Netos de Khomeini unem-se ao movimento de reforma no Irã

Najmeh Bozorgmehr e Roula Khalaf

Quando o aiatolá Ruhollah Khomeini voltou do exílio para o Irã 30 anos atrás (completos neste fim de semana), para liderar a revolução islâmica que acabou com o regime do Xá (apoiado pelos EUA) e conduziu a uma teocracia, ele manteve seus parentes mais próximos fora da política.

Com exceção de Ahmad, seu filho mais novo, que foi seu companheiro e, na verdade, seu porta-voz até a morte do líder em 1989, pouco se sabia sobre o lar dos Khomeini.

Mas, recentemente, bem depois de o brilho da revolução ter sumido, os iranianos começaram a reparar em alguns de seus 15 netos - especialmente por estes terem se juntado ao movimento de reforma.

Os reformistas lutaram por anos - com pouco sucesso - para conciliar o domínio dos clérigos instituído pelo aiatolá Khomeini com os princípios de uma democracia e um governo responsável.

"Vinte ou trinta anos tivemos a era das revoluções e tentativas de golpe no mundo, mas agora é a era do progresso", diz Zahra Esharghi, uma de seus netos, que acredita não ser uma boa época para o Irã estar isolado.

Eshragi é o membro da família que mais diz o que pensa, mas é Hassan Khomeini, filho de Ahmad, que muitos consideram ter um futuro político promissor.

Esse clérigo de 37 anos, que, dizem, herdou a ambição política de seu avô, mostrou frustração com algumas políticas de um regime dominado por fundamentalistas como Mahmoud Ahmadinejad, o presidente.

"Precisamos encontrar novas respostas para novas perguntas", disse Hassan recentemente, lembrando aos políticos que se ater a velhas regras nem sempre é o melhor caminho.

Da mesma forma que seu avô fez, Hassan tem estudado na cidade sagrada de Qom, e deve publicar em breve seu primeiro livro sobre seitas islâmicas - um passo que lhe renderá maior autoridade clerical.

Ele também administra o templo de seu pai e, segundo alguns analistas, tem resistido à pressão de concorrer a um mandato, incluindo chamadas para disputar as eleições presidenciais em junho. Mas ele compareceu recentemente a uma reunião de políticos reformistas, dando indiretamente seu apoio a rivais em potencial.

Os radicais no regime islâmico estão o observando de perto, e alguns o atacaram ano passado depois que ele criticou o envolvimento na política da Guarda Revolucionária, e força de elite criada por seu avô como um contraponto ao exército comum. Sob Ahmadinejad, a Guarda expandiu sua influência política e econômica.

Em um ataque extraordinário a um membro da família Khomeini, alguns radicais o acusaram de corrupção, alegando que ele dirigia uma BMW, apoiava políticos ricos e era indiferente ao sofrimento dos pobres.

Ainda que possa parecer irônico que a família Khomeini seja hoje mais associada ao campo reformista, alguns políticos reformistas muito conhecidos foram próximos do líder durante sua vida. Eles ficaram isolados do poder após sua morte.

Os Khomeinis também estão atados aos reformistas pelo casamento. Eshragi é a mulher de Reza Khatami, um reformista sênior e irmão de Mohammad Khatami, ex-presidente e líder do movimento reformista, que buscou por muito tempo promover diálogo com o Ocidente e trazer o Irã de volta à comunidade internacional.

Eshragui foi impedida - pelo Conselho da Guarda, um organismo não-eleito que detém considerável poder - de concorrer às eleições parlamentares de 2004. Um de seus irmãos, Ali, retirou sua candidatura das eleições gerais no ano passado, depois do que sua família chamou de campanha difamadora contra ele. Mas muitos jovens iranianos admiram Hassan, um homem bonito com senso de humor que tem amigos atletas, inclusive estrelas do futebol. "Ele é jovem, cheio de motivação e batalhador, e está tentando entender a juventude do país", diz um ex-oficial iraniano.

A sombra do aiatolá ainda paira sobre o Irã.

As crianças são ensinadas e testadas sobre seu legado e celebrações anuais são feitas em escolas. Todavia, a maioria dos iranianos é jovem demais para se identificar com a revolução ou entender seu contexto histórico. Assolados por problemas econômicos, isolamento internacional e com sua liberdade reprimida, muitos questionam a lealdade de seus pais à revolução.

Para alguns membros da família Khomeini, Hassan carrega a esperança de ressuscitar o que eles insistem ser o verdadeiro legado de seu avô - um sistema democrático sob Velayet-e Faqih, o governo do jurista islâmico que o aiatolá implementou.

Eshragi diz que Hassan deveria almejar até mais do que a presidência, por causa de suas "capacidades" formidáveis. Será que ela quer dizer que ele é um futuro líder supremo em potencial, a mais alta posição de autoridade que foi ocupada por seu avô e que agora o é pelo aiatolá Ali Khamenei? Ela sorri, mas não responde.

No entanto ela não tem dúvida de que Hassan possui a legitimidade no mundo xiita para exercer um papel político notável, se assim ele desejar. "Ele é muito inteligente e terá um grande futuro".

Tradução: Lana Lim

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