Um Bush "mal-subestimado" menciona os seus erros

Edward Luce
Em Washington

Em uma entrevista recente perguntaram a George W. Bush qual foi o seu maior erro na presidência. O 43º presidente dos Estados Unidos afirmou que não era capaz de lembrar-se de erro algum e que gostaria de ter sabido com antecedência que a pergunta seria feita. Na segunda-feira (12/01), na sua 47ª e última entrevista coletiva à imprensa como presidente - um número bem menor do que o de Franklin Roosevelt, detentor da marca insuperável de 998 entrevistas coletivas -, Bush tinha obviamente antecipado a pergunta.

O presidente que está de saída, e que há muito tempo deu a entender que não gosta "dessa história de auto-análise", revelou alegremente uma longa lista de erros. Em uma coletiva de 50 minutos, que incluiu várias passagens que são marca registrada do presidente apelidado pelos críticos de "Dubya", Bush enumerou tais erros sem parar. O primeiro foi o famoso episódio no qual ele declarou "Missão Cumprida" a bordo do USS Lincoln, em maio de 2003, poucas semanas após a invasão do Iraque.

"Aquela frase transmitiu a mensagem errada", disse Bush, antes de acrescentar, enigmaticamente: "Estávamos tentando dizer algo diferente, mas, não obstante, transmitimos uma mensagem diferente". A seguir ele mencionou a linguagem que usou em época de guerra. Em uma referência velada ao seu notório "bring it on" (uma expressão típica de indivíduos brigões, equivalente a algo como "Vai encarar?", ou "Vem que tem"), quando referiu-se à insurgência iraquiana, ele disse: "Parte da minha retórica foi, obviamente, um erro".

A próxima gafe da lista foi a sua decisão rapidamente torpedeada de fazer pressões pela adoção de contas de previdência social privada após a sua re-eleição em 2004. Aqui, ele apresentou prestativamente uma passagem de "Bushismo": "Uma das lições que aprendi como governador do Texas foi os poderes legislativos tendem a ter 'adversão'(sic) ao risco", disse ele. "Até onde o Congresso se preocupava, não havia nenhuma crise iminente quanto à previdência".

A seguir ele falou dos "desapontamentos". Entre eles as revelações de tortura na prisão Abu Ghraib e a inexistência de armas de destruição em massa no Iraque. "Não sei se vocês desejam ou não chamar essas coisas de erros, mas foram erros... Coloquemos a questão desta forma: as coisas não saem de acordo com o planejado", disse Bush.

Sobre a forma como lidou com o desastre provocado pelo furacão Katrina, em agosto de 2005, o momento no qual, segundo analistas políticos, a sua impopularidade tornou-se irreversível, Bush não foi tão crítico: "Pensei por muito tempo e profundamente sobre o Katrina", disse ele, antes de concluir que não poderia ter feito nada diferente.

O resto da coletiva, que em 16 perguntas conseguiu cobrir grande parte dos oito anos de Bush na presidência, foi dedicado a uma defesa mais familiar da sua atuação e a piadas ocasionais sobre si próprio: "Em determinadas ocasiões não gostei das histórias que vocês escreveram ou noticiaram", disse ele. "Algumas vezes vocês me 'mal-subestimaram'. Mas o relacionamento foi sempre profissional".

Mas o presidente acrescentou que não tem a mesma opinião em relação a Washington em geral, e especialmente a respeito dos "opinadores" e "daqueles que ficam furiosos, gritam e dizem coisas ruins". Neste grupo pareceram estar incluídos os europeus, que Bush classificou com parte da minoria no mundo que nos últimos anos passou a ter uma imagem mais negativa dos Estados Unidos.

"Discordo vigorosamente", afirmou Bush, quando lhe perguntaram se o padrão moral dos Estados Unidos caiu. "Acredito que a maioria das pessoas do mundo... eles respeitam a América. E alguns deles não gosta (sic) de mim. Eu compreendo isso. Alguns dos escritores, e os , vocês sabem,opinadores, e gente desse tipo".

Bush aconselhou Barack Obama a ignorar aqueles que exageram "o peso da presidência". Usando uma voz melancólica, ele disse: "Sabem como é, é como, vocês sabem... por que eu? Ah, os fardos da presidência, sabem... é simplesmente patético, auto-comiseração, não é?".

Quanto ao seu futuro, Bush lembrou aos repórteres que ele é uma "personalidade tipo A", que não gosta de ficar parado. "Sabem como é, eu simplesmente não consigo me ver usando um grande chapéu de palha e uma camisa havaiana, sentado em uma praia", disse ele com uma risada. "Especialmente depois que parei de beber".

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