Wolf: Por que o Homem de Davos está esperando que Obama o salve?

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

A posição de uma hiperpotência está errada. Isto é particularmente verdadeiro quando, como na semana passada no encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, a hiperpotência em questão mal está representada, pelo menos na esfera oficial. Mas, verdade seja dita, os críticos dos Estados Unidos -liderados pelos primeiros-ministros Wen Jiabao, da China, e Vladimir Putin, da Rússia- tinham uma história fácil de incompetência e não cumprimento do dever para contar.

Porém, por mais fácil que seja culpar os Estados Unidos pelos atuais apuros econômicos globais, também são para os Estados Unidos que o mundo se volta em busca de uma solução.

O sentimento geral em Davos era de pessimismo beirando o desespero. O pessimismo é justificado, como a atualização do Panorama Econômico Mundial do Fundo Monetário Internacional deixa claro. O crescimento econômico global agora está projetado para cair a mero 0,5% neste ano, sua taxa mais baixa desde a Segunda Guerra Mundial. A produção nos países de alta renda deverá cair em 2%, a primeira retração anual desde 1945. A produção industrial e as exportações de produtos estão em queda livre, à medida que os consumidores decidem que não precisam daquele carro novo ou de outro bem no momento.

Dada a taxa com que estão deteriorando, a realidade pode vir a ser bem pior do que estas previsões. A queda em parafuso global de incerteza, cautela e cortes nos empréstimos e gastos poderá continuar. Por outro lado, uma ação política poderia mudar o curso. Mas essa ação precisa ser decisiva. Isto é particularmente verdadeiro para o governo Obama, do qual tanto depende. Ele tem uma oportunidade dourada de reverter agora a queda em parafuso. Depois disso ele se tornará parte do problema. Até o momento a evidência é desencorajadora. Ele deve ser bem mais ousado.

Mas nem todas as notícias são péssimas. Os spreads entre as taxas de juros oficiais e as dos empréstimos interbancários caíram acentuadamente; os spreads entre os títulos do Tesouro americano e os ativos de risco também estão cedendo, apesar de permanecerem muito altos. O declínio nos preços do petróleo representa uma imensa mudança na renda de países, de poupadores para gastadores. Como o atual colapso na demanda e na produção é o resultado defasado da perturbação anterior, melhores notícias podem surgir à frente.

Mas esse otimismo deve ser mantido refreado. Como nota o Relatório de Estabilidade Financeira Global (GFSR, na sigla em inglês) do FMI: "O agravamento das condições de crédito (...) elevou nossa estimativa da deterioração potencial dos ativos de crédito originados nos Estados Unidos (...) de US$ 1,4 trilhão no GFSR de outubro de 2008 para US$ 2,2 trilhões". As perdas também estão se espalhando para muitas outras classes de ativos e economias à medida que piora a recessão.

O crescimento do crédito privado está caindo na maioria das economias. As finanças do comércio foram particularmente afetadas, com péssimos resultados. O fluxo dos fundos privados para as economias emergentes está entrando em colapso: segundo o Instituto para as Finanças Internacionais, com sede em Washington, o fluxo privado líquido está projetado para apenas US$ 165 bilhões em 2008, em comparação a US$ 466 bilhões em 2008. A Europa Central e Oriental está particularmente vulnerável.

As pressões protecionistas estão aumentando rapidamente, não apenas no setor financeiro, mas também no comércio. No primeiro caso, Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, fez o papel em Davos de hipócrita-em-chefe, lamentando o aumento do protecionismo financeiro que seu próprio governo vem praticando. No segundo caso, nada supera a tolice da cláusula "Buy America" (compre da América) no projeto de lei do pacote de estímulo americano. Isso é um convite à retaliação. Para um país que precisa exportar para sair de sua recessão, isso é loucura. Para um país que fez da economia global aberta o ponto central de sua política externa por duas gerações, é um vandalismo. É nesta mudança que devemos acreditar?

Diferente de alguns pontos de vista manifestados em alguns círculos, notadamente nos Estados Unidos, as depressões não são nem boas para nós e nem inevitáveis. O que é necessário é uma ação determinada e coordenada globalmente. A liderança deve vir dos Estados Unidos: o país continua sendo a hiperpotência; o sistema econômico é o que ele promoveu; e a crise tem muito a ver com os erros que seus autores de políticas e instituições privadas cometeram, mesmo que auxiliados e instigados por erros em outros lugares.

E quais são os princípios que devem ser seguidos? Eu sugiro o seguinte:

Primeiro, concentrar toda a atenção na reversão do colapso da demanda agora, em vez da arquitetura global.

Segundo, empregar uma força esmagadora. O momento para o "choque e espanto" na política econômica é agora.

Terceiro, tornar crível a futura normalização das políticas monetárias e fiscais.

Quarto, agir de forma orquestrada. Mesmo os Estados Unidos não podem resolver seus problemas sozinhos.

Quinto, evitar o protecionismo.

Sexto, fortalecer a capacidade das instituições globais de ajudar os mais fracos.

Logo, como estamos nos saindo em relação a estes padrões? "Melhor do que nos anos 30" é o melhor que alguém pode dizer. O mundo precisa desesperadamente que Obama tenha um domínio mais firme em casa e uma liderança mais forte no exterior. Os planos que ele está anunciando agora lhe dão uma chance de realizar o primeiro. O encontro de cúpula do Grupo dos 20 em abril, em Londres, é sua chance de exercer o segundo.

Infelizmente, o que está vindo dos Estados Unidos e desesperadamente desencorajador. Em vez de um estímulo fiscal esmagador, o que está surgindo é pequeno demais, desperdiçador demais e mal focado. Em vez de uma ação decisiva para recapitalizar os bancos, o que significaria um controle público temporário dos bancos insolventes, os Estados Unidos podem estar voltando à política imoral e ineficiente de resgatar aqueles que possuem "ativos tóxicos". Em vez de agir como líder global, há o desejo de recorrer ao protecionismo e ao jogo de atribuição de culpa.

Este caminho leva à catástrofe. Eu espero pouca iluminação do restante do mundo: o Banco Central Europeu está permitindo que a zona do euro entre em profunda recessão; o Japão está sofrendo um colapso; a China ao menos anunciou um grande pacote de estímulo, mas ela carece de um plano crível para as reformas estruturais necessárias; e a maioria dos outros países emergentes só pode tentar permanecer à tona nestes mares tempestuosos. Suas reservas acumuladas de moeda estrangeira ao longo dos anos 2000 ajudarão. Mas os recursos que o FMI dispõe, mesmo que venham a dobrar como esperado, são pequenos demais para dar à maioria das economias emergentes a confiança necessária para correrem o risco de continuarem gastando.

As decisões tomadas nos próximos poucos meses moldarão o mundo por uma geração. Se passarmos por esta crise sem colapso, nós teremos tempo e a chance de construir uma ordem global melhor e mais estável. Se não o fizermos, essa oportunidade poderá levar décadas para ocorrer de novo.

Nós estamos vivendo no vértice da história. A prioridade é reverter a queda em parafuso do desespero por meio de uma ação orquestrada esmagadora. Isso só ocorrerá se os Estados Unidos exibirem a liderança que precisamos. Obama poderá até descobrir, como muitos presidentes descobriram antes dele, que liderar o mundo é mais fácil e mais recompensador do que persuadir um Congresso recalcitrante. Este pode não ser o desafio que ele esperava. Mas é o desafio diante dele. A história julgará a presidência dele com base em se ele teve a ousadia de ser bem-sucedido.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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