram juntamente com um grupo de bancos de investimento. Isso as deixou desesperadas em busca de dólares, colocando o real brasileiro e o peso mexicano em um mergulho em parafuso em outubro. "A ironia é que isso aconteceu no lado corporativo; nós estávamos observando os bancos muito atentamente", disse Guillermo Ortiz, o presidente do banco central mexicano.

Os países até aqui não afetados pela crise de crédito são aqueles que, em grande parte, já estavam excluídos do mercado financeiro internacional. Mas este grupo, que inclui Equador, Venezuela e Argentina, não escapará da crise.

Esses governos gastaram livremente durante o boom das commodities. O presidente esquerdista da Venezuela, Hugo Chávez, e Rafael Correa, do Equador, desfrutaram dos preços recordes do petróleo, e a Argentina, que tributa as exportações agrícolas, do aumento dos preços dos produtos do agronegócio. Mas agora estes países estão em um aperto. Diferente do Chile e um ou dois outros, seus governos têm pouco separado para um momento difícil.

Sem possibilidade de levantarem dinheiro por meio da emissão de títulos de dívida, eles serão forçados a conter gastos, acentuando a desaceleração: uma clássica política fiscal pró-cíclica. O Equador é ainda mais restringido por sua economia dolarizada, o que significa que é incapaz de executar uma política monetária independente.

O Equador e a Argentina agiram recentemente para afrouxar a camisa de força. O Equador anunciou no mês passado um calote de sua dívida externa pela segunda vez em uma década. O governo da Argentina nacionalizou os fundos de previdência privada, o que lhe possibilitará colocar as mãos em mais recursos para pagar suas dívidas.

Mas não está claro se qualquer espaço de manobra adicional que isso dê aos governos será superado pela confiança perdida. O anúncio da nacionalização pela Argentina, por exemplo, foi seguido por uma minifuga de capital para o vizinho Uruguai, por temor de que o governo, copiando seus antecessores, nacionalizaria os depósitos bancários. Um histórico de crises financeiras e calotes em dívida limita as opções para a Argentina. A tendência popular dos governos depreciarem a moeda significa que uma ferramenta, a desvalorização, é considerada inútil porque quaisquer benefícios seriam engolidos pela inflação.

Não é apenas na Argentina que a história limita as opções políticas. Por toda a parte há dúvidas sobre se os governos latino-americanos possuem credibilidade para conter a recessão por meio do relaxamento da política fiscal ou monetária. De fato, alguns economistas argumentam que as melhorias na gestão econômica não são muito profundas.

Mesmo nos momentos de boom, o crescimento latino-americano não se equiparou aos níveis dos melhores desempenhos da Ásia. Isso se deve, segundo eles, a obstáculos estruturais - como monopólios, burocracia e mercados de trabalho inflexíveis - que os governos foram incapazes ou não tiveram vontade de remover. Até mesmo o normalmente exemplar Chile mantém um sistema de indexação que repassa os aumentos de preços diretamente aos salários. Isso alimentou a inflação no ano passado. Quanto ao Brasil, a maior economia da região, Sebastian Ed¬wards, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, diz que Lula é altamente elogiado simplesmente por "não ser Chávez".

Se algum país construiu credibilidade, este é o Chile. Santiago tem obtido superávits fiscais equivalentes a 6 a 7% do PIB nos últimos três anos e agora tem espaço para aumentar os gastos públicos. O Chile está "em uma posição muito melhor do que outros países, assim como o próprio Chile em episódios anteriores, para enfrentar este período de turbulência", disse Andrés Velasco, o ministro da Fazenda.

Chile e Brasil possuem ferramentas não disponíveis em alguns países industrializados. Eles foram capazes de direcionar o crédito para o setor privado por meio dos bancos estatais. O banco central brasileiro também liberou bilhões de reais das reservas compulsórias para aliviar os problemas de liquidez dos bancos de pequeno e médio porte.

Mas se a crise persistir, esse pequeno espaço extra para manobra representará pouco. Mesmo o Brasil, com reservas de moeda estrangeira de mais de US$ 200 bilhões, poderia se ver em dificuldades caso a suspensão do crédito persista por muito tempo ao longo do ano.

Uma parte dessas reservas já está comprometida em acordos de swap e cambiais, dizem os economistas -e mais de um quarto da dívida pública de mais de US$ 600 bilhões do Brasil vencerá em menos de um ano. Apesar de grande parte dela ser em moeda local em vez de estrangeira, a perspectiva dos detentores de dívida estrangeiros continuarem deixando o país é preocupante.

Parte do problema, diz Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, deriva dos esforços americanos para superar a crise. Washington deverá emitir trilhões de dólares de dívida para resgatar seu sistema financeiro, salvar sua indústria automotiva e escorar sua economia. Mas isso significa que "as pessoas não estão dispostas a emprestar para quase ninguém exceto o Tesouro americano", fazendo com que "países que se comportaram bem", como o Brasil, Colômbia, México e Peru, percam grande parte de seu acesso ao financiamento externo.

Guillermo Calvo, da Universidade de Colúmbia, disse que isso mostra os Estados Unidos "empurrando para fora a América Latina e outros mercados emergentes". Ele e Hausmann estão entre os economistas que estimam que US$ 250 bilhões são necessários pelo setor público da região neste ano apenas para rolagem das dívidas e apoio ao orçamento.

O Brasil, Colômbia e México fizeram emissões de títulos nas últimas semanas, sugerindo que os mercados internacionais não estão completamente fechados para eles. Mas ainda não está claro quão significativo isto é. Se os países não puderem levantar as somas que precisam, os governos poderiam ser forçados a adotar restrições às importações, controles de capital e, pior, políticas "empobreça o vizinho" como os aumentos de tarifas e desvalorizações competitivas que intensificaram a Depressão dos anos 30.

Para evitar isso, dizem os economistas, o FMI e outras instituições financeiras públicas internacionais - atualmente emprestando bem abaixo dos US$ 100 bilhões ao ano para todos seus governos clientes de todo o mundo- deveriam mobilizar recursos sem precedentes. Eles pedem pela criação de um fundo especial que possa comprar valores mobiliários públicos e privados nas economias emergentes sem estigmatizar os tomadores de empréstimo, do modo que os programas tradicionais do FMI faziam no passado.

Os países latino-americanos recorreram a contragosto com freqüência ao FMI e outras organizações para ajudar a resolver crises financeiras causadas por eles mesmos. Apesar da grande probabilidade da região precisar novamente da instituição, desta vez para vencer uma crise profunda cujas origens se encontram distantes deles, é duvidoso que os mecanismos ou recursos estejam disponíveis para atendê-los.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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