Inflação dos anos 70 é lição de prudência para hoje

Tony Jackson

A inflação, concordam os especialistas, está fora da agenda. O FMI, por exemplo, diz que a inflação praticamente desaparecerá nas economias avançadas este ano e voltará no ano que vem com um índice de apenas 0,75%.

Nem todos, entretanto, estão tão relaxados. Na semana passada o Osmium Capital, um fundo hedge sediado nas Bahamas, ofereceu aos seus investidores ações com valor atrelado ao ouro, uma vez que alguns haviam se mostrado inquietos por terem sua riqueza em papéis numa época de grandes gastos governamentais.

É difícil não se identificar com isso. Tenho memórias vívidas dos inflacionários anos 70, e isso pode influenciar meu julgamento. Mas nessa época estranha, as previsões econômicas são um tiro no escuro. E a inflação tem aspectos comportamentais além dos técnicos. As previsões nesse caso não são boas.

A começar pelo fato de os governos agora tomarem como certo que vale a pena gastar incondicionalmente para evitar os males do desemprego.
Vale colocar isso num contexto histórico.

Até os anos 80, o fato de que o principal alvo da política econômica era o emprego total era um axioma. Quando o desemprego cresceu, o freio monetário foi retirado e a leve inflação resultante foi vista como um preço justo a se pagar.

Mas quando a inflação real decolou nos anos 70, veio junto com um aumento do desemprego, num quadro que gerou perplexidade. A partir de certo ponto, parecia, a inflação não era mais uma cura, mas sim parte da doença.

Em resposta, os governos de ambos os lados do Atlântico abandonaram a equação inflação-desemprego. Nos EUA, a remessa original do Federal Reserve para o emprego total foi complementada em 1977 por outra remessa num valor expressivo - a chamada emissão dupla.

Hoje, esses anos problemáticos são uma memória distante. De fato, até recentemente o Banco da Inglaterra se vangloriava do fato da equação inflação-desemprego ter melhorado no Reino Unido, apontando para uma década de queda no desemprego sem afetar a inflação.

A maior parte disso, é claro, resultou da enxurrada de mão-de-obra da China e Índia. Levando em conta o número de trabalhadores das fábricas chinesas que estão voltando para o campo, talvez não devamos ser tão complacentes.

Uma segunda preocupação comportamental é que a inflação agora é vista como uma solução para a crise do débito. O conhecido gerente de investimentos londrino Crispin Odey, por exemplo, argumentou nesse mesmo jornal na semana passada que uma dose de inflação permitiria às companhias minimizarem o fardo paralisante de seus débitos.

Isso evoca os anos 70, quando a inflação causou uma transferência em massa de riquezas daqueles que poupavam para os que tomavam emprestado. Mas muito disso aconteceu porque os investidores e os governos subestimaram a velocidade do aumento da inflação. Na Inglaterra, por exemplo, as taxas de retorno reais [reajustadas pela inflação] e as taxas governamentais ficaram no negativo durante anos.
Suponha, entretanto, que as taxas de retorno reais permanecessem constantes. Nesse caso, o credor só ganharia se o empréstimo tivesse sido estabelecido com taxas fixas a longo prazo. Para empréstimos novos ou renovados, o custo geral em termos reais também permaneceria constante. A única mudança seria em relação ao tempo dos pagamentos.

Como exemplo, considere um empréstimo de 10 milhões de libras por cinco anos com uma taxa de retorno real de 2%, em duas circunstâncias diferentes. No primeiro, o credor assume corretamente que há uma deflação anual de 1% no período, resultando numa taxa de juros de 1%.
O segundo assume corretamente que há 10% de inflação, resultando numa taxa de juros de 12%

Na primeira situação, quase todo o custo real vem com o pagamento final do dinheiro devido. No segundo, os juros chegam a somar 40% do total.

Para explicar isso de outra forma, nos primeiros três anos do empréstimo deflacionário, o devedor precisa pagar apenas 5% do total em termos reais. No cenário inflacionário, isso aumenta para quase 30%. Então os pagamentos são acelerados. Será que é isso que as companhias de fato querem numa época de pouca fluidez?

Esses exercícios são hipotéticos, é claro, no sentido de que trabalham com uma previsão perfeita por parte do credor. Na prática, o credor pode cometer erros nas duas direções. Dessa vez, com o exemplo dos anos 70 em mente, os credores poderão da mesma forma superestimar a inflação futura, e então os devedores ficarão numa situação pior do que antes.

Devo deixar claro aqui que não acredito numa inflação alta em breve.
Mas sendo naturalmente conservador com minha própria e modesta poupança, acho que a prudência está na ordem do dia.

O ponto é bem explicado pelo Morgan Stanley. Sua análise diz que uma inflação alta é uma possibilidade distante. Mas uma vez que os mercados estão estabelecendo os preços sobre a deflação há anos, faz sentido ter um seguro contra o chamado "cisne negro" - um evento imprevisível. E, acrescentam, esse tipo de seguro é barato hoje.

As razões para isso ficam para outra coluna. Mas o conselho geral é expressivo. Eu mesmo vou segui-lo.

Tradução: Eloise De Vylder

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