Rejeição de pacote por republicanos é um golpe para o sonho bipartidário de Obama

Edward Luce
Em Washington

Com precisamente zero votos dos parlamentares republicanos para o seu pacote de estímulo econômico de US$ 819 bilhões, as aspirações bipartidárias de Barack Obama podem já estar destroçadas apenas uma semana após ele ter tomado posse.

Mas as autoridades da Casa Branca estão depositando grandes esperanças na possibilidade de uma dissidência de republicanos moderados no Senado, quando o pacote for votado naquela casa na semana que vem, após o retumbante "Não" dos seus colegas da Câmara.

"A questão é saber se os votos dos republicanos na Câmara foram uma regra ou uma exceção", diz Matthew Bennett, vice-presidente da instituição democrata de centro Third Way. "Caso tenha sido a regra, o presidente Obama não fará muito progresso com a sua agenda 'pós-partidária'".

Obama esforçou-se bastante para restaurar um tom civilizado na política, chegando até mesmo a receber parlamentares republicanos em um coquetel na Casa Branca na noite da última quarta-feira, pouco depois de eles terem votado contra a medida. Nenhum convite do gênero foi feito aos democratas pelo abstêmio Bush.

Obama fez gestos de boa vontade significativos para os republicanos, incluindo a remoção de dois detalhes da legislação aprovada pela Câmara. Ele também incorporou uma parcela de reduções tributárias - que correspondem a um terço do estímulo - maior do que aquilo que os seus colegas democratas desejavam.
Mas até o momento os esforços do novo presidente têm sido infrutíferos. Nesta sexta-feira (30/01), será possível ter uma ideia a respeito da possibilidade de sucesso de tais esforços, quando os membros do Comitê Nacional Republicano votarão em um novo presidente do partido. Dos seis candidatos que disputam a vaga, apenas um, Michael Steele, do Estado de Maryland, é considerado moderado.

Três deles, incluindo Chip Saltsman, um republicano do Tennessee, que no mês passado distribuiu a membros do partido um CD intitulado "Barack the Magic Negro" ("Barack, o Negro Mágico", uma paródia da música infantil "Puff the Magic Dragon", ou "Puff, o Dragão Mágico"), são conservadores de linha dura. Um outro, Alan Dundan, o atual presidente, é bastante próximo a Bush. Todos eles querem um retorno à era de "conservadorismo compassivo" do governo Bush, marcada por gastos elevados e explosão da dívida.

"Os republicanos estão exibindo uma clássica narrativa protestante do tipo "Eu pequei, e agora estou arrependido'", diz Bill Galston, analista político da Brookings Institution, uma instituição bipartidária de pesquisas políticas. "Eles acreditam - a despeito das evidências em contrário - que o motivo pelo qual perderam a eleição foi o fato de terem se distanciado muito da pura fé. Na verdade, as pesquisas mostram que eles não se distanciaram o suficiente".

Mas as autoridades do governo Obama sabem que os senadores republicanos, que, ao contrário dos seus colegas na Câmara, enfrentam uma campanha pela reeleição a cada seis anos, e não a cada dois, muitas vezes dançam em um ritmo diferente. Mitch McConnell, o líder da minoria no Senado, tem dado a impressão de ser mais receptivo em relação ao pacote do que o seu congênere na Câmara, o deputado John Boehner. Mas McConnell também reclamou de que a Casa Branca não se esforçou para atender nem a metade das queixas dos republicanos: "O único aspecto bipartidário em relação a esta proposta é a oposição a ela", disse ele na quarta-feira, referindo-se ao número de economistas democratas que também levantaram dúvidas quanto à efetividade do pacote.

Os republicanos argumentam que a maior parte da porção do pacote de estímulo referente aos impostos será distribuída na forma de créditos de US$ 500 (;euro 385) aos norte-americanos de classe média, e que estes créditos provavelmente serão colocados na poupança ou utilizados para o pagamento de dívidas.

"Estamos falando sobre quase um trilhão de dólares que precisam ser gastos de acordo com um padrão mais elevado do que este", afirma Don Stewart, porta-voz de McConnell. "Ao contrário da Câmara, contamos no Senado com amplas oportunidades para a aplicação de emendas, e pretendemos utilizar essas oportunidades".

Obama pode contar com uma chance maior de conquistar alguns senadores republicanos para a aprovação do pacote, garantindo, desta forma, que a versão da medida no Senado seja a que prevaleça quando as duas versões forem "reconciliadas" em uma conferência das duas casas parlamentares. No entanto, a despeito dessa possibilidade, caberá aos líderes republicanos e aos membros do Comitê Nacional Republicano decidir se receberão a oferta de Obama com uma mão aberta ou com um punho fechado.

"Ninguém sabe se este pacote de estímulo funcionará", diz Bennett. "Assim como Franklin Roosevelt em 1932, é preciso tentar tudo e esperar para ver se as medidas funcionam. Deve haver alguns senadores republicanos que concordam com isso".

Tradução: UOL

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